Carlos Wanzeler, de lavador de pratos a sócio da TelexFree

Conheça a história do idealizador da pirâmide financeira que está foragido da Justiça americana. Ele é acusado de operar, junto com James Merrill, um esquema fraudulento de US$ 1 bilhão

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De lavador de pratos em restaurantes a sócio de uma empresa que pode ter movimentado mais de 1 bilhão de dólares no Brasil e nos Estados Unidos. A trajetória que poderia ser a história de sucesso de um brasileiro, na verdade, está próxima de um fim trágico. O capixaba Carlos Wanzeler, 45 anos, é o idealizador da TelexFree, uma companhia que afirmava vender serviços de telecomunicação por Voip (Voz sobre Protocolo de Internet). No entanto, investigações mostram que o negócio era apenas a fachada para um esquema conhecido como pirâmide financeira. Nesse tipo de fraude, a sustentação financeira vem da entrada de novos participantes (que pagam uma taxa de adesão) e não da venda dos produtos. Desde a sexta-feira, 9 de maio, ele é considerado foragido pela Justiça americana. Sua esposa, Katia Wanzeler, foi presa na noite da última quarta-feira no aeroporto de Nova York ao tentar deixar o país.

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Em 1988, aos 19 anos, Wanzeler foi morar nos EUA e começou a trabalhar em dois restaurantes lavando pratos. Eventualmente fazia o turno da noite como zelador do UMass Memorial Medical Center. Em 1993 sua mãe, irmã e irmão mudaram-se de Vitória, Espírito Santo, para Massachusetts. Quando procurava emprego em companhias de limpeza para sua família, Wanzeler conheceu, por acaso, o empresário americano James Merrill, com quem foi trabalhar posteriormente. Eles acabaram se tornando sócios de uma empresa de limpeza que, no auge, chegou a ter 40 clientes corporativos e faturar 800 mil dólares.

Segundo informações levantadas pela Securities and Exchange Commission (SEC), órgão que regula o mercado financeiro americano, e divulgadas pelo jornal Boston Globe, o brasileiro é o idealizador da TelexFree. As autoridades do país acreditam que ele também tenha deixado o país e está no Brasil. Wanzeler e Merrill, detido na semana passada, são acusados de operar o esquema de pirâmide de 1 bilhão de dólares. Se condenados, os executivos podem pegar até vinte anos de prisão.

Embrião
A ideia de uma companhia de telecomunicações surgiu das constantes queixas de Wanzeler sobre as caras ligações telefônicas que sua mulher fazia ao Brasil para falar com a mãe. Foi então que surgiu a WorldxChange, empresa dos dois que comercializava aparelhos que faziam ligações internacionais com descontos de até 70% em relação aos preços praticados no país, na época.

Com a adesão em massa de imigrantes que viviam nos EUA, em poucos meses, a WorldxChange já teria uma rede com milhares de vendedores e clientes, sendo um negócio de sucesso por anos nos Estados Unidos. Com o advento da internet, os sócios tentaram criar um sistema de ligações feitas pelo computador, mas como os outros sócios da empresa não queriam, Merrill e Wanzeler fundaram, em 2002, outras companhias; Common Cents Communications Inc., que revendia os serviços da WorldxChange; Disk Avontade; e Brazilian Help Inc.. Aí nasce o embrião da TelexFree.

Carlos Costa, atual diretor-comercial da TelexFree e já amigo de Wanzeler foi escalado para participar das redes. "Costa é o homem do marketing", disse Merrill em depoimento à SEC. Os três se tornaram sócios da TelexFree - Wanzeler com 50%, Costa com 30% e Merrill os outros 20%. Posteriormente Costa vendeu sua participação a Merrill, mas continuou sendo um importante líder da empresa no Brasil.

Wanzeler aparece em um vídeo de um evento como presidente da Disk à Vontade em 2009. Na mesma gravação, há uma entrevista de Carlos Costa, hoje diretor comercial da TelexFree, identificado nas imagens como líder nacional de marketing da própria Disk à Vontade.

Desvio de dinheiro

A ligação de Carlos e Wanzeler não limita apenas à TelexFree, da qual Carlos já foi sócio. Um fato interessante é que a Justiça brasileira identificou, em meados do ano passado, dois desvios de recursos da empresa logo após os bens terem sido congeladas. Segundo a Ação Civil Pública a que VEJA teve acesso na ocasião, consta que a TelexFree do Brasil, cuja razão social é Ympactus Comercial Ltda., tentou desviar cerca de 100 milhões de reais para contas de terceiros - uma de titularidade da WorldxChange (dois depósitos nos valores de 41,78 milhões de reais e 9,9 milhões de reais) e outra da Simternet (um depósito no valor de 49,98 milhões de reais).

Costa não está sendo investigado pela polícia dos EUA.

Cenário
Os bens da TelexFree foram bloqueados pela Justiça de Massachussetts no mês passado e o diretor financeiro da empresa, Joseph Craft, foi pego tentando fugir com inúmeros cheques no valor de 38 milhões de dólares destinados aos donos da TelexFree nos EUA, James Merrill e Carlos Wanzeler. Segundo a procuradora Carmen M. Ortiz, que assinou parecer sobre o caso, o escopo da suposta fraude "é de tirar o fôlego". "Esses réus planejaram um esquema que captou centenas de milhões de dólares de pessoas que trabalham duro no mundo todo."

A filial brasileira está sob investigação desde o ano passado por prática de pirâmide no Brasil, com os bens bloqueados e impedida de funcionar por uma decisão da Justiça do Acre. Ela foi recentemente condenada pelo Departamento de Proteção e Defesa do Consumidor, órgão da Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon/MJ) a pagar uma multa de 5,590 milhões de reais por operar "esquema financeiro piramidal", que é crime contra a economia popular no Brasil.

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