• Paraíso17

20 anos

*Aaron Carvalho
27/04/2017 10h40

O lençol branco caído no chão junto ao travesseiro velho que ela havia me dado para passar a noite só reforçavam uma coisa: que aquele sofá era pequeno demais para mim. O sol entrava na sala pela janela com as cortinas semiabertas; na porta, estavam os sapatos que uso para trabalhar todos os dias. Talvez eu devesse trocá-los, talvez eu devesse comprar novos, mas a verdade é que eu já me acostumei com os sapatos velhos e gastos como também já me acostumei com esta vida que estou levando há vinte anos.

 

Esses vinte anos se passaram como vinte séculos, mas me lembro deles como se fossem apenas vinte dias, me lembro do dia do nosso casamento, me lembro de como ela estava linda, me lembro de ter pensado em como eu era sortudo por tê-la ao meu lado, ela sempre esteve ao meu lado, mas eu nunca estive ao seu. Em vinte anos ela se dedicou exclusivamente a mim, mas eu não fiz o mesmo.

 

Ao menos dez dos vinte anos que passamos juntos foram realmente felizes. Após a famosa crise dos sete anos, pensamos que nada poderia nos separar, até aparecer uma garota nova no escritório: ela era jovem e tão bonita, e para um quase quarentão ter uma mulher como aquela era como ganhar na loteria.

 

Meu caso foi descoberto logo no início, então pensamos em nos separar, mas minha esposa estava grávida. A criança que parecia ser a salvação do nosso casamento acabou se tornando o principal motivo para se querer o divórcio. Quando ele nasceu era tão estranho, eu não sabia como era ser pai e nem como era ter um. Meu pai havia fugido com uma mulher quinze anos mais jovem quando eu nasci. Ele me abandonou junto com minha mãe e meus dois irmãos mais velhos. Acho que o único motivo para eu não ter ido embora foi por não querer me igualar a ele.

 

Com o tempo, eu fui me acostumando à ideia de ter um filho, mas com ela parece ter ocorrido o oposto. Ela se isolava no quarto sempre que podia e ficava trancada lá dentro por horas. Às vezes eu a ouvia chorar ou resmungar baixinho, não sei se ela rezava ou me xingava, mas sei que eu era o culpado por aquela situação.

 

Os últimos dez anos foram um verdadeiro inferno, ela não saía do quarto nem para comer, foi quando comecei a dormir no sofá. Quando meu filho me pergunta a razão pela qual eu durmo no sofá há mais ou menos quatro anos eu fico sem fala, não quero que ele saiba dos erros que seu pai cometeu, só quero que ele aprenda que não deve cometê-los também.

 

Eu sei que sou o culpado por minha vida ser desse jeito, eu sei que sou o culpado por tudo o que aconteceu e que está acontecendo, mas dizem que nós criamos nossos próprios demônios e eu criei o meu. Só espero que algum dia minha vida possa voltar ao normal, que tudo possa voltar a ser como antes. Mesmo sabendo que estou insistindo em uma causa perdida eu continuo tentando, pois sou eu o responsável por toda essa tristeza e sou eu quem deve por um fim nela.

 

*Estudante do curso de Informática do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Mato Grosso do Sul (IFMS), campus: Nova Andradina. Nerd, roqueiro, adoro assistir animações, animes e filmes de super-heróis, amo ler livros, mangás e HQs. Adoro criar histórias. Meu sonho é ser roteirista, minha meta é ganhar um Oscar.



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