Opinião / Artigos e Colunas
As Manjedouras estão vazias
Cuida-se da aparência, distribui-se presentes
*Igor Vitorino da Silva
Aproxima-se as comemorações religiosas natalinas, as cidades ficam iluminadas e os comércios coloridos, mas o grande motivo da festa, a celebração do nascimento do redentor, parece esquecido. Envolvidos no clima de euforia, insuflado pela mídia, cristãos e não cristãos preparam-se para a noite de 25 de Dezembro, animados lembram-se dos presentes e festejos, quase não sobrando tempo para o anfitrião da noite.
Cuida-se da aparência, distribui-se presentes, decora-se as casas, prepara-se banquetes com fartura comida e bebida, ostenta-se uma alegria espontânea. Aliás, qualquer sinal de tristeza na noite de natal é vista como uma atitude indelicada e feia. A regra é ser (parecer) feliz e confraternizar mesmo que não se tenha razões ou dúvidas sobre sentido da festa.
Muitas vezes, as pessoas para não serem alvo de críticas e não serem tomadas por sentimentos de culpas irrompem os festejos com orações ou realizam boas ações (Entrega de comida e presentes às famílias carentes, visita aos doentes), tudo para que a festa natalina transcorra sem muitas dores de cabeça, desligada de qualquer preocupação mais profunda e entediante.
Entre beijos e abraços, papéis de presentes rasgados e brindes, ovações e risadas, a noite vai passando e o Menino Jesus mantém-se abandonado, transformado em mero pretexto para realizar o desejo humano de “estar junto” ou em motor para os recordes de vendas do comércio. Os valores da manjedoura, caridade, humildade e simplicidade, parecem não fazer sentido numa vida social que enaltece a ostentação, a arrogância e a indiferença social como fundamentos de sua existência.
O Menino Jesus continua sem lugar para nascer. O coração das pessoas, que deveria ser sua manjedoura, está tomado por outras necessidades e interesses que repelem seus ensinamentos. Encapsulados em si mesmos fecham-se ao carisma do Deus Salvador, colocam-se de costas ao seu chamado, a sua aliança.
Mas do que nunca, celebrar o Natal hoje significa romper as formalidades, superficialidades e ritualidades vazias que o maquiam e subvertem seu significado maior, que é a rememoração do amor de Deus para com seu povo. O Natal está para além dos “flashes” e luzes, ele está no acolhimento e engajamento no projeto de Cristo, algo tão simples e singelo que somente corações mergulhados em si mesmos podem esquecer.
*Historiador e professor de história do Campus Nova Andradina/IFMS
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