O bom cidadão!

Na realidade, o bom cidadão é aquele que abre mão da dúvida, que se esquiva da defesa de sua liberdade e desvaloriza a sua capacidade de autonomia; é aquele que vê com olhos desconfiados a capacidade reflexiva dos outros cidadãos.

*Igor Vitorino da Silva


A cada dia reforço uma ideia que aprendi na vida militante e acadêmica: Não há democracia no Brasil. Aqui o que mais se deseja é o cidadão amordaçado. E se esse cidadão for das camadas subalternas além de mordaçado, deseja-se também que ele seja cego.

A lei do silêncio que as elites e a mídia brasileira acreditam imperar somente nas favelas, está espalhada por todos os cantos, alimentada por uma cultura política patrimonialista, personalista e autoritária que ainda vigora no país e transforma as instituições públicas republicanas em meras correias de transmissão dos seus interesses e das vontades dos “donos do poder”.

Nesse cenário tomado pelo cinismo político impera uma concepção política segundo a qual o bom cidadão é aquele que:

-Ensina o silêncio, principalmente diante do que é injusto, daquilo que subverte o interesse público;

-Incentiva a submissão diante das ordens irracionais e, até mesmo, ilegais;

-Promove a obediência como melhor estratégia de sobrevivência, celebrando a eternidade e infalibilidade dos poderosos;

-Abdica do pensamento livre pela monotonia reflexiva e pela repetição normalizada, temendo a perseguição virulenta, a eliminação física e os rótulos depreciativos de desordeiro, baderneiro, desocupado e vândalo;

-Desestimula a vontade de transformação, enaltecendo a todo instante a naturalidade da dominação e a supremacia e vaidade dos poderosos;

-Reconhece que só lhe cabe o silêncio.

Na realidade, o bom cidadão é aquele que abre mão da dúvida, que se esquiva da defesa de sua liberdade e desvaloriza a sua capacidade de autonomia; é aquele que vê com olhos desconfiados a capacidade reflexiva dos outros cidadãos. É aquele que não coloca em questão ou perigo a ordem vigente. Por fim, é aquele que se nega ser cidadão, que cultiva e valoriza o absenteísmo político. Esse é digno de deferência, celebrações e condecorações, pois mantém-se de cócoras aos ditames dos poderosos e não ousa a contestar interesses destes. Como canta o grupo Skank o bom cidadão é pacato cidadão!

*Historiador e professor de Campus Nova Andradina/IFMS
 

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