Como me tornei ateu e porque isso mudou minha vida para melhor

*Pablo Diego Barros de Jesus
10/05/2022 11h00

Em 1985, Tancredo Neves foi eleito presidente do Brasil em eleição presidencial indireta, por 480 votos contra 180 de Paulo Maluf, em evento histórico que colocou fim à funesta ditadura militar. Naquele ano, o Brasil estava sendo conduzido para, em breve período, tornar-se um país democrático novamente. 1985 foi o ano em que eu nasci. A infância dos meus anos coincidiu com a puerícia da Constituição Cidadã (1988), que estabeleceu direitos fundamentais para o pleno exercício da cidadania aos brasileiros. Minha juventude - na verdade, desde a alvorada da minha vida - recebeu grande influência religiosa da minha família e da comunidade local, que era majoritariamente cristã.

 

Como quase todos os outros jovens contemporâneos a mim, fui educado na concepção teológica da Igreja Católica. Meus pais, e as pessoas adeptas à fé, entendiam que a prática religiosa cristã seria importante para que eu me tornasse um adulto responsável, honesto e com princípios. Era uma compreensão enviesada de que valores morais e éticos emanavam somente dos cânones religiosos. Eu segui, dedicadamente, a doutrina da Igreja de Roma. Fui batizado (primeiro sacramento católico). Fui crismado (confirmação do batismo através da unção). Também recebi a hóstia pelo sacramento da eucaristia. Frequentei, praticamente todos os domingos, as missas locais.

 

Imbuído da convicção religiosa, o ensino catequético foi um lugar de aprendizado constante que eu considerava muito importante. E foi nesse período que tive mais contato com a Bíblia. Naquela época, eu me considerava um devoto fiel e convicto: os preceitos religiosos eram suficientes para responder às minhas dúvidas existenciais, para explicar a ordem das coisas e também para guiar meu comportamento. Eu só conhecia, até então, a apologética da religião cristã de explicação de todas as coisas.

 

O ponto de virada em minha vida religiosa foi na transição da adolescência para a fase adulta. Naquele período, explicações oriundas da Bíblia já não eram bastantes para me convencer. O argumento teológico cristão de que haveria um deus supremo regendo o universo tornou-se, para mim, um fundamento raso e superficial. Não conseguia mais acreditar nas alegações confessionais - sem evidências históricas, arqueológicas e científicas - de que teria existido um suposto messias enviado por um hipotético deus e que teria operado milagres e, mais inverossímil ainda, teria ressuscitado. O que experimentei, então, não foi apenas uma simples mudança de entendimento, mas passei pelo que se chama de metanoia, que é a transformação fundamental do pensamento.

 

Eu aprendi - de acordo com estudos acadêmicos baseados em pesquisas científicas, investigação histórica, confrontação documental e registros arqueológicos - que muitos personagens bíblicos são apenas figuras de construção mitológica e ficcional das tradições de povos que viveram no passado - e não personagens históricos que realmente existiram. Ao invés de ‘enxergar’ o mundo sob a ótica religiosa, eu comecei a ‘ver’ a realidade através da perspectiva do saber científico e racional.

 

Desvincular-me dos dogmas religiosos foi um processo lento e gradual. Foi um amadurecimento de conhecimento que foi transformando minha vida aos poucos. Quanto mais eu aprendia sobre a ciência - cuja robustez reside no fato de explicar o funcionamento das coisas e do universo de forma transparente, imparcial, racional, sistemática, exata, confiável, verificável e também falível através do método científico - mais eu me afastava dos mandamentos da fé. É uma consequência lógica para todos aqueles que são curiosos e decidem questionar argumentos, verificar todos os fatos apresentados, buscar evidências e provas, avaliar de forma crítica, fugir do senso comum e da narrativa dominante, refletir e duvidar.

 

Assinalo, ainda, que eu abjurei a religião cristã de forma consciente e racional. Renunciar à crença religiosa em um país onde a maioria das pessoas acreditam em um deus é um desafio hercúleo pelas consequências da decisão (ainda mais se ela for tornada pública). O abandono da fé sempre foi visto com preconceito, discriminação e incomplacência. Judas Iscariotes - personagem bíblico umbrático que não existiu historicamente - talvez seja o apóstata mais conhecido, pois renunciou aos mandamentos cristãos, segundo a tradição religiosa.

 

Para se ter uma ideia de como o assunto é sério, em alguns países do Oriente Médio, como Arábia Saudita e Irã, a apostasia é punida com a morte (um verdadeiro crime contra os direitos humanos e contra o livre-arbítrio do ser humano). Abusos e crimes como esse dão uma dimensão de quão perigoso a religião pode ser quando uma nação se torna teocrática (que é o governo fundamentado na religião, seja ela qual for) ou quando a religião começa ser usada como motivo para perseguir pessoas irreligiosas.

 

Cumpre assinalar que se hoje eu posso escrever um artigo expondo meu ponto de vista sobre determinado assunto, inclusive sobre religião, de forma pública e sem sofrer perseguição e punição por este motivo, por mais que alguns discordem do conteúdo do texto, é porque, lá atrás, em 1985, foram estabelecidas condições que possibilitaram o reflorescimento da democracia e dos valores a ela inerentes no Brasil. E a democracia é plena se a liberdade de expressão é efetivamente um direito prático. A democracia é plena se os direitos das minorias são respeitados. Hoje, não é mais necessário pedir permissão para expressar uma opinião. Hoje, não existe mais a figura do censor ditatorial.

 

Também convém observar que, num mundo globalizado, dependente e interligado, é preciso saber conviver com pessoas que têm opiniões divergentes. É preciso saber respeitar quem pensa de forma diferente. Não é adequado querer impor uma visão de mundo individual, íntima e específica a toda sociedade somente porque se entende que ela seja a correta. É um privilégio, derivado dos princípios da democracia, o direito de expressar ideias, mesmo que contrárias à percepção da maioria das pessoas. O fato de alguém defender um ponto de vista discordante não significa que esteja sendo ofensivo e desrespeitoso. É mais uma visão diferente de entendimento das coisas.

 

Oportuno dizer que os valores democráticos - e nossa Carta Magna consolida esses direitos - não permitem censura relativa à obras literárias, meios de comunicação, apresentações artísticas e liberdade de expressão. Para finalizar, registro a frase do filósofo e escritor francês Voltaire, cujo entendimento e aplicação se fazem tão necessários em um mundo repleto de preconceito, discriminação, intolerância, radicalismo, sectarismo e intransigência: “Posso não concordar com nenhuma palavra que você disser, mas defenderei até a morte o direito de você dizê-las”.

 

(Observação: convido à leitura de alguns autores que fazem você pensar criticamente. Leia qualquer livro desses pensadores e acadêmicos. André Chevitarese: livros e canal no YouTube; Jonathan Matthies: canal no YouTube; Juliana Cavalcanti: livros e canal no YouTube; Bart Ehrman: livros; Christopher Hitchens: livros; Richard Dawkins: livros)

 

*É Bombeiro militar, tem 37 anos, mora em Nova Andradina, ateu e curioso por natureza.

Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Jornal da Nova



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