Molinha. Macia. Quentinha. Esfumaçando. Desmanchando. Derretendo. Amarelinha. Como esse molhinho fica uma delícia! Prova com um pedacinho de ponta de peito. Um casal conversa concentradamente numa mesa de um Espetinho sobre a mandioca cozida trazida pelo garçom, saboreiam como se estivessem comendo o maná dos deuses. Eu ouço indiscretamente aquela conversa.
Como forasteiro na cidade Sorriso, custei a entender o que estava acontecendo, não entendia nada mesmo. - Churrasco com mandioca? - pensava com certo susto. Para mim comedor de mandioca ralada, aquilo era uma situação curiosa. Com o passar do tempo comecei a reparar que era volumoso o consumo de mandioca cozida na localidade, como me diria um colega certa vez em enaltecimento à sua terra: isso é hábito de todo o meu estado do Mato Grosso do Sul.
A cada lugar que eu passava ela estava presente, talvez porque meu olhar estivesse mais atento a descobrir a sua presença. Nos lares, festas, espetinhos e restaurantes, ela estava presente, sendo quase um insulto não servi-la. Nem bem as pessoas começam a se levantar das mesas para se dirigirem ao bufê ou as panelas para fazerem seus pratos, já se pode ouvir um burburinho: “Não tem mandioca???”. E se não tiver, obviamente se escutará: - Minha nossa, que festa ou restaurante é esse que não tem mandioca!!! Um amigo, em tom de piada, me confessou que realmente tivesse o fim do mundo como previram, o primeiro ato dele seria providenciar para a sua sobrevivência a estocagem de carne e mandioca para garantir o último churrasco com mandioca da humanidade. Morria bem e de barriga cheia, dizia ele.
Esse hábito tão comum por essas terras me faz sempre lembrar de minha mãe, que adora mandioca cozida para tomar com café bem quentinho, e da casa de Gelsa, que nunca faltava mandioca fritinha para comer com cerveja. Mas, aqui, ela tem um lugar mais especial e digno do que acompanhamento do café ou ingrediente de ensopado do dia-a-dia, ela é o prato mais importante do churrasco, depois da carne é claro, - o evento cultural e social mais badalado da localidade. Creio que não tenha aprendido errado, mas parece-me que a regra aqui é: Churrasco sem mandioca é como se fosse feijoada sem caipirinha para os cariocas e capixabas.
Quando você convida alguém para fazer uma festa, de imediato é questionado: - Vai ter churrasco? Se você diz que não, as sobrancelhas se levantam como se afirmassem “então isso não é festa”. E aí, você se insisti em fazer outra coisa, logo ouve novamente a resposta: - Churrasco! O que, na realidade, é uma maneira educada de dizer não. E para quebrar a minha resistência, a pessoa afirma suavemente: - Eu vou! Posso fazer o churrasco! Como não tem jeito, me rendo. Alegre, o convidado rapidamente sentencia: - Não se esqueça da mandioca!!! É, o que não se faz para cultivar os bons amigos, jamais longe da terra natal!
Nos espetinhos da cidade Sorriso, a mandioca é a rainha. Neles quando vou, sempre observo da minha mesa os clientes que a degustam com entusiasmo de dar água na boca, até em mim que não a como. Às vezes, pego-me questionando do prazer que estou privado, mas caio em mim e prefiro continuar usando um hábito alimentar para demarcar uma fronteira cultural. Por isso, no espetinho sempre peço o churrasco sem mandioca. O garçom me olha com o olhar de reprovação e espanto, explico que sou capixaba e gosto mais de farinha, mesmo não sendo baiano. Quando estou com amigos, essa explicação fica para eles, já que sempre disputam a parte da mandioca que vem para o meu prato. Daí cunhei o lema: mandioca ou inimizade? Se Machado de Assis fosse sul-mato grossense talvez teria escolhido a mandioca e não a batata para ilustrar a sentença síntese do Humanitismo do filósofo Quincas Borbas: “ "Ao vencido, ódio ou compaixão; ao vencedor, as mandiocas".
* Historiador e professor de História do Campus Nova Andradina/IFMS
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