A leveza do Natal, com Igor Vitorino

*Igor Vitorino da Silva


A festa de Natal se secularizou. Cristãos e não cristãos são chamados pela religião do mercado para comemorá-la. O nascimento de Cristo transformou-se em mero pretexto para lucrar mais, tornou-se apenas mais um dia para festejar em excesso.

Da festa religiosa ficou a ideia de “espírito natalino” que parece ser uma tradução mundana do ato de bondade de Deus ao ter enviado seu filho para salvar a “humanidade”. Assim, o Natal virou o momento do exercício da bondade e da solidariedade, época que se realizam ações inusitadas e inesperadas, que funcionam como justificativa para o consumismo suntuário e frenético que passou a caracterizá-lo no mundo contemporâneo.

Pelas ruas das cidades com a proximidade do Natal ouve-se a expressão: “foi seu dia de papai Noel hoje”, quando alguém ajuda alguém ou age com gentileza. Por todos os cantos proclama-se que o Natal é a época das boas ações e que elas são condição para a realização tranquila da festividade, ou melhor, para o consumo sem dores de cabeça. Os jornais, entre as propagandas comerciais de natal, anunciam doações milionárias às instituições de caridades, cobrem a chegada de Papai Noel aos bairros periféricos com centenas de brinquedos descartáveis e efêmeros, tal qual o “espírito natalino”.

Praticar caridade natalina, nesse sentido, tornou-se uma obrigação. E, muitas vezes, uma estratégia para ganhar visibilidade social. Para os que têm mais grana seria um modo de aliviar um incômodo e desviar os olhares reprovadores de seu natal de exuberância e ostentação. Porém, para os menos abastados seria o momento para demonstrarem seu espírito de solidariedade na adversidade. A solidariedade é uma válvula de escape nessa festa que foi colonizada pelos verbos consumir e ostentar, mas uma significativa parte dos seres humanos não pode conjugá-los.

O que se deseja com tanta bondade nas últimas semanas do ano? É passar as festividades aliviado, sem culpa e remorso. Para garantir a leveza do Natal, mesmo que seja por ritualidades vazias, procura-se ajudar alguém, ser solidário as suas agruras, busca-se perdoar e pedir perdão. É necessário fazer uma boa ação como prerrogativa para o “espírito natalino”. Com o Natal tudo converge para que as festividades sejam tomadas por uma leveza, mesmo que superficial e provisória, para que se imponha uma amnésia natalina às sombras do dia-a-dia, pelo menos na última semana do ano.

*Historiador e professor de História do Campus Nova Andradina/IFMS
 

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