Dizem, as línguas de trapo, que Nova Andradina é uma cidade parada. Creio que essa deva ser uma opinião de pessoas incluídas em redes sociais limitadas, que cultivam a tranquilidade e reclusão. Nessa grande cidade do interior, o que tenho aprendido dia-a-dia é que inventar o que fazer é regra para o cidadão que quer se divertir. Aqui impera o Faça-Você-Mesmo (Individual e coletivamente). Quem fica esperando, provavelmente, morrerá de tédio e angústia ou sempre estará reclamando do que aqui não tem. Nada está pronto, tudo está por construir, comenta um morador antigo.
Caminhando pela Avenida Moura Andrade num final de domingo, por volta das vinte horas da noite, percebo outra realidade. Bares, lanchonetes e sorveterias lotadas. Casais passeando pelas calçadas. Canteiro central com pessoas jogando “conversa fora”. Grupos de amigos tomando tereré ou observando as vitrines. Crianças brincam no parquinho infantil da Praça Luz. Namoros nos seus banquinhos. Jovens escutam som, outros caminhando na Praça Geraldo Lima(Três Poderes). Carros andando como tartaruga, espiando o movimento da rua.
Escutando som, um pouco alto e, geralmente, os mal compreendidos e polêmicos funk ou sertanejo universitário. Outros, chegam da pescaria, que para muitos é sempre uma desculpa para continuar a cervejada de Sábado, das festas nos sítios ou dos passeios no final, nas casas dos parentes distantes, dos sonhados shoppings centers ou do cobiçado comércio do Paraguai.
No tradicional Lanchão, as pessoas aproveitam para assistir o noticiário esportivo e, às vezes, as fofocas do mundo televisivo. No Democrático Bar do Gordo I, trabalhadores se divertem, curtindo o restinho de domingo ao som da junkerbox. Noutros Bares, alguém provavelmente está tomando a última birita de domingo em homenagem ao início da semana de lida. Ninguém quer dispensar os últimos minutos de folga. Há aqueles que vão dormir cedo ou assistir mais televisão. Sem fazer nada, ninguém fica. Um grande problema para quem não tem folga dia de domingo.
Em frente à Prefeitura velha, o grande “fervô de domingo”. Centenas de jovens se divertindo, escutando som alto, dançando, bebendo e fumando um narguilé, reprisando a sexta-feira e o sábado de madrugada no Distrito Industrial, que se transforma numa boate a céu aberto. Ali se encontram, veem e são vistos. Fazem seu grito ainda invisível proclamando (Interpretado pela grande maioria como bagunça ou falta do que fazer!) aquilo que é fundamento da existência das cidades: estar juntos.
Apenas, penso que deveriam ser mais espertos para neutralizar o discurso dos seus adversários que os veem sempre como arruaceiros e baderneiros. Deviam criar estratégias simples de sustentabilidade do seu movimento autônomo de apropriação e ressignificação do espaço urbano para evitar, por exemplo, sujeira no local onde ficam, não patrocinando a raiva social dos seus opositores.
Essas agitações que pulsam na cidade Sorriso no final de Domingo se completam com as diversas Igrejas lotadas e animadas. Fiéis bem arrumados a pé, de automóveis, motos e bicicletas se dirigem as suas congregações para renovarem sua fé e abençoarem seu início de semana. Terminado os cultos não deixam, também, de aproveitar para observar uma vitrine, fazer um lanchinho ou tomar um sorvete.
E, ainda, não posso me esquecer daqueles que aproveitam para andar de skate, passear de bike, jogar um futebol, basquete ou vôlei nas várias praças da cidade, além de fazerem exercícios físicos nas academias da Terceira Idade recém instaladas ou tomar o famoso tereré na casa de amigos.
E, quando vem mais um final de semana. Tudo, novamente, se repete como se fosse uma cena de cinema. Talvez, seja isso que dê força à noção de paradeira e calmaria, partilhada melancolicamente por muitos jovens nova-andradinenses. A experiência coletiva da repetição das atividades sociais já comentadas, quase ab infinitum, transformam-se num tédio social, num reconhecimento da mesmice cotidiana. Acácio Gomes, em matéria no site Nova News sobre o turismo local, tocou nesses problemas.
Assim, o discurso de que não há nada para fazer constantemente repetido, muitas vezes, impede que se seja, positivamente, reconhecida toda essa agitação de domingo e outros dias feita por esses diversos atores sociais que fazem a cidade e buscam alguma alternativa de lazer. Uma rotina, esvaziada de novidade, que os impede de ver que mesmo repetindo, estão fazendo-se alguma coisa e usando sua criatividade. Como dizem os anos antigos: “Se só tem tu, vai tu mesmo”.
A vontade de novidade, que penetra todas as camadas sociais da cidade Sorriso, esconde que essa “repetição tediosa”, a qual todos geralmente reclamam e que culpam a ação difusa e fragmentada do Poder Público, é o produto do desejo e ação da coletividade ou das vontades individuais. E, nesse sentido, somente elas podem rompê-la. Se existe o “ mesmo fazer”, é porque que uma coletividade e/ou individualidades o sustentam.
Não há aquele que não deseje alguma novidade no final de semana . Mas, se ela não acontece, segue-se repetindo para continuar a vida cotidiana. Assim, o nova-andradinense que já usa a sua criatividade para conviver com a repetição, deveria reconhecer-se como agente do seu lazer e utilizá-la para produzir as sonhadas novidades. Dizer que não se faz nada ou não tentar produzir alguma novidade é fazer tábua rasa de todas as ações individuais e coletivas que emergem todos os finais de semana, buscando preencher o vazio da novidade, mesmo caindo repetição das opções de fazer.
*Historiador e professor de História do Campus Nova Andradina/IFMS
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