A poesia antropofágica de São Paulo pelo olhar de Ugo Giorgetti

O cineasta completa 80 anos em maio, com filmes que percorrem a cidade em diferentes épocas
Da Redação / Imagens: Divulgação
12/05/2022 16h30

A pandemia gerou um vazio de encontros e fome de cultura. Com a retomada gradativa das atividades presenciais, o público quebrou o jejum. Na sua 27a edição, o festival internacional de documentários É Tudo Verdade adaptou-se aos novos tempos e adotou o formato híbrido, com retorno parcial às salas de cinema e quase toda a programação disponível em streaming gratuito. O evento aconteceu até 10 de abril, simultaneamente no Rio de Janeiro e em São Paulo, com exibição de 77 filmes, inéditos no Brasil, de 34 países. A retrospectiva que contempla toda a obra documental de Ugo Giorgetti foi um dos pontos fortes. O cineasta paulistano, descendente de italianos – que completará 80 anos em 28 de maio –, é um cronista fílmico que capta com sensibilidade as transformações da cidade de São Paulo. 

 

Cidade como elo narrativo 

São Paulo é onipresente em quase todos os filmes de Giorgetti, mas ele não enxerga a cidade como um personagem. É um tecido social, que entrelaça diferentes narrativas. Um presente em andamento e escombros de um passado, que resiste na arquitetura urbana e na memória individual. Uma cidade antropofágica que se alimenta de si mesma, do caos, do trator do capital que passa sobre as histórias. Como na música de Caetano, “da força da grana que ergue e destrói coisas belas”. Ou, na visão de Emicida, “espetáculo monstro de concreto, abraça com os tentáculos. Como se todo dia fosse ontem, sem novidades".

 

Uma cidade é uma vivência coletiva, com olhares subjetivos e angulares. O quanto da cidade esquecemos ao sermos passageiros, estar sempre em trânsito, entre lugares? O tempo atravessa o cinema de Ugo Giorgetti, traz um viés filosófico e percorre o desenvolvimento de São Paulo, desde o final do século XIX até a atualidade, com a jornada de pugilistas, jogadores de futebol, comerciantes e anônimos. O tempo inexorável que apaga caminhos, avança sobre o que é aparentemente sólido e deixa vestígios. 

 

Obra autobiográfica

É o tempo dos personagens, que muitas vezes anda em dissintonia com o da sociedade. Em todos os documentários, o cineasta coloca um pouco de si. “Só faço coisas muito próximas a mim, que me afetam pessoalmente. Eu faço, porque é minha autobiografia.” Ele reconhece a subjetividade de suas películas, sem pretensão de objetividade narrativa, são recortes de um todo, transpassados por suas vivências. Como um arqueologista, ele recolhe com sua lente fragmentos de histórias e resquícios de uma cidade que se destrói e reconstrói incessantemente. O novo sempre vem na letra da música e na escrita da vida. 

 

É o que retrata o documentário Campos Elíseos (1973), sobre o primeiro bairro exclusivamente residencial da cidade, planejado para acolher a aristocracia cafeeira, no final do século XIX. Reduto da burguesia, o bairro vai da opulência ao lixo, em menos de um século. A partir dos anos 30, se transforma em “Boca do Lixo”, reduto da contravenção e da criminalidade. Hoje, a área passa por um processo de requalificação do centro antigo.

 

Reencontrar a cidade

Depois de um período de isolamento social, assistir aos filmes de Giorgetti aguça a vontade de redescobrir a cidade, pela lente do próprio olhar. Caminhar sem direção, conhecer a vida singular que respira em cada esquina, apreciar os grafites que dialogam com a arquitetura de diferentes épocas. Como na música de Tulipa Ruiz, "beija o espelho que reflete a silhueta que acabou de descobrir. Perfuma a nuca, perfuma o pulso. Sente o seu perfume e sai de salto por aí”. Como a intenção é se distrair e andar sem compromisso, o salto pode ser substituído pelo conforto de um tênis Nike feminino. Aí, é só experimentar a cidade, se misturar, produzir narrativas que apenas o terreno fértil das ruas possibilita. 



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