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Razões pelas quais a religião é desnecessária
*Pablo Diego Barros de Jesus
Ao longo da história da civilização, a religião, monoteísta ou politeísta, consolidou-se como fator indissociável em toda forma de organização humana. As sociedades primitivas, cuja compreensão de mundo era limitada, foram os primeiros seres humanos a cultuar e venerar supostas divindades, estabelecendo, assim, uma relação primordial com entes sobrenaturais. As comunidades contemporâneas, em todos continentes, também estão imbricadas com alguma forma de crença, sendo a prática religiosa assentida pela maioria da população mundial.
Por ser fenômeno social e cultural, a religião é reflexo da visão peculiar de mundo das pessoas que compõem determinada comunidade no tempo e no espaço. A tradição religiosa, consubstanciada na forma de dogmas e princípios considerados sagrados pelos praticantes, tem impactado de maneira indelével o curso da história da civilização humana. Não por acaso, pouco mais de 80% da população mundial se declaram devotos de alguma religião. É ponto de consenso, também, que o número de praticantes de determinada crença religiosa está diretamente relacionado a diversos fatores, como exposição a algum credo ao longo da vida, alcance da religião em um país, influência familiar, interferência comunitária, tradição cultural, sistema de governo de uma nação (teocrático, por exemplo), entre outros motivos.
Não se pode perder de vista que, ao reverso, a quantidade de pessoas que se referem ateias ou agnósticas é bastante considerável em números absolutos. Além disso, tem havido crescimento daqueles que não se identificam com nenhuma religião. Estudos recentes indicam que, no mundo, pouco mais de 2% da população afirma serem ateus, o que representa, aproximadamente, 150 milhões de 7,8 bilhões de pessoas no planeta. Ademais, nos dias de hoje, 16% da população mundial (1,1 bilhão de pessoas) são consideradas não religiosas (Wikipédia). Mister se faz ressaltar que, em vista da oportunidade de acesso à informação, acesso aos meios tecnológicos e acesso ao conhecimento científico, a partir do século XX, alguns fundamentos que tornam a religião desnecessária ao ser humano podem ser elencados.
A religião é desnecessária porque é uma invenção humana. Quem afirma o contrário não tem supedâneo comprobatório a não ser em algum livro religioso. E textos ditos sagrados não contêm evidências ou provas de suas narrativas. Você é obrigado a aceitar a doutrina de fé - e sem questionar seus fundamentos. Além disso, o fato de milhões de pessoas tomarem como verdadeiro, absoluto ou sagrado algum livro religioso, sem parâmetros científicos ou lógicos, não torna as alegações religiosas verídicas. Pelo contrário, demonstra que os praticantes de determinada crença estão se guiando somente pelo ponto de vista religioso, sem levar em consideração outras ideias e argumentos.
A religião é desnecessária porque cria expectativa, baseada na ameaça, de um futuro incerto. É sabido por todos que algumas crenças religiosas, principalmente as monoteístas, baseiam-se na promessa de salvação eterna para aqueles que cultuarem determinada divindade. E, àqueles que não a reverenciarem, estão fadados ao castigo perpétuo. Mas as evidências disponíveis e respaldadas em argumentos lógicos e verificáveis mostram que as histórias dos livros alegados sagrados são apenas lendas mitológicas, epopeias mirabolantes e narrativas fabulosas. A religião cria a ilusão de uma vida eterna imaterial, mas não apresenta nenhuma garantia de que isso de fato vá acontecer.
A religião é desnecessária porque escraviza o ser humano. O exercício da fé baseia-se em submeter-se fielmente a preceitos religiosos. O devoto é obrigado a cumprir obrigações instituídas pela doutrina de sua crença. Assim, a concepção dos deveres de um crente varia de acordo com cada religião (há uma estimativa de, aproximadamente, 10 mil religiões diferentes em todo mundo somente nos dias atuais e, cada uma delas, defende ser a sua a única verdadeira e sagrada). Como exemplo, citam-se a restrição de uso de algumas vestimentas; necessidade de adoração constante a um deus ou deuses imaginários; restrição em comer certos tipos de carne e alimentos; proibição de algumas práticas sexuais consideradas tabus ou pecaminosas; privações de ordem social e cultural, entre outras.
