As Escolas da morte

Algumas escolas públicas brasileiras matam todos os dias, e quem sabe as particulares também.

*Igor Vitorino da Silva


Não tome essas linhas como gotas de pessimismo e desilusão, mas simplesmente como vontade de ver outra realidade nas nossas escolas. Elas não negam a capacidade dos agentes que compõem o espaço escolar de impulsionarem outras lógicas e dinâmicas que escapem o quadro sombrio descrito abaixo.

Algumas escolas públicas brasileiras matam todos os dias, e quem sabe as particulares também. Rivalizam com os acidentes de trânsito, as violências e as epidemias que figuram nas páginas dos jornais do país. O leitor dirá que é absurda tal comparação, que minha imaginação é fértil, que é um verdadeiro despautério essa argumentação, mas um olhar atencioso e interrogador para o cotidiano de algumas escolas do país se deparará com mortos-vivos perambulando pelos seus corredores, como uma espécie de zumbis dos filmes de mau-gosto hollywoodianos em procura de sangue e cérebros, sonhando com o final do expediente, do curso ou aula ou com a aposentadoria.

Estudantes e professores parecem tomados pelo vírus da indiferença e da descrença. Indiferença que revela-se na escola tomada pela rotina do “fazer por fazer”, em que tudo é realizado no dia a dia sem o pleno envolvimento e engajamento da comunidade escolar. Na realidade, cada um somente cumpre a sua parte, as suas atividades devido a metas e desejos que lhes são externos, que satisfazem os interesses dos pais, do governo,da secretária, do diretor, clientee da vida social. Vive-se nas escolas e realiza-se suas atividades por mera obrigação social ou profissional, destituída de vida e sentimentos.

Descrença que é anunciada a todo instante pela retórica derrotista e imobilizadora que envolve a comunidade escolar que, quase sempre, vê-se refém, abandonada e impotente frente às forças superiores, restando-lhe a resignação e o conformismo ao que vivem. Isso faz com que as diversas pulsações de mudanças e novidades sejam ceifadas na sua origem pelo desânimo geral alimentado pela desilusão na possibilidade de construir outra realidade educacional.

O que escapa a essa lógica da impotência é, logo, subsumido pela discurso da excepcionalidade, do extraordinário e da singularidade minando-lhe a possibilidade de repetição e compartilhamento, fortalecendo o espírito de descrença e de indiferença. O bom professor ou estudante exemplar aparecem como aberrações, excentricidades e anormalidades, como algo inusitado que somente pode ser explicado pela “sorte ou privilégio” daqueles indivíduos dados pela natureza ou pela sociedade.

As armas da frustração, do arrependimento, da angústia e do tédio matam estudantes e docentes, extraindo-lhes a força de vontade, esvaziando-lhe a criatividade, imaginação e iniciativa. Apesar de toda propaganda institucional de valorização da educação o cenário educacional é desolador e desanimador, persistindo baixos salários, autoritarismo institucional, violência da/na escola, condições de trabalho precárias, desvalorização social e ensino de baixa qualidade e descontextualizado. Enfim, as escolas transformaram-se em “cadeias públicas” cuja função é aprisionar os estudantes, ocupando-lhes o tempo com atividades e inviabilizando seu ócio.

Na experiência cotidiana, até mesmo de escolas privadas, a comunidade escolar reconhece que a educação não é prioridade, tanto docentes como estudantes estão ali presentes por questões de sobrevivência. Corpo chega a escola, mas a mente navega por outros lugares. O desejo de não estar na escola não é somente dos estudantes, como se insistem anunciar, mas também dos docentes. Um fica pelo salário para garantir a sobrevivência de sua família, outro pelo diploma que pode lhe garantir um futuro e emprego. Tal quadro faz com que o ensino-aprendizagem, a pesquisa e o conhecimento sejam secundarizados e postergados em nome do “não vamos nos preocupar e vamos fazer o que dá”, intensificando o quadro de deformação intelectual, ignorância política, imbecilidade social e empobrecimento cultural que vive o país.

A morte de docentes e estudantes é decretada todos os dias pela sentença social do “eles fingem que aprendem, eu finjo que ensino” vulgarizada por todos os cantos do país, que revela, na realidade, a total descrença e desesperança com que os estudantes e docentes hoje pensam a educação, justamente alimentada pelo quase eterno, apesar dos intensos discursos de investimento e valorização da educação, que revelam descompromisso político da sociedade e do Estado com a educação pública brasileira.

A “escola como máquina da morte” que esvazia a vida de docentes e estudantes, impondo-lhes o “sentimento de impotência” e a “vontade de resignação”, fazendo-nos crer que são incapazes de “Virtú” e “Fortuna”, ou seja, incapazes de “realizar” e “aproveitar oportunidades”. Nossas escolas hoje parecem cemitérios, pois docentes e estudantes estão sendo sugados a cada dia de sua capacidade de fantasiar, sonhar e imaginar outras formas de viver e pensar.

Talvez, porque essa morte seja invisível e deixe grandes rastros de sangue, ela continue sendo negligenciada e silenciada , mesmo no dia 15 de outubro, quando se comemora o dia do professor, a que se referem com palavras doces e belas, e não com as margas, feias e ásperas que denunciam as sombras da realidade cotidiana.

*Historiador e professor de História do Campus Nova Andradina/IFMS
 

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