Reflexão acerca da cordialidade brasileira

*Michele Campina da Silva e **Ricardo Oliveira da Silva


O presente trabalho tem como foco analisar a ideia de homem cordial partindo da interpretação apresentada por Sérgio Buarque de Holanda na obra Raízes do Brasil, publicada em 1936. O livro Raízes do Brasil foi uma narrativa sobre a nação que apresenta uma identidade sobre o que é ser brasileiro a partir da noção de homem cordial. No livro o autor destacou a personalidade do sujeito marcada pela emotividade, a espontaneidade, o desejo de conviver com os outros e também sua indistinção na separação entre público e privado. A obra Raízes do Brasil, elencou uma nova configuração ao conceito de cordialidade, onde tal adjetivo não parte da prerrogativa de “bondade”, mas refere-se ao jeito peculiar como o qual o brasileiro historicamente desenvolveu suas relações sociais, no âmbito familiar e no espaço público. Para Sérgio Buarque de Holanda o homem cordial seria o traço peculiar do caráter brasileiro "[...] nós nos comportamos de modo perfeitamente contrário às atitudes já assinaladas japonesas, onde ritualismo invade o terreno da conduta social para dar-lhe mais rigor. No Brasil é precisamente o rigorismo do rito que se afrouxa e se humaniza.” (BUARQUE, 1995, p.149).

Segundo o autor, nós brasileiros teríamos herdado a sociabilidade do homem cordial tendo como exemplo o “ser português”. O caráter do brasileiro como “homem cordial” origina-se de Portugal. No caso,“a cordialidade,a hospitalidade, a generosidade, virtudes tão gabadas por estrangeiros que nos visitam, representam, com efeito, um traço definido do caráter brasileiro, na medida, ao menos, em que permanece ativa e fecunda a influência ancestral”. (HOLANDA,1995, p.146), no entanto essa cordialidade na teria nada a ver com civilidade:

Seria engano supor que essas virtudes possam significar "boas maneiras”, civilidade. São antes de tudo expressões legítimas de um fundo emotivo extremamente rico e transbordante. Na civilidade há qualquer coisa de coercitivo(...). Nenhum povo está mais distante dessa noção ritualista da vida do que o brasileiro. Nossa forma ordinária de convívio social é, no fundo, justamente o contrário da polidez. Ela pode iludir na aparência— e isso se explica pelo fato de a atitude polida consistir precisamente em uma espécie de mímica deliberada de manifestações que são espontâneas no “homem cordial”: é a forma natural e viva que se converteu em fórmula. Além disso a polidez é, de algum modo, organização de defesa ante a sociedade.(...) No “ homem cordial”, a vida em sociedade é, de certo modo, uma verdadeira libertação do pavor que ele sente em viver consigo mesmo, em apoiar-se sobre si próprio em todas as circunstâncias da existência. (HOLANDA, 1995, p.147).

A definição de que “o homem cordial” pressupõe “espírito amigável” ou “generoso” faz com que esse tipo, bem adaptado ao brasileiro neoportuguês, tratasse desconhecido como se fossem irmãos, exemplo disso foi o uso de nomes no diminutivo como chamar João por Joãozinho.

No entanto, o homem cordial também apresenta uma face menos “positiva”, a amizade, o afeto e a cordialidade herdados do ambiente familiar, nos espaços públicos se apresentou como problema, pois “não era fácil para os detentores das posições publicas de responsabilidades formados por tal ambiente, compreenderem a distinção fundamental entre os domínios do privado e do publico". (HOLANDA, 1995, p. 145). Esse aspecto constitui uma identidade singular e diferenciadora em comparação com outros povos. Admirável aos olhos de estrangeiros, mas uma barreira para a construção de uma sociedade marcada pela impessoalidade, racionalidade e lisura no espaço que ultrapassa o da família, ou seja, o espaço público.

O conceito de homem cordial para Sérgio Buarque foi compreendido como um obstáculo na construção de um estado democrático. para ele o homem cordial seria marcado pela exacerbação de afeto: tanto para a formação de laços comunitários quanto para sua ruptura violenta. Raízes do Brasil pontua, com fina sensibilidade, algumas das mazelas de nossa vida social, política e afetiva. Superar essa herança é uma posição defendida nas páginas do livro, sendo assim o autor afirma que o brasileiro seria um neoportuguês, tendo como uma de suas faces o homem cordial. Mas o importante seria sermos brasileiros. Para isso, contudo, foi necessário um mergulho nas “raízes do Brasil”.

Referências:

BARROS, Jose D’ Assunção. História das ideias - em torno de um domínio historiográfico. História em Reflexão, Dourados, vol.02, nº. 03, p.01-11,jan./jun.2008

BEVIR, Mark. A logica da história das ideias. Bauru, SP: EDUSC, 2008.

HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. 11ª ed. Rio de Janeiro: DP&A, 2006.

LEENHARDT, Jacques. Frente ao presente do passado: as raízes portuguesas do Brasil. In: PENSAVENTO, Sandra Jatahy (org.). Um historiador nas fronteiras: o Brasil de Sérgio Buarque de Holanda. Belo Horizonte: Editora da UFMG, 2005, p. 81-106.

HOLANDA, Sérgio Buarque de.  Raízes do Brasil. 26ª ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.

PESAVENTO, Sandra Jatahy. Cartografias do tempo: palimpsestos na escrita da historia. In: PESAVENTO, Sandra Jatahy (org.). Um historiador nas fronteiras: O Brasil de Sergio Buarque de Holanda. Belo Horizonte: editora UFMG, 2005, p.17-80.

REIS, José Carlos. As identidades do Brasil: de Varnhagen a FHC. 3ª ed. Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas, 2000.

*Acadêmica do Curso de Licenciatura plena em História da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, no Campus de Nova Andradina.

**Docente no Curso de Licenciatura plena em História da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul  no Campus de Nova Andradina.

Cobertura do Jornal da Nova

Quer ficar por dentro das principais notícias de Nova Andradina, região do Brasil e do mundo? Siga o Jornal da Nova nas redes sociais. Estamos no Twitter, no Facebook, no Instagram, Threads e no YouTube. Acompanhe!