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Leilão de Dilma visa mais o eleitor do que a sociedade, diz ex-BC
Folha de S. Paulo
Para o economista Affonso Celso Pastore, o governo Dilma incentiva uma ação intervencionista do BNDES movido por uma ideologia nacional-desenvolvimentista.
"O excesso de intervencionismo, esse nacional-desenvolvimentismo ainda existe, está na cabeça do Brizola [Leonel Brizola, 1922-2008], lá atrás, por isso está na cabeça da Dilma, por isso está na cabeça do Arno Augustin [secretário do Tesouro], esse povo que no fim absorveu aquilo."
E a política de escolher algumas empresas específicas para investir, como o BNDES tem feito?
Um grande amigo meu empresário diz o seguinte: o empresário tem de ser escolhido pelo mercado e não pelo governo.
O que o preço da ação reflete? A expectativa de lucro da empresa. Se a empresa é eficiente, tem uma expectativa de lucro alta. Se for ineficiente, está fora do jogo.
Agora chega o BNDES e diz "eu gostei do sorriso desse, esse cara é promissor, vai em frente". Se o empresário falha num projeto, o equity [capital social, resultado do preço das ações] vira pó. Você acabou de assistir um caso agora. Se tivesse o governo por trás, tinha um "bailing out" ali ["bailout" é uma injeção de recursos pelo governo em uma empresa falida ou prestes a falir, para permitir que ela honre compromissos de curto prazo].
O ex-presidente do Banco Central Afonso Celso Pastore em frente a gráfico que mostra o aumento dos repasses do Tesouro para o BNDES e para a Caixa, em porcentagem, do PIB - Foto: Karime Xavier/Folhapress
Em quanto o sr. acha que esse cálculo político explica a política econômica mais voltada para setores e mais voltada para o BNDES como financiador?
É muito mais ideologia do que projeto político.
A jornalista Sylvia Nasar, no seu livro "Grand Pursuit: The Story of Economic Genius" ["A Imaginação Econômica - Gênios que criaram a economia moderna e mudaram a história", Cia. das Letras], mostra que um mesmo fato histórico pode ser lido de formas diferentes. Por exemplo, a Revolução Industrial. Marx [Karl Marx, 1818-1883] leu a Revolução Industrial e concluiu que o capitalismo era inviável. Marshall [Alfred Marshall, 1842-1924] leu a Revolução Industrial e concluiu que não, você remuneraria as pessoas na produtividade marginal e teria uma sociedade afluente. Charles Dickens (1812-1870) viu a Revolução Industrial e escreveu todos os romances que ele tem sobre a riqueza e a miséria que se gerou no período.
Cada um reage de um jeito. Os fabianos [movimento intelectual britânico do século 18, socialista e reformista] olharam para aquilo e tiveram outra reação. A Beatrice e o Sidney Webb, que depois fundaram a London School of Economics, e que têm um tipo de filosofia parecido com a do Delfim, que é um fabiano, e que num certo sentido está na cabeça da Dilma --esse nacional-desenvolvimentismo, o intervencionismo, que é uma visão fabiana-- e disseram "precisamos de um Estado com muito mais intervenção".
O mesmo fato histórico produz muitas reações.
E diria que é preciso ler muitas experiências históricas, mas quando se desce ao ponto de onde está o crescimento econômico, onde está o desenvolvimento econômico, os fabianos não tiveram muito sucesso nisso. Tiveram sucesso na distribuição de renda, isso é outra história. Os marxistas não tiveram muito sucesso no desenvolvimento econômico. A União Soviética desapareceu, foi para um sistema de mercado. A China está indo para um sistema de mercado.
O excesso de intervencionismo, esse nacional-desenvolvimentismo ainda existe, está na cabeça do Brizola [Leonel Brizola, 1922-2008], lá atrás, por isso está na cabeça da Dilma, por isso está na cabeça do Arno Augustin [secretário do Tesouro], esse povo que no fim absorveu aquilo.
Essas coisas são ciclos. Vai-se para um extremo e depois se volta para outro extremo, passando por um lugar intermediário. Estamos passando por um ciclo.
Essa política intervencionista não deixa as empresas mais dependentes da negociação com o governo?
Minha crítica a isso não é a empresa ficar mais dependente ou menos dependente, mas promover o "rent seeker". Isso é uma coisa séria. Não é "o que" você conhece, é "quem" você conhece que determina se o empresário vai ou não vai. Há exceções, há um monte de empresários que, no fundo, não precisam disso, não dependem de crédito do governo.
Mas, na escolha deles, é puramente pessoal, não é um sistema em que o cara passou no teste do mercado.
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