Quem já teve a oportunidade de ver boiar suavemente nas correntes leves do Rio Paraguai a exuberância do camalote, não esquece sua imagem. Da mesma forma trago uma figura ímpar na inteligência do nosso estado e que deixou uma inovação temática e na história literária apresentando uma poesia regional que abarcava o povo, os negros e como infere Hermínio Roa...a ralé, que se pontuava com poemas livres despojada de metrificações em Areôtorare (1935) mas que representava a denúncia ante a catequização e dominação dos bororos perpassando a exploração do trabalhador, índio e negro; e se consubstanciou com o manejo genial das metáforas na obra: Sarobá do ano seguinte(1936) se tornando um autor construtor, de um texto peculiar, e altamente representativo da cultura pantaneira.
Assim é a tessitura poética de Lobivar Matos, filho de Manoel Augusto de Matos e Brasília Nunes de Matos nascido em Corumbá a 12 de janeiro de 1915.Estudou no Ginásio Municipal em Campo Grande,hoje capital de Mato Grosso do Sul e terminou o Bacharelado em Ciências Jurídicas na Faculdade Nacional da Universidade do Brasil em 1941. O próprio poeta comentava que considerável parte de seus poemas realmente abordavam temáticas regionais e por isso eram simples e muito humanos com cheiro de cogitações íntimas e introspectivas, embora tivessem reflexos de um pessimismo crônico bebido às pressas,nas coisas,nos seres e no mundo.
“O Sol é um martelete de Ouro perfurando o espaço” assim o poeta traz as leis científicas para o sonho do trabalhador que espera um melhor porvir numa coalescência entre o real e o poético aonde o tempo dialoga com o momento na voz do povo oprimido. É claro que como sou um homem de pouca leitura ao contemplar a indiferença natural das coisas ousamos sonhar e assim ousei escrever sobre o ignescente escritor que faleceu aos 32 anos, até porque em algum momento todos nós nos encontramos,nas letras desconhecidas.E assim ao adentra as portas do centenário de seu nascimento, eu, um simples articulista desconhecido lembra Lobivar Matos, que se intitulou de “poeta desconhecido” mas que se tornou o precursor do pré-modernismo no estado,a exemplo de seu primeiro poema,constante em Areôtorare, seu livro de estréia, intitulado "Destino do Poeta Desconhecido". Ele, como se esperava, não fala de seu nascimento, mas vislumbra no futuro a sina de quem nascera para a poesia com gosto de guavira, e cheiro de camalote e de casario do porto:
Eu sou o poeta desconhecido (...)
Trago comigo, a minha alma presa,
A inútil esperança da vitória
A bondade de minha gente
Fulgura, cintilante nos meus feitos,
Rola estuante de harmonia, nos meus gestos
E floresce, orvalhada de luz, nas minhas atitudes.
Busco sem cessar, dia e noite,
Numa luta generosa e boa,
Luz para a razão, pasto para a inteligência.
Eu sou o poeta desconhecido.
Não sei o destino que me espera,
Porque sou o próprio destino. ( Matos 1935)
*Articulista
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