Cidades & Região / Nova Andradina
Futebol de base: O papel das escolinhas na formação de atletas
Somadas as escolinhas têm 280 crianças e adolescentes de 4 a 17 anos de idade, o que dá uma dimensão dos jovens pretendentes a craques em Nova Andradina
Glaucia Piovesan
No país do futebol, milhares de meninos e meninas nutrem o sonho de se tornar um jogador profissional e vestir a camisa de grandes clubes brasileiros, europeus e mais recentemente, chineses, árabes e outros escudos para se tornarem estrelas.
Sim, estrelas como Neymar, Messi e Cristiano Ronaldo entre tantos outros atletas que marcaram história na modalidade despertam nas crianças e adolescentes o sonho de um dia serem atletas famosos. Para que isso aconteça, muitos pais apostam suas fichas nas escolinhas de futebol.
É aí onde tudo começa. Escolas de futebol têm sido um dos principais trampolins para meninos bons de bola. Hoje, a maioria dos clubes mantém contato permanente com algumas escolinhas e, de tempos em tempos, envia representantes para testar garotos que se destacam em cada uma delas.
Em Nova Andradina, esse desejo também impulsiona centenas de jovens. Hoje, o município conta com quatro instituições dedicadas ao ensino do futebol de campo. Esse número inclui a Escolinha do Grêmio de Foot-Ball Porto- Alegrense, o Projeto Menino de Ouro, e as Escolinhas dos treinadores Ercílio Carreira Mendes e Mancha.
Destas, a escolinha do Grêmio FBPA é particular, com fins lucrativos e também a única que carrega o escudo de um grande clube profissional. Atendendo cerca de 120 atletas desde a categoria fraldinha até sub-17 categorias, na faixa etária de 4 a 17 anos, a escolinha foi aberta há apenas 5 meses. Atuam 5 profissionais, sendo 3 professores de educação física e 2 estagiários. Os treinamentos ocorrem na AABB e Amarelinho, com aulas três vezes por semana. A principal vantagem é que a franquia oferece um suporte para a escolinha, através de um método de treinamento e o acesso direto ao clube.
Segundo um dos sócios-proprietários, Joari Martins, o objetivo da escolinha não é só descobrir talentos como também trabalhar valores, trabalho em equipe, respeito ao próximo, entre outros conceitos de socialização. Por isso, existe um acompanhamento do aluno na escola, o seu comportamento com os amigos e com os pais. “Nós entendemos que se não for um atleta, tem que ser um bom cidadão”, pontua.
Apesar do pouco tempo de atividade, alguns resultados expressivos foram conquistados. “Ficamos em 3° lugar na Copa Interior de Futsal, que é o maior evento de base do Estado. Uma grande vitória para quem está iniciando um trabalho”, enaltece.
Futebol e cidadania
As outras duas escolinhas têm caráter social e não cobram mensalidade. A escolinha do Seo Ercílio é a mais antiga. “Joguei futebol até aos 30 anos. Depois comecei este trabalho. Entre amador e escolinha tem quase 34 anos. Atualmente, são 60 adolescentes inscritos”, relata.
As aulas acontecem no campo próximo ao Andradão, duas vezes por semana, nas categorias sub 12, sub 15 e sub 17.
De acordo com o treinador, apesar de revelar atletas para times profissionais, a iniciativa visa, acima de tudo, formar cidadãos. A escolinha sobrevive com ajuda dos seus amigos, da eventual ajuda de comerciantes e políticos para cobrir custos com transporte, organização e outras despesas de participação em campeonatos na região.
"É um trabalho social. A intenção é tão somente formar homens para o bem de Nova Andradina. Independente de se profissionalizar como jogador, o garoto sai daqui em condições de ser um cidadão do bem em qualquer área de trabalho", afirma, orgulhoso de saber que seus pupilos se transformaram em pessoas respeitadas, tanto no campo como fora dele, em seus empregos.
“Muitos jogadores passaram pela minha mão. Marcelo Moreto que jogou no Benfica, Andrezão que foi profissional e hoje é treinador, Gilmar Amorin, Tarzan, Nenão, entre tantos outros. Eu faço isso porque gosto”.
Projeto Menino de Ouro
O projeto Menino de Ouro é outra opção para quem quer aprender a jogar futebol. Coordenada por Zé Leôncio, a escolinha atende aproximadamente 100 crianças e adolescentes na faixa etária de 8 a 17 anos. As aulas são gratuitas, três vezes por semana (quartas, sextas e domingos) e acontecem na AFA - Associação de Futebol Amador.
Leôncio disse que cresceu dentro das escolinhas de futebol. Jogou na 21 de Abril em Fátima do Sul e Ubiratan, em Dourados. Já adulto, pertenceu a vários times amadores como o Clube Esportivo Nova Andradina, onde teve como técnico Ercílio, a quem considera seu grande mentor. Atualmente, joga pelo Mana – Master de futebol de Nova Andradina.
Por meio da escolinha, ele acredita que pode devolver a sociedade um pouco do que ganhou. “O foco principal é o social. A escolha de utilizar o futebol como ferramenta é porque sou apaixonado pela modalidade. É algo que me motiva muito”, ressalta, enfatizando que nenhum funcionário é remunerado e que o Menino de Ouro é mantido pelos pais e voluntários, venda de rifas, pizza e outras promoções organizadas pela instituição, que conta atualmente com 20 voluntários que auxiliam nas atividades desenvolvidas.
São oferecidos, gratuitamente material esportivo e alimentação. Pedagogas e psicólogas voluntárias acompanham a vida escolar e familiar dos participantes. O intuito é auxiliar os garotos em suas dificuldades.
“Para o ingresso no projeto é necessário que o garoto esteja na escola e a sua permanência é condicionada as boas notas e disciplina. Os três pilares que norteiam o projeto são família, esporte e educação. Não é necessário ter habilidades com a bola. O foco é trabalhar as questões sociais como a segregação racial, cooperação, saber ganhar e perder, respeitar o colega, disciplina e a força de vontade”, garante o professor.

