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Qual a natureza do grande acordo nacional?

*Cleyton Lutz
06/12/2017 09h20

O termo “grande acordo nacional” é o que melhor define o momento que o Brasil tem passado. É bem verdade que na época do impeachment da presidenta Dilma Rousseff a movimentação política para destitui-la não recebia esse nome. Ninguém chamava de “grande acordo nacional”, embora já o fosse. Alguns preferiam impeachment mesmo, outros, mais exaltados, chamaram de golpe. E por aí vai.

 

Quem cunhou o termo foi o empresário Sérgio Machado em diálogo com o senador Romero Jucá (PMDB-RR). Ao falarem sobre os danos políticos causados pela Operação Lava-Jato, em conversa telefônica gravada, Machado afirma que a presidenta não faria nada para impedir as investigações e que a solução seria colocar no poder o vice-presidente Michel Temer.

 

Em seguida sugere: “é um acordo, botar o Michel, num grande acordo nacional”. Na sequência é a vez de Jucá. “Com o Supremo [Tribunal Federal - STF], com tudo”.

 

Apesar do grande destaque que o diálogo deveria ter recebido, a conversa passou despercebida. A própria Polícia Federal, tão atuante na operação, em relatório enviado ao STF, descartou crime de obstrução de justiça na fala.

 

Com a pouquíssima repercussão da conversa, o diálogo de Jucá e Machado resume o momento político vivido no país e com certeza será tema de estudos históricos futuros.

 

O “grande acordo nacional” foi delineado ao longo dos últimos anos, não surgiu de uma hora para a outra, e envolve uma série de fatores.

 

O que mais me chama a atenção é a noção de “nacional” no “grande acordo” proposto por Machado e endossado por Jucá. O acordo, de fato, envolve uma série de grandes interesses. Mas é inegável que se trata de um nacional sem povo, embora boa parte da população, em especial a classe média, tenha servido como massa de manobra na movimentação política.

 

É um “nacional”, que revela muito sobre o entendimento que as elites econômica, política e midiática têm do país. O interesse das elites, na visão delas, é o interesse “nacional”. Só isso faz com que um presidente com quase 100% de rejeição se mantenha no poder.

 

São elas que querem “diminuir o Estado” à custa dos direitos sociais da população mais pobre, explorar o trabalhador com vistas a precarização as relações de trabalho, acabar com a aposentaria dos trabalhadores em prol do lucro das grandes empresas, vender as riquezas nacionais para o grande capital estrangeiro a preço de banana e fazer a população acreditar na “retomada da economia” e no “controle da inflação”.

 

Ora, basta precisar de um serviço público para perceber que eles não são devidamente satisfatórios (e ainda vão piorar com as medidas recentes). Ir ao mercado ou ainda a um posto de combustível para perceber o impacto que aumento dos preços tem na vida de qualquer cidadão. Quem não conhece um trabalhador desempregado que atire e primeira pedra.

 

O limite do “grande acordo nacional”, eu não sei. O quão fundo podemos ir? Mas a natureza dele é bem conhecida.    

 

*Jornalista






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