Conversa de botas batidas

Você era a mais bonita das cabrochas dessa ala, você era a favorita onde eu era mestre-sala.

*Marcos Santi


“Você era a mais bonita das cabrochas dessa ala, você era a favorita onde eu era mestre-sala. Hoje a gente nem se fala, mas a festa continua, suas noites são de gala, nosso samba ainda é na rua. Hoje o samba saiu procurando você, quem te viu, quem te vê, quem não a conhece não pode mais ver pra crer, quem jamais esquece não pode reconhecer”. (Chico Buarque)

Apesar das inúmeras definições, o conceito de Cultura permanece uma incógnita se inserido nos mais diversos contextos de uma sociedade. A busca pela identificação, a necessidade de se expressar, entre outros aspectos, fazem dessa nomenclatura um ramificado de significados que tendem para os mais variados debates.

Em Nova Andradina, cidade distante 297 quilômetros da capital Campo Grande, não é diferente, sobretudo quando o assunto é Cultura Popular, de Massa. O município não conta com espaço físico apropriado para apresentações. Enquanto isso, a população é refém de iniciativas privadas - que contam com incentivos públicos - para poderem prestigiar espetáculos encabeçados por uma ‘elite cultural’.

Sem poder fazer parte deste ‘seleto’ grupo, grande parte dos nova-andradinensses se destaca pela destreza em elaborar suas próprias apresentações, mesmo que o público seja diminuto e o único aplauso seja o da namorada na plateia. Não importa a qualidade da encenação ou o tom desafinado do violão, é a arte transfigurada no que de mais singelo existe, a necessidade de se expressar.

Neste contexto, vale destacar as iniciativas do Departamento de Cultura e das unidades de ensino existentes no município. O FestiNova é um exemplo quantitativo de talentos da Terra que, mesmo sem qualquer orientação musical, nos brindam com apresentações mais que qualitativas.

Embora o reconhecimento a esses perdure apenas por um final de semana, o FestiNova é uma ação que merece ser reconhecida da mesma forma que as festas juninas, peças de escolas, corais e iniciativas de grupos independentes que não visam qualquer tipo de lucro. O desejo, além de evitar gastos, é de se expressar. Se no Brasil é praticamente impossível viver de apresentações culturais, imagine em Nova Andradina.

Por outro lado, entendemos que é possível viver pela Cultura, principalmente quando a manifestação artística é utilizada como meio de transformação da sociedade, um espaço de reflexões e de debates. O aplauso vazio, em uma cena sem objetivo, tem servido como meio de engrandecer elites em desmerecimento à coletividade. O que está em questão, não é qualidade de qualquer apresentação, mas sim a quem tudo isso tem se valido.

Na Casa de Todos, seja em um espaço público ou no bem popular que é a Cultura, os bastidores do espetáculo são esquecidos por quem um dia foi degrau. Nos erros, é mais fácil culpar terceiros. Na glória, é melhor ser aplaudido do que limpar o salão.

Hoje, frente aos holofotes de um palco improvisado, a festa acaba, as luzes se apagam e a sujeira fica. Agora, é a hora do trabalhador que não viu o show entrar em cena. Solitário, ele limpa o seu ego e prepara a Casa para mais uma apresentação, sem direito a agradecimento.

*Jornalista
 

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