Em Nova Andradina, tudo é motivo para fazer um churrasco, não importa o que será comemorado. Sempre há um pretexto para juntar os amigos e saborear uma boa carne. E virar umas purinhas, tomar umas cervejas geladas e ouvir uns modão. Todo mundo arrisca-se a fazê-lo, mas são poucos os que controlam as técnicas ancestrais do preparo de um bom churrasco sul-mato-grossense. Enquanto vai se armando o churrasco, liga-se para Dedé Fest, Casa da Cerveja, Perobão ou outro estabelecimento comercial encomendando uma caixa com gelo, duas grades de cerveja e vodka, trava-se um duelo para saber quem irá ser a vítima da vez. Caras feias. Reclamações. Valorização do passe. Broncas. Bate-boca. Tudo isso para no final ficar a mesma vítima de sempre:o churrasqueiro mor da turma.
Quando me convidam para um churrasco, fico feliz. Garantia de festa, de boa conversa e quem sabe, dependendo da situação, de uma paquera. Mas sempre me previno, fico sem jantar ou almoçar no dia anterior. Os leitores dirão: - Que uma falta de educação! Entretanto, eu digo que nessas terras do Boi Gordo abraçadas pelo rio Ivinhema e o rio Samambaia falta de educação é não ter apetite para degustar carne durante o dia inteiro.
Aprendi essa tática, quando fui convidado pelo grande amigo de luta do Bairro Laranjal, Edilson Nante, para visitar sua propriedade e saborear um churrasco. Quando cheguei na Fazenda Santo Onofre, tomei um susto. Tinha carne assando para um exército. Edilson esperava à tradicional. Chapéu arredondado, bota e guaiaca, claro que sem a “boa” garrucha, somente com a faca que me serviria a carne. Passei a manhã conhecendo as terras, conhecendo seus acervos de fotos e objetos que carregam a história da sua família e da região.
Almocei. Descansei. Caí na Cerveja. Andei mais um pouco pela propriedade. Tomei café. Passou à tarde e ainda tinha mais carne assando. Quem venceu naquela tarde foi o meu amigo Ecio, que não rejeitou nenhum pedacinho de ponta de peito e costela que lhes era oferecido antes de irmos embora. Como tínhamos que voltar, pois estávamos de carona com amigo Claudio, perdemos tristemente, talvez, um carreteirão que seria feito pelas mãos de Dona Deir Nantes.
Descobri com a barriga estufando que na cidade sorriso, e no resto de Mato Grosso do Sul, churrasco é comer carne, muita carne. No máximo, é aberta exceção para uma linguiça cuibana ou de Maracajú. Acostumado com o churrasco de capixaba em que a carne é um mero acompanhamento do feijão tropeiro, salpicão, arroz e, muitas vezes, com uma deliciosa salada de maionese, confesso que não conseguia acompanhar os sul-mato-grossenses. Naquele dia, vivia mesma situação de um visitante no Ceará recebido com uma buchada de bode bem preparada comi pouco por não ter costume, não porque não gostasse. Justifiquei-me com o anfitrião para que ele não fosse tomado pela desconfiança e eu perdesse novas oportunidades de “boca livre”.
Acabou o jogo de futebol. O que fazer? Churrasquinho. Final de expedição de trabalho. Os colegas olham um para outro e se perguntam: Vamos fazer um churrasco ou vamos para um espetinho? Não há dúvidas, vamos fazer um churrasquinho. Alguém já liga para o bar, outro vai para o supermercado. Não tem jeito, encontra-se de qualquer maneira um pretexto para um churrasco sul-mato-grossense.
Na Fejuna e na Exponan, eventos tradicionais da cidade Sorriso, ao invés do milho ou da tapioca, quem é o rei é o churrasco, assim como nas grandes festas e leilões. As mesas longas, pessoas animadas e um grande espeto no centro da mesa, enfiado num pedaço de madeira maciça. Os braços erguidos. Uma mão espeta, a outra tira o pedaço preferido. Comem com jubilo. Pratos repletos de carne, que não se enxerga a mandioca, a grande companheira do churrasco sul-mato-grossense.
Inauguração de casas, lojas e empresas. Recepções de amigos. Comemoração de vitórias. O churrasco não está ausente. Ele é usado como símbolo de autonomia e ascensão social dos homens. Como diz um amigo, ele é um jeitinho de dar uma de patrão, de tirar onda. O que explica o porquê quase todos os nova-andradinenses querem ter a melhor churrasqueira. Prepará-lo não é somente uma vontade de festejar com os amigos, mas uma forma de celebrar o status social.
Demonstrar perícia, organização e asseio é um calcanhar de Aquiles, quando se não gosta ou não se tem grana para contratar um churrasqueiro, pois corre-se o risco de ser alvo de elogios, que afagam o coração, mas que o capturam como o churrasqueiro eterno da turma de amigos. Engraçado que nunca tenho ouvido falar num concurso do melhor espetinho ou churrasco da cidade? Se um dia tiver, serei o primeiro a comprar os convites.
*Historiador e Professor de história do Campus Nova Andradina/IFMS
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