Juventudes: autonomia ou escravidão?

Todos sabem o melhor caminho para a juventude

*Igor Vitorino da Silva


A juventude (ou as juventudes) é hoje setor populacional mais disputado da modernidade, seja do ponto de vista etário ou da condição social. Em busca dela estão vários discursos e instituições. Uns querem salvá-la, outros querem ensiná-la. Alguns querem orientá-la e ajuda-la, outros desejam transformá-la e promovê-la. Todos sabem o melhor caminho para a juventude, têm o seu diagnóstico e ostentam suas soluções.

As Igrejas pregam a sua conversação e a renuncia ao mundo. O Mercado (in)formal e (i)legal incitam sua onipotência e individualismo via ao consumo. A política estimula o protagonismo e a “revolução do faz-você-mesmo”. A Educação defende a sua formação como jovem de sucesso. Todos os discursos e instituições parecem constituído de uma cama Procusto, a qual os jovens devem se encaixar. Há uma referência, medida e ideal a qual devem submeter-se para serem reconhecidos como bons e comportados jovens.

Na realidade, para ser jovem deve-se estar contaminado pela síndrome do tem que ter e ser assim. Síndrome que dilui as faixas etárias, levando-nos, muitas vezes, a considerarmos jovens pessoas maduras e velhas pessoas da faixa etária oficialmente reconhecida como juventude. Juventude como estilo de vida, estado de espírito. Enfim, como artefato da economia da aparência capitalista.

Não adianta só está na faixa etária ou ter experiências reconhecidas socialmente como jovens. É usar roupas transadas e de marca. Usar perfumes caros e sofisticados tal. Ter o corte de cabelo da moda e do astro de sucesso. Ser bombado e ir academia. Valorizar cuidados estéticos. Ter tal carro. Ser vigoroso e animado. Ser solidário. Proativo. Dedicado. Bem comportado. É uma verdadeira esquizofrenia social. A Beleza, o vigor e a juventude transformaram-se em mercadorias sonhadas e desejadas no mercado e que muitos insistem não perceberem sua transitoriedade e finitude.

Nesse cenário, a última prática que os jovens podem pensar em fazer é autorrealizar, serem sujeitos de si. Infelizmente, cada vez mais eles são a realização de rótulos e discursos pré-fabricados que os tomam mais como instrumentos, engrenagem ou ingredientes do que como sujeitos. Já se vai uma década discutindo o lugar da juventude e seus dilemas na contemporânea e percebe-se que esses caminham mais para clausura e escravidão sociais e políticas. O que saem escapam dessa correnteza, ainda, continuam sendo como desordeiro, indisciplina e estranhos.

*Historiador e professor de história do Campus Nova Andradina/IFMS
 

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