A face escurecida de Deus

*Felipe Pereira


Eu me sentei naquele banco que fica de frente ao Lago Azul; estava escuro, fazia tempo que o sol fora brilhar em outro lago.

Eu estava ali para tomar uma decisão, queria ver a face de Deus para resgatar a minha fé, ou deixá-la se esvair para sempre. Encarei bem a lua, talvez nela eu conseguisse ver estampado o rosto santo.

Dentro de mim, muitas coisas mudaram; já tive fé, já fui de acreditar, porém hoje acredito apenas nas coisas que minha sombra pode tocar e duvido profundamente das coisas que fogem aos meus sentidos.

Às vezes, para não se perder na vida, é preciso aprender a dar um passo de fé, acreditar que as coisas têm um motivo para ser, mas conforme a fé se apodera de uma pessoa, essa mesma pessoa esquece que sua vida corre conforme suas escolhas. É fatal entregar à fé as rédeas que guiam seus passos, pois assim o indivíduo deixa de acreditar que é responsável pelas consequências que lhe sobrevém.

Essas questões atormentaram-me imensamente, por isso fui para aquele banco, porque eu precisava dar meu último salto de fé, precisava que minha sombra vagasse para além da onde os meus sentidos podiam ver. Esse ato era o grito da minha alma para não se perder no vazio do materialismo. Então me sentei ali, e observei. Esperei para ver se a face de Deus se revelaria a mim, se eu tornaria a contemplar o espiritual.

Entretanto, nada aconteceu. A única coisa que vi foram os patos que nadavam alegremente no lago. Olhei para a lua e ela continuava como sempre, talvez ela zombasse de mim por eu estar ali, sentado e perdido em um caminho que era impossível voltar. Ou eu me afundava cada vez mais, ou aprendia a viver com o peso das minhas ações, sem um “Pai Celestial” que me absolveria de todos os pecados. Nesse caminho que me propus trilhar, seguiria com meus pecados a me castigar e minha consciência a me condenar.

Esperei por mais um tempo, na verdade por muito tempo, pois vi que os primeiros raios do sol clareavam as águas do lago.

Respirei profundamente, soltei um lamento frustrado e levantei-me.

Olhei para a lua que se enfraquecia no céu e falei:

 — Agora eu sei, nunca verei a face de Deus.

Fui embora com a certeza de que o resquício de fé que havia em mim se apagou como o derradeiro suspiro de uma vela que se queima por completo.

*Morador em Nova Andradina e autor de livros

Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Jornal da Nova

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