• Paraíso17

Reflexão acerca da cordialidade brasileira

*Michele Campina da Silva e **Ricardo Oliveira da Silva
09/01/2018 09h30

O presente trabalho tem como foco analisar a ideia de homem cordial partindo da interpretação apresentada por Sérgio Buarque de Holanda na obra Raízes do Brasil, publicada em 1936. O livro Raízes do Brasil foi uma narrativa sobre a nação que apresenta uma identidade sobre o que é ser brasileiro a partir da noção de homem cordial. No livro o autor destacou a personalidade do sujeito marcada pela emotividade, a espontaneidade, o desejo de conviver com os outros e também sua indistinção na separação entre público e privado. A obra Raízes do Brasil, elencou uma nova configuração ao conceito de cordialidade, onde tal adjetivo não parte da prerrogativa de “bondade”, mas refere-se ao jeito peculiar como o qual o brasileiro historicamente desenvolveu suas relações sociais, no âmbito familiar e no espaço público. Para Sérgio Buarque de Holanda o homem cordial seria o traço peculiar do caráter brasileiro "[...] nós nos comportamos de modo perfeitamente contrário às atitudes já assinaladas japonesas, onde ritualismo invade o terreno da conduta social para dar-lhe mais rigor. No Brasil é precisamente o rigorismo do rito que se afrouxa e se humaniza.” (BUARQUE, 1995, p.149).

 

Segundo o autor, nós brasileiros teríamos herdado a sociabilidade do homem cordial tendo como exemplo o “ser português”. O caráter do brasileiro como “homem cordial” origina-se de Portugal. No caso,“a cordialidade,a hospitalidade, a generosidade, virtudes tão gabadas por estrangeiros que nos visitam, representam, com efeito, um traço definido do caráter brasileiro, na medida, ao menos, em que permanece ativa e fecunda a influência ancestral”. (HOLANDA,1995, p.146), no entanto essa cordialidade na teria nada a ver com civilidade:

 

Seria engano supor que essas virtudes possam significar "boas maneiras”, civilidade. São antes de tudo expressões legítimas de um fundo emotivo extremamente rico e transbordante. Na civilidade há qualquer coisa de coercitivo(...). Nenhum povo está mais distante dessa noção ritualista da vida do que o brasileiro. Nossa forma ordinária de convívio social é, no fundo, justamente o contrário da polidez. Ela pode iludir na aparência— e isso se explica pelo fato de a atitude polida consistir precisamente em uma espécie de mímica deliberada de manifestações que são espontâneas no “homem cordial”: é a forma natural e viva que se converteu em fórmula. Além disso a polidez é, de algum modo, organização de defesa ante a sociedade.(...) No “ homem cordial”, a vida em sociedade é, de certo modo, uma verdadeira libertação do pavor que ele sente em viver consigo mesmo, em apoiar-se sobre si próprio em todas as circunstâncias da existência. (HOLANDA, 1995, p.147).

 

A definição de que “o homem cordial” pressupõe “espírito amigável” ou “generoso” faz com que esse tipo, bem adaptado ao brasileiro neoportuguês, tratasse desconhecido como se fossem irmãos, exemplo disso foi o uso de nomes no diminutivo como chamar João por Joãozinho.

 

No entanto, o homem cordial também apresenta uma face menos “positiva”, a amizade, o afeto e a cordialidade herdados do ambiente familiar, nos espaços públicos se apresentou como problema, pois “não era fácil para os detentores das posições publicas de responsabilidades formados por tal ambiente, compreenderem a distinção fundamental entre os domínios do privado e do publico". (HOLANDA, 1995, p. 145). Esse aspecto constitui uma identidade singular e diferenciadora em comparação com outros povos. Admirável aos olhos de estrangeiros, mas uma barreira para a construção de uma sociedade marcada pela impessoalidade, racionalidade e lisura no espaço que ultrapassa o da família, ou seja, o espaço público.

 

O conceito de homem cordial para Sérgio Buarque foi compreendido como um obstáculo na construção de um estado democrático. para ele o homem cordial seria marcado pela exacerbação de afeto: tanto para a formação de laços comunitários quanto para sua ruptura violenta. Raízes do Brasil pontua, com fina sensibilidade, algumas das mazelas de nossa vida social, política e afetiva. Superar essa herança é uma posição defendida nas páginas do livro, sendo assim o autor afirma que o brasileiro seria um neoportuguês, tendo como uma de suas faces o homem cordial. Mas o importante seria sermos brasileiros. Para isso, contudo, foi necessário um mergulho nas “raízes do Brasil”.

 

Referências:

BARROS, Jose D’ Assunção. História das ideias - em torno de um domínio historiográfico. História em Reflexão, Dourados, vol.02, nº. 03, p.01-11,jan./jun.2008

BEVIR, Mark. A logica da história das ideias. Bauru, SP: EDUSC, 2008.

HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. 11ª ed. Rio de Janeiro: DP&A, 2006.

LEENHARDT, Jacques. Frente ao presente do passado: as raízes portuguesas do Brasil. In: PENSAVENTO, Sandra Jatahy (org.). Um historiador nas fronteiras: o Brasil de Sérgio Buarque de Holanda. Belo Horizonte: Editora da UFMG, 2005, p. 81-106.

HOLANDA, Sérgio Buarque de.  Raízes do Brasil. 26ª ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.

PESAVENTO, Sandra Jatahy. Cartografias do tempo: palimpsestos na escrita da historia. In: PESAVENTO, Sandra Jatahy (org.). Um historiador nas fronteiras: O Brasil de Sergio Buarque de Holanda. Belo Horizonte: editora UFMG, 2005, p.17-80.

REIS, José Carlos. As identidades do Brasil: de Varnhagen a FHC. 3ª ed. Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas, 2000.

 

*Acadêmica do Curso de Licenciatura plena em História da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, no Campus de Nova Andradina.

**Docente no Curso de Licenciatura plena em História da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul  no Campus de Nova Andradina.






VEJA MAIS