A religião é desnecessária porque valores morais e éticos não dependem de fundamentos religiosos. Alguns devotos, erroneamente, acreditam que atributos virtuosos são derivados exclusivamente de ensinamentos considerados sagrados. Nobreza, retidão, temperança, justiça, honradez e dignidade são características que independem do fato de alguém seguir uma religião. Dessa forma, qualidades positivas estão diretamente relacionadas ao caráter, comportamento e atitude de cada pessoa, seja ela religiosa ou descrente.
A religião é desnecessária porque prejudica o desenvolvimento da ciência. É consenso que, ao longo dos séculos, a dominação da Igreja Católica, principalmente no Ocidente, causou um grande prejuízo à humanidade ao praticamente proibir pesquisas científicas que contradissessem os preceitos consuetudinários da religião. Durante a Idade Média, o dano ao conhecimento científico devido à Inquisição foi tão grande - perseguições e execuções sumárias aos considerados hereges eram práticas cotidianas - que a humanidade poderia estar, hoje, num patamar mais avançado de desenvolvimento relativo à informação, tecnologia e conhecimento. A Igreja Católica, por exemplo, condena a clonagem artificial, seja para fins reprodutivos quanto para fins terapêuticos (que têm o benefício de produzir tecidos e órgãos para transplantes). Ainda nos dias atuais, superstição religiosa e crença imaginária - graças ao preconceito e intolerância característicos da doutrina de fé - têm embaraçado o pleno desenvolvimento da ciência e, dessa forma, têm atrasado a melhora da qualidade de vida dos seres humanos.
A religião é desnecessária porque o ser humano pode viver normalmente sem um deus ou sem deuses. Partindo do princípio de que o livre-arbítrio é uma faculdade que o homem possui, escolher viver sem ser tutelado por uma divindade é uma opção que traz vários benefícios. Estudos recentes, por exemplo, indicam que ateus possuem melhor vida sexual do que o crente porque não se sentem culpados por seu comportamento sexual. Viver sem as amarras da religião também abre oportunidade para absorver diferentes pontos de vista em relação à compreensão do mundo. Assim, levar a vida sem adorar alguma deidade significa compreender a realidade de forma mais completa, eclética e plural.
A religião é desnecessária porque promove violações contra os direitos humanos. Por motivos de cunho religioso, países teocráticos (e são muitos que existem) impõem a blasfêmia como crime punível com pena de prisão rigorosa e até com pena de morte. Mesmo em países considerados seculares a intolerância dos religiosos em relação ao ateísmo é muito grande, a ponto do descrente ser perseguido, ofendido e excluído socialmente. Na lógica religiosa, discordar do ponto de vista considerado sacrossanto é motivo para prender por muitos anos uma pessoa e, até mesmo, matá-la. Em maior ou menor grau, a depender da influência da religião no país, a imposição religiosa estimula desde o preconceito contra os ateus como também legitima punição severa através de penas rigorosas àqueles considerados profanadores.
Por derradeiro, a religião é desnecessária porque não existe evidência plausível sobre a existência de um deus ou vários deuses. A maioria dos livros ditos sagrados partem do princípio de que algum ser sobrenatural tenha criado o universo. É um dogma considerado sagrado e não passível de questionamento. Alguns fiéis, inclusive, acreditam terem o dom de manter comunicação com alguma divindade. Entretanto, sentimentos subjetivos íntimos não são prova da existência de deus ou deuses. Outro fato que pesa contra a existência de algum deus é que nenhuma pessoa que professe fé conseguiu demonstrar publicamente a existência de um ser celestial.
À vista do exposto, oportuno se torna dizer que é necessário que as pessoas utilizem a razão (em detrimento da inteligência emocional) ao lidar com assuntos religiosos. Por mais que seja fascinante acreditar em histórias religiosas mitológicas, ou em deuses imaginários, cuja comprovação não existe, a humanidade deve se nortear pela busca da verdade (por fatos reais, lógicos e comprováveis), pois a ilusão cria uma falsa expectativa. As pessoas devem raciocinar como um investigador de polícia ao tentar solucionar um crime complexo: verificar todos os fatos, contestar, buscar evidências e provas, suspeitar, questionar argumentos, entender ideias divergentes, não se limitar a somente uma narrativa ou ponto de vista, avaliar de forma crítica, refletir e duvidar. Quando isso acontece, os pilares das religiões desmoronam.
*É Bombeiro militar, tem 37 anos, mora em Nova Andradina, ateu e curioso por natureza.
Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Jornal da Nova
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