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Trabalho, renda e futuro

*Fausto Matto Grosso
05/10/2019 19h00

Há hoje no mundo uma intensa controvérsia a respeito dos impactos das novas tecnologias, na vida social. Uma das mais preocupantes é sobre como será afetado o mundo do trabalho.

 

Há aqueles que defendem que para cada posto de trabalho extinto, surgirão outras novas oportunidades.

 

Outros imaginam que as novas tecnologias de informação e os robôs criarão um explosivo mundo de humanos descartáveis. Além desse desemprego estrutural, haverá estagnação da demanda e agravamento das crises sociais no mundo inteiro.          Todos os grandes saltos tecnológicos, da revolução agrícola até a revolução tecno-científica do século passado, impuseram perdas para muitos e redefiniram ganhadores e perdedores. Mas a humanidade acabou fazendo as transições.

 

Será que a mesma lógica prevalecerá para o nosso futuro próximo? A que preço? Eis a grande questão.

 

Por conta disso, urge pensar a sociedade pós-trabalho, a economia pós-trabalho e a política pós-trabalho. No mínimo por precaução.

 

Isso não é fácil, pois a lógica que preside nosso tempo é a lógica do trabalho. A Reforma Protestante reconceituou o trabalho indicando-o como um dever para que se possa merecer a graça divina. Também David Ricardo com sua teoria do valor-trabalho apontou que a criação de qualquer valor só poderia vir do trabalho humano, conceito esse apropriado também pelo pensamento marxista.

 

Trabalhar significava dar sentido à vida, e passou a ser considerada a fonte de dignidade humana. Tudo isso agora está em cheque, quando caminhamos para uma sociedade sem trabalho, onde a inteligência artificial e os robôs trabalharão desempregando as pessoas. Mudar essa maneira de pensar significa uma verdadeira revolução que provavelmente será disputada por diferentes visões de mundo.

 

O próprio baronato do Vale do Silício, que vive próximo do futuro, começa a articular alternativas para esse cenário devastador. O bilionário Mark Zuckerberg, fundador do Facebook, em recente discurso de formatura em Harvard, se manifestou “Chegou a hora de nossa geração definir um novo contrato social”. Apontou também que os Estados devem garantir uma renda mínima a seus cidadãos, para que eles deem conta de despesas básicas como alimentação, moradia, saúde e requalificação profissional permanente.

 

Isso mesmo, proposta semelhante àquela do projeto do ex-Senador Suplicy, sua razão de vida, transformado em lei em 2004 e que nunca foi regulamentado.

 

Mas Zuckerberg não é doido, nem está sozinho. Ele faz parte de um grupo de lideranças do Vale do Silício que, por estarem muito próximos da fronteira do futuro, estão preocupados em encontrar saída, no mesmo sentido.

 

Países como Holanda, Finlândia, Canadá e Quênia (este, com ajuda de recursos do Vale do Silício) têm projetos em fase inicial de adoção. Cidades da Escócia e da Espanha discutem a ideia. Mas ainda há um longo caminho pela frente até que iniciativas do gênero sejam adotadas em larga escala.

 

Enquanto isso, a esquerda, que se julga a maior responsável pelos interesses dos trabalhadores, no dizer de Tessa Morris (New Left Review), tem fracassado em aplicar análises mais profundas quanto às transformações econômicas implícitas na economia do conhecimento. Ainda estão perplexas sem saber onde foi parar a mais valia, no geral, pensando o mundo atual com o ferramental que Marx usou para entender o capitalismo do Século 19.

 

São necessárias perspectivas novas e críticas sobre as profundas mudanças econômicas pelas quais estamos vivendo – mesmo que isso envolva um risco real de “heresia" ou ao fuzilamento por “revisionismo”.

 

Há que se disputar o futuro, para não deixar as iniciativas para os neoconservadores que vendem a ideia de que a revolução digital trará um mundo perfeito, com final feliz para todos.

 

*Engenheiro Civil e professor aposentado da UFMS



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