Dentro deste projeto social, que completa dois anos neste mês de agosto, existe um trabalho técnico, tático e físico, aonde os atletas vão melhorando suas condições e habilidades futebolísticas. Aqueles que se destacam, e dado apoio para que possam ingressar em outros clubes do país. “Temos garotos que fizeram teste no Atlético Paranense, que disputaram o campeonato paulista pelas categorias de base profissionais. Oferecemos este apoio, mas sempre mantendo o foco no social. O foco não é formar atletas profissionais, isso é uma consequência deste trabalho”, opina Leôncio.
A descoberta de um talento
Comprometimento e dedicação. Estas foram as duas principais palavras utilizadas pelos treinadores para que um atleta se torne um profissional do futebol.
No caso da Camisa 10, do Grêmio, quando se descobre um talento, a prioridade é dada ao time credenciado. Caso não haja interesse, a escola mantém outras parcerias com outros clubes e também empresários e, dessa forma, pode apresentar este atleta a outras equipes.
Segundo Joari Martins, o Grêmio não trabalha muito peneiras, mas com a observação de atletas. Nos dias 23 e 24 de setembro será feita a primeira avaliação. “O Grêmio fará jogos amistosos contra outras equipes da região, onde estarão sendo observados tantos os nossos alunos como os adversários”, informa.

Para ele, o atleta precisa de talento, mas sobretudo dedicação, persistência, comprometimento e saber escutar. “Escutar o professor e não ter vaidade. O mundo do futebol é muito difícil”, declara. E completa: “Primeiro, porque disputa vaga com milhões de atletas espalhados pelo Brasil com este mesmo sonho. Outra coisa que tenho visto é a dificuldade que os atletas têm de ficar longe de casa e da família. Tive caso de um garoto do sub-15 que estava jogando pelo Corinthians e desistiu por saudades da família", explica.
Já o professor Ercílio salienta a importância da dedicação nos estudos. "Se você estudar tem um futuro garantido. Falo muito sobre ir para o caminho certo. Se tornar um profissional é muito difícil. De 1000 jogadores se tira um. Tem que ter sorte e talento. Então, se um fizer um homem de bem, estou feliz", avalia. E emenda ressaltando a dificuldade de um treinador. “São 40 jogadores dentro de um ônibus, preocupação com uniforme, alimentação e a saúde dos atletas. É mais fácil jogar bola do que comandar. A responsabilidade é enorme”.
Talentos revelados
A conclusão dos treinadores é que o caminho para a profissionalização quase nunca é fácil. Além do talento do atleta, envolve questões que vão desde a dedicação do jovem e o apoio da família até as complicadas relações contratuais com os clubes, com os agentes e com empresas terceirizadas que vivem da venda de jogadores.
Mesmo assim, vários meninos de Nova Andradina prosseguem com o sonho de sobreviver financeiramente do futebol de campo.
Entre aqueles que buscam ocupar espaço no futebol, está o lateral direito Guilherme Oliveira de 16 anos. Ele participa do Projeto Menino de Ouro há um ano, mas 7 anos frequenta as escolinhas, tendo passado pelos treinadores Mancha e Ercílio. “Meu sonho é ser jogador profissional. Treino todos os dias, forte. Estava jogando em Assis (SP), onde participei do Campeonato Paulista na categoria sub-17 e ganhei muita experiência. Estou apostando no projeto, pois está crescendo e vamos jogar o campeonato sul-mato-grossense. Vou continuar trabalhando e nunca desistir, com apoio dos meus pais e de todos aqui”, ressalta o atleta que tem como ídolo Daniel Alves, do Barcelona e da Seleção Brasileira.
Nascido em Nova Andradina, o atacante Guilherme Parede, conhecido por aqui como o Paraguay, conseguiu alcançar seu espaço no futebol profissional e atualmente joga no Coritiba.
O jogador começou sua trajetória numa escolinha de futsal de Batayporã, aos 12 anos, onde viveu sua infância e adolescência. A escolinha era comandada por uma mulher, Dona Neucy Emboava, professora de educação física. Aos 16 anos, migrou para o futebol de campo e passou a defender as cores do Cene, de Campo Grande. Foi nesta época que conheceu Eliseu, que o levou para disputar um campeonato pela equipe juniores do Operário de Ponta Grossa, no Paraná.

Neste time, conseguiu se destacar com boas atuações em jogos decisivos e foi promovido para a equipe principal. Durante a disputa do campeonato paranaense de 2013 foi descoberto pelo Coritiba e contratado.
Há cerca de três anos na equipe paranaense, Guilherme Parede, como gosta de ser chamado, acredita que a escolinha foi o primeiro passo para aprender o que é o futebol. “Eu era o primeiro a chegar. Ao final de cada aula, ficava treinando finalização e os demais fundamentos. Isso me ajudou a me destacar na equipe”, ressalta.
Para ele, quem quer se tornar um profissional, precisa não apenas de talento e dedicação. “É preciso esperar o momento certo, ter paciência, perseverança e fé em Deus. Além do apoio dos pais e de um empresário que te ajude a buscar um espaço num time de ponta, que te dê projeção e suporte”, elenca o atacante do Coxa, que tem sua carreira empresariada por Luiz Alberto, da LA Sports.
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