Um corpo na neve

*Felipe Pereira


Era dezembro e a neve não parava de cair.

Fazia muito frio; meu café há tempo já esfriara, eu apenas o segurava para não ficar de mãos vazias.

Nesta época do ano, a neve é forte em Luxemburgo; nas ruas, somente é possível ver apenas uma ou outra pessoa. A neve cobre quase tudo, é como se um grande manto branco fosse lançado sobre a cidade.

Estou na ponte Adolphe, observado as árvores que foram cobertas com o manto branco.

Eu tinha muitas coisas para resolver dentro da minha cabeça; havia meu emprego que eu perdi, após mais de dez anos trabalhando nele; havia o namoro que eu terminara. Somado a isso havia as contas que se acumulavam na minha caixa de correios.

Eu era louco por estar na rua a essa hora da noite com o frio que fazia, mas o frio me mantinha consciente e alerta, ajudava-me a ficar centrado e não enlouquecer.

Chega um momento em que parece que estamos pisando no fundo do poço, e quando se olha para cima, não há perspectiva de que a subida vai ser rápida. É fácil se apavorar e se deixar levar pela loucura e a solidão; basta somente apagar a fagulha resistente de esperança e pronto, a tampa do poço se fecha e tudo se torna escuridão.

Olho para baixo, é uma altura considerável. O uivo do vento me faz sentir um pouco de vertigem, sinto minha boca ressecada, aperto com força o copo de café até o ponto em que ele amassa um pouco.

Estou em meu devaneio lamuriento quando um homem trôpego se esbarra em mim.

 — Desculpa, eu não te vi. — Diz ele.

Eu aceno e volto a encarar as árvores abaixo.

Então, o inesperado acontece.

Vejo o homem que há pouco esbarrou em mim despencando de cima da ponte.

Não há tempo para nenhuma reação. Quando minha mente volta à razão, tudo que vejo é o corpo estendido do homem na neve.

Fico embasbacado, não sei o que se passou nesses poucos segundos do esbarrão até a queda do homem.

Quando recobro todo o sentido, pego meu celular e ligo para a emergência.

 — Alô! — diz o atendente.

 — Um homem acabou de cair da ponte Adolphe. Por favor, venham depressa.

 — Senhor, mantenha-se calmo. Já estamos enviando uma viatura.

Demorou alguns minutos para a chegada da ambulância. Acredito que a neve tenha atrapalhado um pouco o trajeto.

Dois paramédicos foram até o corpo, eu observei tudo de cima da ponte. Uma viatura da polícia veio após a ambulância, o policial me indagou:

 — Você viu o que se passou por aqui?

 — Ele está, — engasguei um pouco — ele está morto? — eu já sabia a resposta, mas queria ouvir uma confirmação.

 — Sim. Ele morreu com o impacto. — O policial me encarou um pouco e tornou a perguntar — você sabe o que aconteceu?

 — Eu estava aqui na ponte quando ele esbarrou em mim. Ele se desculpou, então voltei a olhar para baixo. Foi quando vi ele caindo.

 — O senhor não viu mais nada, algo que possa ajudar na investigação da causa da morte?

 — Não vi.

 — Poderia me dizer o que o senhor fazia aqui tão tarde e com tanta neve? — o policial olhou para mim, suspeitosamente.

 — Estou com alguns problemas pessoais, e vim aqui para refletir.

 — Na neve? — o policial arqueou a sobrancelha, em sinal de dúvida.

 — Cada um enfrenta seus problemas da maneira que lhe convém. — Falei um pouco ríspido, ainda estava abalado pelo que ocorreu.

O policial me encarou por um tempo, após isso ele me deu seu cartão pessoal e pediu para eu ligar caso me lembrasse de algo a mais. Afirmei com a cabeça e guardei o cartão.

A ambulância retirou o corpo da neve e as viaturas foram embora.

Fiquei sozinho na ponte outra vez.

Passado algum tempo, fui vagarosamente para casa. O acidente não me saia da cabeça. Não consegui dormir, minha mente ficou revivendo o homem despencando. Até o barulho abafado pela neve de osso quebrando não me deixava em paz.

No dia seguinte, saíram matérias nos jornais falando do acidente. De acordo com o noticiário, aquele homem era Romain Fernand, um empresário que precisou decretar falência e tinha uma dívida enorme. Os jornais diziam que a causa da morte dele ainda estava sendo investigada. Em alguns tabloides, devo acrescentar que escancaradamente tendenciosos, alegavam que Romain teria cometido suicídio por não ter condições de cumprir com suas obrigações perante seus credores. Confesso que fiquei aliviado por não ter sido citado em nenhuma matéria.

Após uma semana, a investigação foi terminada e a polícia concluiu que de fato Romain Fernand tinha cometido suicídio. A esposa do falecido dizia que ele não dormia direito e não estava mais se alimentando, demonstrava um enorme grau de irritabilidade e falta de vigor para as atividades do dia-a-dia.

Conforme os dias foram se passando, o acidente perdeu o interesse do público. Entretanto, em algumas noites eu ainda sonhava com o ocorrido.

Talvez seja um pouco de insensibilidade da minha parte, mas a partir da morte de Romain, passei a enxergar a vida com outro olhar. Por mais que eu me sentisse tocando o fundo do poço, eu não queria ser uma matéria de algum tabloide dizendo que cometi suicídio por ter sido um incompetente.

Decididamente eu não queria ter o mesmo fim. Por mais que minha vida no momento não seja a melhor, mesmo assim eu me agarro a ela com todas as minhas forças.

Devo ser sincero ao dizer que simplesmente fechar os olhos e morrer é tentador para quem vai aos poucos perdendo as esperanças. Mas se for para morrer, não quero ser lembrado como um covarde que facilmente se entregou ao desespero.

*Morador em Nova Andradina e autor de livros

Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Jornal da Nova

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