• Paraíso17

Venta porque morreu padre

*Rodrigo Alves de Carvalho / Imagens: Divulgação
30/07/2020 11h00

- Que ventania danada hoje? 

- Deve ser porque morreu algum padre! 

 

O amigo olha bem para o outro e cai na gargalhada. 

- Que idiotice! Vai me dizer que acredita nessa crendice? 

- Claro, desde pequeno ouço falar que quando venta muito, com certeza é porque morreu um padre. 

- E já morreu algum padre para você confirmar? 

- Nunca soube. Mas é impossível que no mundo inteiro não tenha morrido um padrezinho sequer nos dias de ventania. 

 

O amigo não para de rir. 

- Então quando tem um furacão ou um tornado é porque morreram uma centena de padres de uma vez? 

 

O outro amigo fica amuado. 

- Você ri porque não acredita nessas coisas. 

- Ora amigo. Ontem estava um sol quente e a tarde choveu, ficou sol com chuva. Vai me dizer que acredita que alguma viúva estava casando? 

- Eu acredito que sim! 

 

O amigo se surpreende com a resposta e não para mais de rir. 

- Vai me dizer também que existem tantas viúvas desesperadas para casarem outra vez? 

- Não é bem assim. Raramente chove e faz sol ao mesmo tempo como ontem. Nessa proporção é bem provável que uma viúva estava se casando. 

- Isso é uma superstição! Uma bobagem! 

 

Os dois amigos caminham em direção a um boteco em uma cidadezinha do interior. Já é tardezinha e o sol aos poucos vai se escondendo atrás de um monte. 

- Vamos tomar uns goros e jogar bilhar porque essa conversa de padre que morre e viúva que casa me deu vontade de beber. 

 

Ficaram no bar até altas horas. Na volta, uma enorme lua cheia clareava o caminho. 

 

O amigo gozador olhando a lua indaga o amigo supersticioso. 

- Acredita também que existe Lobisomem em noite de lua cheia? 

- Não vou responder por que vai zoar com a minha cara! 

- Claro que não! Respeito sua opinião! 

 

O supersticioso sinceramente responde: 

- Não só acredito como acho que já vi um! 

 

O amigo gozador não se aguenta e senta no chão de tanto rir. 

- Já viu um Lobisomem! Isso é demais! 

 

O amigo supersticioso se irrita: 

- Você disse que não iria zoar comigo! 

- Desculpa. Mas não dá para aguentar. Em pleno Século Vinte e Um, você vem falar que acredita em Lobisomem! 

- Você pode ironizar, achar graça e tudo mais. Mas que existe, existe. 

- Mas temos que convir, viúva casando só porque tem sol e chuva, padre que morre só porque está ventando forte e lobisomem que aparece só porque tem lua cheia é um pouco demais para nossa racionalidade! 

 

No resto do caminho o amigo supersticioso não abriu mais a boca, mesmo com o amigo zoador tirando sarro com aqueles assuntos misteriosos. 

 

No outro dia saiu uma reportagem especial no Jornal da Record: 

“Mistério numa cidadezinha do interior. Um padre que havia realizado o casamento de uma viúva num pequeno povoado é surpreendido e morto por um terrível Lobisomem quando voltava à noite para sua paróquia. Moradores e autoridades locais estão na caça da famigerada criatura”. 

 

*Jornalista, escritor e poeta, nasceu em Jacutinga (MG), possui diversos prêmios literários em vários estados e participação em importantes coletâneas de poesia, contos e crônicas. Em 2018 lançou seu primeiro livro individual intitulado “Contos Colhidos” pela editora Clube de Autores.

Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Jornal da Nova



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