• Paraíso17

A nova velha política

*Vladimir Polízio Júnior
16/04/2019 11h00

Já votei em Lula e em vários candidatos do PT ao longo dos anos, principalmente em José Genoino como deputado federal, mas nunca fui filiado. Votei Bolsonaro em 2018 por não encontrar em nenhum outro perspectiva real de mudança da denominada velha política. Na verdade quem mais representaria essa mudança seria João Dória, mas por insistência de Alckmin em manter-se postulante, tal qual Ulisses Guimarães em 1989 ao obstaculizar a candidatura de Quércia ao Planalto, Dória virou governador de São Paulo e o resto todos sabemos: o candidato do PSDB escorraçado com menos de 5% dos votos e ficou em terceiro, nossa quase presidente em 2014 Marina perdeu até para Cabo Daciolo e cravou 1%, e no final do 2º turno Bolsonaro venceu Haddad.

 

Passada a histeria da vitória pelos mais fanáticos, o discurso via redes sociais ainda suplanta as necessárias e indispensáveis políticas efetivas de governo. O resultado é que mais de uma vez o presidente foi desmentido por ministros porque fala bobagens, na maioria das vezes, e sobre o que não sabe, quase sempre. O problema é que antes da eleição ele não era diferente, de modo que a frustração do eleitor se dá mais no campo do que se imaginava que poderia ser o governo. Explico: Já ouvi de muitos que a frustração com o atual mandatário do Planalto ocorre porque se imaginava que grandes políticas públicas fossem implementadas o mais rápido possível, que mudanças estruturais surgissem ao horizonte, que o Estado seria mais transparente e eficiente, e que o partido, e os políticos, que se escoraram nessa ideia de reconstrução da política nacional significariam a ressureição da ética e da moralidade na administração pública.

 

Nada disso aconteceu, pelo menos até o momento. E nada pode ser imputado à oposição, pois a desconstrução dos ideais defendidos ao longo da campanha de 2018 ocorre pela inapetência dos vencedores em transformar em realidade o que apregoaram aos eleitores; a oposição, coitada, caminha manca e sem líderes, vivendo a ficção da utopia de ora defender liberdade para um político corrupto, o “Lula livre”, ora para enaltecer a “democracia” de Maduro na Venezuela, ou seja, vai de mal a pior por seus próprios pés. Por isso a ideia de um barco à deriva ser tão atual e verdadeira: a falta de habilidade na articulação com parlamentares para aprovação de reformas, a inabilidade de um discurso único para as políticas exterior e interior, a ausência de coesão entre partidos da base do governo são apenas alguns dos entraves que necessitam ser superados o quanto antes.

 

O mais grave, porém, é a distância entre o propalado em campanha e a prática com relação ao tema corrupção, aqui utilizado como gênero que engloba as espécies “crime comum” e “crime eleitoral”. Lembro-me de que Collor foi eleito em 1989 com o slogan “caçador de marajás”, mas talvez isso seja apenas coincidência. Bolsonaro apregoava aos quatro ventos que seu governo acabaria com a corrupção perpetrada pelo PT ao Estado e que nessa “nova política” não haveria espaço para ilegalidades, arbitrariedades ou malfeitos. O que se vê, ao contrário, são mais exemplos de recidivo dos substantivos que de muito qualificam negativamente políticos.

 

Não bastassem as histórias no mínimo de questionável idoneidade acerca dos valores que circulavam no gabinete do agora senador carioca Flávio Bolsonaro administrados pelo assessor Fabrício Queiroz, a deputada federal Ale Silva, do PSL/MG, confirmou em entrevista à Folha de São Paulo de 13/abr./2019 sofrer ameaças por denunciar esquema de candidaturas fraudulentas no PSL mineiro, comandado pelo ministro do Turismo. Deputado federal melhor avaliado nas urnas de Minas Gerais, com mais de 230 mil votos, Marcelo Álvaro Antônio, atual ministro do Turismo, é acusado pela deputada de criar candidaturas fictícias com o intuito de desviar recursos eleitorais.

 

Na matéria da Folha a deputada “afirmou que descobriu o esquema após a eleição, a partir de relatos de políticos do PSL de Minas e de pesquisa nos dados da prestação de contas das candidatas apontadas como sendo de fachada”. Alegando ainda “temer represálias no partido”, a parlamentar encaminhou o material e os relatos que tinha à Associação Patriotas em Foco, no município de Coronel Fabriciano, que elaborou representação ao Ministério Público dias antes da publicação da primeira reportagem sobre o caso.

 

Em matéria de 14/abr./2019 pela Revista Fórum, a deputada estadual Janaína Pascoal, do PSL/SP, declarou “Todo meu apoio à Deputada Federal Alê Silva. E agora, Presidente? O Ministro do Turismo fica? A Deputada Federal eleita também estaria mentindo? Exijo a demissão do Ministro! Não tem que esperar conclusão de inquérito nenhum!”

 

Enfim, segue o barco à deriva. Nestes pouco mais de 100 dias de governo, dois ministros já caíram, Bebiano e Vélez. O caso Queiroz está longe de ser solucionado e extraordinários os indícios de laranjas apodrecidas dentro do PSL, partido do presidente da república. Definitivamente, a nova política nunca foi tão velha: até o cheiro é o mesmo.

 

*Jornalista (48 anos), é advogado, mestre e doutor em Direito pela Universidad Nacional de Lomas de Zamora, Argentina, e pós-doutorando em Cidadania e Direitos Humanos pela Universidade de Coimbra, Portugal. Autor, dentre outros, de Novo Código Florestal, pela ed. Rideel, e Lei de Acesso à Informação, pela ed. Juruá.






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