Eu me armo de livros e me livro de armas

*Eduardo Martins


Foi o nosso Geraldo Vandré que falou isso “acredito nas flores vencendo o canhão” ao mandar o recado direto para os torturadores, gente má e vil, os militares da ditadura (1964-1985) vinte e cinco anos de barbárie, violência e armas. Todos andavam fortemente armados com o aval dos ditadores que têm tara por revólver.

Qual a função de um revólver; matar. É óbvio. Assim como a função de um livro é o conhecimento.

O que esses dois itens têm em comum? Aparentemente nada. Mas se pararmos para pensar tem sim. Uma vez que o porte de um revólver elimina o livro. Pelo oposto o porte de um livro elimina o revólver.

Qual a intensão de um civil que sai de casa portando um revólver? Matar! Ou no menor sentimento de intimidação, medo, raiva ou pânico atirar em alguém, eliminar, acabar com a vida humana.

Eis uma justificativa razoável pelas quais pessoas fracas e limitadas cognitivamente precisam dessa coisa para se sentir potentes, fortes e machões. Já dizia o poeta Bezerra da Silva "você com revólver na mão é um bicho feroz, sem ele anda rebolando e até muda de voz".

Além dessa discussão de aporte psicológico temos que analisar as questões políticas; esse tipo de pessoa que prefere fazer justiça com as próprias mãos, que prefere a vingança e se sentir poderosa, despreza a democracia, despreza o Estado de direito e a Segurança Pública, não confia na Constituição, tampouco nas leis ou na Justiça da "sua pátria amada", não confia na Polícia! Esse tipo de gente desconhece o "Contrato social" implícito do Estado-nação porque só confia em mitos, em palavras de ordens.

Via de regra, esse sujeito é bem limítrofe de inteligência e emocionalmente. Por não conseguir argumentar, conversar, dialogar, nem entender o outro, prefere eliminá-lo fisicamente, matando-o. Somente assim, ele acredita que vencerá o debate e acabará com a discussão.

O raciocínio desse tipo de sujeito é bem simples; na sua cabeça, basta sair matando todo mundo que não concorda com as opiniõezinhas dele, ou com o seu mito, assim o “seu” país melhorará. Na cabecinha desse ser a equação é fácil, basta mandar “pra Cuba”, ou pode ser “pra Venezuela”, somente assim esta pessoa vai se sentir segura, uma vez que não terá que discutir, tampouco ter que argumentar com “petralhas”, é melhor seguir as ordens do chefão e “metralhar”. É um tipo de pensamento gangster, bandido, é a lei do banditismo, da milícia, também outrora usado no Velho

Oeste estadunidense e, por aqui, no Mato Grosso, onde a justiça se dizia .44 e Mato Grosso do Sul, da justiça do calibre .38.

Se quiser voltar um pouquinho mais, lá na Mesopotâmia, século VIII a.C. no Código de Hamurabi, vamos encontrar o Talião que pregava justamente isso “Olho por olho e dente por dente”. Porém, aqui, no caso atual de se portar uma arma, não estamos falando de uma época que não temos segurança pública ou boa educação para ensiná-los a conversar, estamos falando de pessoas mal intencionadas que vão adquirir um revólver para causar o terror na sociedade, para intimidar colegas, vizinhos, e sair matando adversário políticos.

Quem porta livros não porta armas e se importa com vidas, quem porta armas não porta conhecimento e não se importa com vidas.

Temos que voltar urgentemente a sorrir, a comer com dignidade, a estudar, fazer festas, ler, ouvir boas músicas (não essa coisa protofascista chamada sertanejo universitário). Forró, sertanejo raiz, rock, MPB, funk, etc.

Me armo de livros me livro de armas.

Sem medo de ser feliz!

*Professor de História – UFMS/CPNA

Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Jornal da Nova

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