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Caminhoneiros admitem uso de droga e criticam lei que obriga pausa
Redação
Ao menos três vezes por semana Valdecir Florencio, 47, carrega o seu caminhão com bananas na cidade de Registro, na fronteira de São Paulo com o Paraná, e parte em busca de compradores. O destino mais comum é o Ceasa do Rio de Janeiro, a cerca de 650 km. Na estrada há 23 anos, ele diz já ter visto de tudo um pouco e se acostumou a uma rotina que intercala oito, nove, até dez horas dirigindo direto com duas a três horas de sono.
Carga entregue, ele tira o atraso do travesseiro e retorna para casa. Para ele e outros caminhoneiros que descarregavam no Ceasa nesta quarta-feira as alterações trazidas pela Lei 12.619, que exige, entre outros pontos, descanso obrigatório de 11h por dia e 30 minutos de pausa a cada quatro horas trabalhadas, significam exatamente 50% a menos de dinheiro no bolso no fim do mês.
"Parando a cada quatro horas uma viagem de um dia dura dois e você não chega a tempo de fazer a outra carga", diz Florencio, calculando uma redução de três para um frete por semana. "Se isso acontecer largo o caminhão e fico em casa. Já basta o horário de São Paulo, em que a gente não pode cruzar a cidade entre 17h e 22h."
A favor da greve caso o governo não volte atrás, Florencio começou a dirigir por causa do pai, também caminhoneiro, mas diz que a profissão foi muito desvalorizada. "Meu pai fazia uma carga por semana e ganhava mais do que eu. Às vezes a gente mal vence o mês", diz. Descontando gastos com a manutenção do caminhão, pneus e gasolina, ele estima que sobram cerca de R$ 4 mil, gastos no sustento dos filhos de nove e 17 anos.
"A mais velha vai entrar na faculdade agora. Se essa lei pega como vou pagar? Como vou dizer para a minha filha que ela não pode estudar?", questiona.
Perto do caminhão de Florencio, José Benedito Gonçalves, 47, esperava pela sua vez de estacionar e descarregar a carga de arames que trouxe de Holambra (SP), a cerca de 550 km do Rio. Como saiu na terça à noite, não pegou a paralisação, que terminou na madrugada desta quarta-feira com a suspensão da fiscalização por um mês.
Para ele, que chega dirigir até 12h "conforme a necessidade", a medida não vai funcionar. "Esse negócio de parar não vai dar em nada. Quem é a favor é o colega assalariado, que não depende de frete, não pensa nos outros", diz Gonçalves, que completa 27 anos de profissão esse ano. "Tem cargas que não podem esperar."
Quando precisa o caminhoneiro diz tomar "um rebitinho para adiantar o serviço", ou rebite, forma como são chamadas as anfetaminas usadas por muitos caminhoneiros para se manter acordados. "Quem fala que toca duas noites só na raça e não toma nada mente", afirma Gonçalves.
Florencio, por sua vez, conta que já tomou rebite para chegar em casa a tempo de comer a ceia de Natal com a família ou em momentos de muita pressa, mas que hoje prefere viajar sem nada. "Já perdi amigos por isso. Você toma um rebite, toma um café, deita meia hora e quando levanta enxerga até formiga na estrada", diz.
Além do rebite, o caminhoneiro de Registro afirma que a cocaína também está tomando conta das estradas. "Hoje o uso de cocaína virou uma rotina para muitos colegas. Tenho amigo que se não tiver cocaína, não tiver rebite, não viaja até a esquina", conta.
Para Gonçalves a droga, e não o rebite, é a responsável pelo grande número de acidentes com veículos de carga nas estradas.
"A molecada tá cheirando direto, é o que está dando a maior parte dos problemas", afirma. Os dois contam que é muito fácil encontrar a droga em postos de gasolina, mas preferem não comentar mais por medo de retaliações.
Do outro lado da polêmica, o caminhoneiro Sidnei Santos Silva, 35, se diz a favor das pausas propostas pela nova lei e vê com maus olhos as atitudes dos colegas que usam drogas para encarar a estrada. "Eles querem fazer dinheiro, mas não pensam na segurança, na saúde deles. Rebite, café com cachaça, energético...uma hora o corpo cobra a conta e aí como que fica?", questiona.
Contratado de uma empresa de alimentos, Silva faz fretes apenas dentro da cidade do Rio de Janeiro e nos arredores. Florencio admite que já se envolveu em um acidente por causa do sono há cerca de 20 anos, mas ainda assim é contra a nova regra. Com dores no antebraço e cabelos brancos antecipados, ele planeja se aposentar em breve e seguir se dedicando as bananas, dessa vez apenas como produtor. "Estou envelhecendo, não vejo meus filhos crescerem. Quero comprar um caminhão novo, colocar alguém para dirigir para mim, e cuidar da plantação no meu sítio. Mas até lá a gente tem que trabalhar."
Entenda
A greve dos caminhoneiros autônomos foi iniciada no dia 25 de julho. Organizada pelo Movimento União Brasil Caminhoneiro (MUBC), a paralisação protesta contra a lei 12.619/2012, que limita a jornada de trabalho dos motoristas e, e contra o uso de cartão-frete, entre outros pontos.
A Confederação Nacional dos Transportadores Autônomos (CNTA) é contra a greve, e, assim como a Confederação Nacional dos Trabalhadores em Transportes (CNTT) afirma que há interesses patronais por trás da paralisação, e que a greve tem participação de empresas de transporte - o que caracteriza locaute (ou greve patronal), o que é proibido por lei. "A paralisação em curso de caminhoneiros no território brasileiro é uma ação promovida pelos empresários do setor que querem suspender os efeitos da Lei 12.619/2012", diz trecho de ofício enviado pela CNTT a órgãos governamentais e de fiscalização.
Devido às paralisações, o custo de alguns alimentos chegou a subir 150% no Rio de Janeiro. Uma pessoa morreu durante um bloqueio no interior do Paraná. A vítima teria arremessado um cone de sinalização no meio da rodovia, com o objetivo de tentar parar o ônibus, que, segundo a Polícia Rodoviária Federal (PRF), estava em alta velocidade. O veículo atingiu o manifestante, que morreu no local.
Reivindicações
- Pela nova legislação do setor, os motoristas devem fazer uma jornada de trabalho de oito horas diárias, com no máximo duas horas extras, além de pausa de 30 minutos a cada quatro horas trabalhadas
- O Movimento União Brasil Caminhoneiro quer o adiamento por um ano da vigência dessa lei alegando que as exigências impostas são "inviáveis por falta de infraestrutura nas estradas"
- A nova regra também determina descanso sem interrupção de 11h a cada dois dias trabalhados
- Porém, os caminhoneiros argumentam que as rodovias brasileiras não têm infraestrutura adequada para cumprir a norma
- Outra reclamação envolve a entrada de mais de 600 mil veículos no setor, "levando à concorrência desleal que jogou o frete rodoviário a valores que não cobrem as despesas", dizem os manifestantes
- O cartão-frete é alvo de outra reivindicação por impedir o recebimento de dinheiro ou de cheque.
Terra
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