Dos 79 municípios sul-mato-grossenses, apenas 11 dispõem de Imol (Instituto de Medicina e Odontologia Legal), onde são feitos exames periciais e os necroscópicos para a liberação de corpos. A situação expõe a fragilidade de todo o sistema, com as famílias do interior aguardando horas para o sepultamento. Além de poucas unidades, as que estão em funcionamento sofrem com a falta de equipamentos, como câmara fria, para conservação dos corpos.
Na semana passada, uma adolescente de 15 anos, morreu em Nova Andradina, mas só foi velada 22h depois, em razão da falta de médico legista.
O problema aconteceu porque o Imol em Nova Andradina, contava apenas com o médico legista Omar Ferreira Miguel, que estava de folga no dia da morte da adolescente. Ele pediu demissão após a polêmica do caso, alegando sobrecarga de serviço.
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No dia, apareceu na cidade o governador André Puccinelli, do PMDB, que participava de solenidade política, justo na hora do enterro da garota. Puccinelli foi cobrado da população, que chamou o médico de “vagabundo”.
A APO/MS (Associação dos Peritos Oficiais de MS), saiu em defesa do médico Omar. Para o presidente da entidade, Antônio César Moreira de Oliveira, seria preciso no mínimo quatro médicos para manter a escala de plantão, em cada unidade regional.
Além disso, falta a interiorização da perícia criminal com instalação de mais unidades, para desafogar o atendimento nos poucos municípios que dispõem de Imol. Isso, sem falar na necessidade de mais equipamentos, além da reforma dos prédios.
“Essa realidade se estende a todas as unidades regionais de perícias e identificação, assim como para a sede da perícia do Estado, em Campo Grande”, afirmou Antônio César.
Em Nova Andradina, por exemplo, a única câmara fria não funciona desde quando o médico Omar chegou à unidade, em novembro de 2012. Assim, se chegar um corpo para aguardar identificação não tem onde condicioná-lo.
Essa situação compromete todo o atendimento. Como aconteceu no acidente em dezembro do ano passado, na BR-267, próximo ao município. Uma carreta se chocou com uma van, deixando onze mortos. Sem a câmara fria funcionando no Imol de Nova Andradina, os corpos tiveram que ser encaminhados para a Capital.
Desvalorização
A baixa remuneração dos médicos legistas dificultam a contratação de novos profissionais para atuarem em Mato Grosso do Sul. Com salário inicial de R$ 5,2 mil, a remuneração é a penúltima mais baixa do País. No vizinho Mato Grosso, por exemplo, o salário inicial é de R$ 13 mil. Em Santa Catarina chega a R$ 16 mil.
Em razão da desvalorização profissional, somente neste ano três profissionais pediram as contas nas unidades em que atuavam no Estado. Eles foram para outras áreas de trabalho e até mesmo outros estados.
Revolta
A adolescente Taynara Pereira de 15 anos, morreu no dia 12, em acidente de trânsito no município de Nova Andradina, mas o sepultamento só foi possível dois dias depois, em razão da falta de médico legista. O caso revoltou a família da vítima, que protestou em carreata durante o funeral.
No dia do acidente, o único médico que atendia no Imol local, estava de folga. Por esse motivo, o corpo da jovem precisou ser encaminhado para a cidade de Dourados, distante 175 km, o que atrasou em cerca de 22h a realização do velório.
Liberação de corpos exige viagens de até 160 km
O Imol de Nova Andradina é o único da região do Vale do Ivinhema, que, de acordo com dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), possui uma população estimada em 124 mil habitantes.
Sem querer entrar em polêmica, o médico Omar Ferreira concordou em conversar com a reportagem, sobre as condições de trabalho.
Ele explicou que ao todo são sete municípios atendidos na região, dentre os quais Ivinhema, Batayporã e Bataguassu. Este último fica a 135 quilômetros de Nova Andradina.
Assim, os corpos precisam ser levados até o município em uma viagem que dura cerca de quatro horas (ida e volta).
Além da viagem, a família tem que esperar o tempo do exame de necropsia. Juntando todos os procedimentos, desde a saída do corpo para o Imol e o retorno para a cidade de origem, o sepultamento sempre atrasa em pelo menos seis horas. Isso quando tudo ocorre dentro da normalidade, sem qualquer tipo de imprevisto.
Coordenador tenta ‘aliviar’ situação
O coordenador-geral de Perícias em Mato Grosso do Sul, Nelson Fermino Júnior, todos os onze Imols no Estado atendem 24 horas, sendo as escalas dos profissionais preparadas pela chefia imediata de cada unidade regional.
Nelson Firmino, lembra que existem ainda alguns municípios que possuem médico legista, mas que não tem uma sede própria do Imol, sendo os atendimentos feitos em hospitais públicos. “Apenas nesses casos”.
Nos municípios onde não há Imols, nem médico legista, os atendimentos são encaminhados paras as cidades pólos onde os procedimentos acontecem normalmente. “Sempre uma cidade próxima dos demais municípios”.
Correio do Estado e reportagem assinada por “Rafael Bueno”
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