Mandioca ou inimizade?

*Igor Vitorino da Silva


Molinha. Macia. Quentinha. Esfumaçando. Desmanchando. Derretendo. Amarelinha. Como esse molhinho fica uma delícia! Prova com um pedacinho de ponta de peito. Um casal conversa concentradamente numa mesa de um Espetinho sobre a mandioca cozida trazida pelo garçom, saboreiam como se estivessem comendo o maná dos deuses. Eu ouço indiscretamente aquela conversa.

Como forasteiro na cidade Sorriso, custei a entender o que estava acontecendo, não entendia nada mesmo. - Churrasco com mandioca? - pensava com certo susto. Para mim comedor de mandioca ralada, aquilo era uma situação curiosa. Com o passar do tempo comecei a reparar que era volumoso o consumo de mandioca cozida na localidade, como me diria um colega certa vez em enaltecimento à sua terra: isso é hábito de todo o meu estado do Mato Grosso do Sul.

A cada lugar que eu passava ela estava presente, talvez porque meu olhar estivesse mais atento a descobrir a sua presença. Nos lares, festas, espetinhos e restaurantes, ela estava presente, sendo quase um insulto não servi-la. Nem bem as pessoas começam a se levantar das mesas para se dirigirem ao bufê ou as panelas para fazerem seus pratos, já se pode ouvir um burburinho: “Não tem mandioca???”. E se não tiver, obviamente se escutará: - Minha nossa, que festa ou restaurante é esse que não tem mandioca!!! Um amigo, em tom de piada, me confessou que realmente tivesse o fim do mundo como previram, o primeiro ato dele seria providenciar para a sua sobrevivência a estocagem de carne e mandioca para garantir o último churrasco com mandioca da humanidade. Morria bem e de barriga cheia, dizia ele.

Esse hábito tão comum por essas terras me faz sempre lembrar de minha mãe, que adora mandioca cozida para tomar com café bem quentinho, e da casa de Gelsa, que nunca faltava mandioca fritinha para comer com cerveja. Mas, aqui, ela tem um lugar mais especial e digno do que acompanhamento do café ou ingrediente de ensopado do dia-a-dia, ela é o prato mais importante do churrasco, depois da carne é claro, - o evento cultural e social mais badalado da localidade. Creio que não tenha aprendido errado, mas parece-me que a regra aqui é: Churrasco sem mandioca é como se fosse feijoada sem caipirinha para os cariocas e capixabas.

Quando você convida alguém para fazer uma festa, de imediato é questionado: - Vai ter churrasco? Se você diz que não, as sobrancelhas se levantam como se afirmassem “então isso não é festa”. E aí, você se insisti em fazer outra coisa, logo ouve novamente a resposta: - Churrasco! O que, na realidade, é uma maneira educada de dizer não. E para quebrar a minha resistência, a pessoa afirma suavemente: - Eu vou! Posso fazer o churrasco! Como não tem jeito, me rendo. Alegre, o convidado rapidamente sentencia: - Não se esqueça da mandioca!!! É, o que não se faz para cultivar os bons amigos, jamais longe da terra natal!

Nos espetinhos da cidade Sorriso, a mandioca é a rainha. Neles quando vou, sempre observo da minha mesa os clientes que a degustam com entusiasmo de dar água na boca, até em mim que não a como. Às vezes, pego-me questionando do prazer que estou privado, mas caio em mim e prefiro continuar usando um hábito alimentar para demarcar uma fronteira cultural. Por isso, no espetinho sempre peço o churrasco sem mandioca. O garçom me olha com o olhar de reprovação e espanto, explico que sou capixaba e gosto mais de farinha, mesmo não sendo baiano. Quando estou com amigos, essa explicação fica para eles, já que sempre disputam a parte da mandioca que vem para o meu prato. Daí cunhei o lema: mandioca ou inimizade? Se Machado de Assis fosse sul-mato grossense talvez teria escolhido a mandioca e não a batata para ilustrar a sentença síntese do Humanitismo do filósofo Quincas Borbas: “ "Ao vencido, ódio ou compaixão; ao vencedor, as mandiocas".

* Historiador e professor de História do Campus Nova Andradina/IFMS
 

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