• Paraíso17

Coração de estudante

*Eduardo Martins
15/05/2019 14h15

“há que se cuidar da vida

Há que se cuidar do mundo”.

(Milton Nascimento)

 

Hoje é dia 15 de maio (2019), dia nacional de sair às ruas e praças, viver o mundo real; do desemprego estrutural, precariedade da saúde pública, truculência das forças policiais (PMs, Exército e forças privadas) contra pobres e trabalhadores, ataques aos direitos humanos. É dia de sair às ruas em prol da liberdade de expressão, liberdade artística, liberdade de subjetividades. Principalmente, contra o sucateamento da educação pública é o Dia do Movimento Estudantil mostrar sua força.

 

A catarse vem da educação; estudantes, professores e professoras, técnicos (as) e administrativos que fazem a educação brasileira e que estão sob ataque mortal com cortes na verba constitucional, congelamentos, ameaças de destruição das ciências humanas, fim da educação pública escolar básica, agressões contra a filosofia e a sociologia e o mais perigoso; o corte em 30% no apertado orçamento da universidade e institutos federais; ao que tudo leva a crer há um projeto de desmonte do ensino público, gratuito e de qualidade mantido histórica e constitucionalmente pela população por meio dos impostos, porque assim entendeu os legisladores que uma nação sábia se faz com livros, ciência, tecnologia, pesquisa, extensão, docência, arte, cultura e todas as demais manifestações que só a universidade consegue propiciar à juventude brasileira. Tal juventude entendendo isso vai às ruas resistir contra a tentativa de destruição desse sistema humanístico e do ethos societário que faz do Brasil uma nação soberana.

 

Alguns exemplos históricos nos ensinam que os estudantes são vanguarda no enfrentamento contra tipos de políticas retrógradas ou discursos obscurantistas que procuram esvaziar o conteúdo iluminista e racional que desempenha a Escola e a Universidade. Desde o fenomenal Maio de 68 em Paris em que teve como estopim a intervenção policial a uma Assembleia de estudantes na Sorbonne, os protestos se espalharam por toda a França e pelo mundo, chegando ao Brasil, que vivia uma ditadura militar feroz, que por sua natureza obscura odeia educação e escola civil. Assim, os militares (polícia) mataram o estudante Edson Luiz (no dia 28 de março de 1968 – com um tiro a queima roupa disparado por um policial militar), contra esse assassinato covarde do estudante multiplicaram-se os protestos dos estudantes nas ruas.

 

No ano de 1992, mais uma vez, estudantes e professores (as) com as caras pintadas voltaram às ruas em protestos contra um tipo de governo corrupto e desinteressado pela educação (Collor). Recentemente estudantes paulistas ocuparam as suas escolas contra os desmandos do governo neoliberal e sua tática de sucateamento das escolas daquele Estado.

 

Hoje o ataque é mortal, o projeto em decurso pelas políticas públicas para a educação é imoral e ilegal, ferindo inclusive a Constituição Federal, a LDB, e as Resoluções da CNE (Conselho Nacional de Educação). Desse modo, leis soberanas e democráticas de proteção à essa área tão essencial e vulnerável da sociabilização e sociabilidade de uma nação estão sendo sistematicamente destruídas.

 

Após a redemocratização a história da educação mostra avanços nas leis, nos métodos didáticos e pedagógicos, avanços nos materiais, melhoria na estrutura física das escolas e universidades, aquisição de livros didáticos e científicos, contratação de profissionais com formação nas áreas de atuação, planos de cargos e carreira docente e técnicos-administrativo. Enfim, toda uma estrutura educacional construída por meio de lutas e negociações pode ser agora, em razão desse projeto “neoliberal”, leia-se, destruição, jogada na lata do lixo da história e a nação retroceder cinquenta anos ou mais, aos tempos da Reforma Capanema, do governo fascista Vargas (Estado-Novo, 1937-1945), isso quer dizer um tipo de educação tecnicista, burocrática, com interferência de burocratas políticos na gestão da educação, como temos hoje um ministro da educação que é economista e desconhece completamente o sistema educacional brasileiro, sua função e cortar as verbas e fazer economia para governo pagar dívidas com os bancos. (esse é o segundo ministro em menos de 5 meses, o primeiro foi deposto por incompetência e improbidade administrativa).

 

A PEC 55 do governo Temer que congelou os gastos com educação por vinte anos já vem achatando, desgastando e solapando todo o sistema educacional público. Se não bastasse esse crime a política vigente tem como claro projeto destruir de vez a Escola e a Universidade pública. O governo acabou de anunciar um corte de 30% nas verbas da educação superior o que na prática significa que nem as contas de água e luz serão pagas, materiais básicos de consumo na Universidade também deixarão de ser comprados, papel higiênico, produtos de limpeza, segurança, manutenção das instalações como lâmpadas começa a faltar o que inviabiliza o funcionamento do prédio e, por conseguinte, das aulas.

 

Por todas essas e outras tantas razões, que não cabem aqui, os estudantes convocam a sociedade brasileira nesse dia 15 de maio de 2019 a sair às ruas em defesa da educação pública, gratuita e de qualidade. Defender a universidade é defender a nação, é ser patriota, no sentido humano da palavra de que a etimologia de pátria é latina e deriva de pater, ou pai em português. É mesmo verdade que assim como um pai que quer bem o (a) filho (a) deve protegê-los dos ataques advindos de estranhos, nesse caso o estranho é o próprio governo que tenta destruir a pátria, a pátria educadora.

 

Como comecei, também termino invocando o espírito de uma canção antológica que fez parte do processo de redemocratização do Brasil, saindo dos 21 anos da ditadura militar que também sufocou, aniquilou e jamais permitiu que a universidade tivesse autonomia, crescesse, tivesse produção científica, liberdade e democracia; assim é o novo governo que retrocede a universidade àqueles tempos obscuros...

 

“Mas renova-se a esperança

Nova aurora a cada dia

E há que se cuidar do broto

Pra que a vida nos dê

Flor, flor e fruto”.

 

*Professor pós-doutor– UFMS, curso de História, campus de Nova Andradina






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