• Paraíso17

Aqueles anos

*Aaron Carvalho
22/03/2018 18h00

O ventilador enferrujado rangendo no teto e o tic-tac do relógio na parede são os únicos sons que podem ser ouvidos em todo o quarto. O forte aroma de café impregnando a casa sinaliza que ele está acordado. Espero ele ir trabalhar para então me levantar, evitando assim qualquer contato que possamos vir a ter.

 

Na sala, o lençol branco e o travesseiro bege que eu havia dado para ele dormir no sofá estavam caídos no chão, cobertos de poeira. Na parede, a foto de casamento de vinte anos atrás imortaliza um sentimento que não existe mais. Um sentimento interrompido bruscamente por uma traição.

 

Um filme de tudo que vivemos nesses vinte anos passa pela minha cabeça: lembro-me do dia do nosso casamento, de vê-lo chorando de felicidade. Lembro-me das suas juras de amor eterno, e também de ter acreditado nelas.

 

No princípio nosso amor parecia inabalável, nosso romance era tão puro que nada poderia destruí-lo.

 

Ao menos era o que eu imaginava. Sua rotina de trabalho foi afetando cada vez mais o nosso casamento, como se aos poucos ele estivesse deixando de ser meu marido. Aos dez anos de casados, por meio de uma ligação anônima me foi dada a notícia de que ele estava me traindo com uma garota do escritório. Eu perdi o chão, meu mundo repleto de cores de repente havia se tornado preto e branco, o mundo escureceu, e em seguida houve um clarão, como um feixe de luz direto na minha cara. Demorei a perceber que se tratava de um hospital, e que eu havia tido uma queda de pressão arterial no meio da rua. A felicidade estampada no rosto da enfermeira entregava mais do que um simples diagnóstico, um arrepio na espinha e uma forte enxaqueca acompanharam então a notícia da minha gravidez.

 

Meu sonho de adolescência havia sido arruinado por uma traição. Passados os nove meses de gestação, não havia motivos para seguir em frente. Um desejo imensurável pela morte havia tomado conta de mim, e por várias vezes me vi sozinha implorando por socorro. A única pergunta que me permito fazer é: se existe um deus, por que ele me abandonou?

 

Meu devaneio é interrompido pelo som de um molho de chaves vindo da porta. Ele entra na sala e se assusta ao me ver, me olha da cabeça aos pés como se fosse um fantasma, como se não devesse estar ali. Ele abaixa a cabeça e passa depressa por mim, como se eu pudesse lhe fazer algum mal. Eu agarro seu braço e olho dentro dos seus olhos:

 

- Pensei que não iria se levantar esta manhã. Algum problema?

 

- Sim, eu quero o divórcio.

 

*Estudante do curso de Informática do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Mato Grosso do Sul (IFMS), campus: Nova Andradina. Nerd, roqueiro, adoro assistir animações, animes e filmes de super-heróis, amo ler livros, mangás e HQs. Adoro criar histórias. Meu sonho é ser roteirista, minha meta é ganhar um Oscar.






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