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Do Racismo Estrutural às Violências Simbólicas: nos hospitais, nas ruas e/ou no supermercado
*Claudinei Araújo dos Santos
Em seu livro “Pequeno Manual Antirracista” (2012), Djamila Ribeiro traduz uma necessidade que temos principalmente para os tempos atuais e vindouros, “em uma sociedade racista, não basta não ser racista, é preciso ser antirracista”. A grandeza da frase está em pensarmos a necessidade de combatermos o racismo estrutural e também as violências simbólicas (Bourdieu, Poder Simbólico, 2012) que são praticadas e mormente normalizadas, pois, “sempre foi assim”.
O livro “Racismo Estrutural” (2019) de Silvio de Almeida nos remete a pensar como fomos estruturados para aceitarmos o racismo, naturalizando falas violentas, brincadeiras grotescas, a ponto de falarmos que o mundo está muito chato, pois não podemos mais brincar e que esse politicamente correto é algo muito chato. Não pode ser normalizado dizer que quando algo dá errado ou o serviço é mal feito, tenha sido “coisa de preto”, e quando é dito também sobre uma pessoa qualquer fato não bem visto, então, tratarmos como denegrir, em outras palavras, colocar enegrecer as situações negativas das quais estamos a viver na sociedade.
No clássico “Poder Simbólico” (2012) de Pierre Bourdieu, é possível ainda percebermos como as violências simbólicas estão enraizadas e muito das vezes nem percebemos, claro que o autor não escreveu sobre racismo estrutural no Brasil, no entanto, nos permite percebermos que essas violências foram estruturadas por forças estruturantes e precisam ser objeto de nossos estudos e cuidados para serem erradicadas da sociedade.
Nesse sentido, lhes convido a pensar sobre situações que estão em nossa conjuntura, por vezes vistas como acontecimento normal. Todavia, pense, você está em um hospital privado na sua frente uma imagem de criança negra com a seguinte frase: “Não é crime entregar um bebê para adoção. A entrega de filhos para adoção mesmo durante a gravidez não é crime. Procure a vara da Infância e da Juventude”. Pense. Raciocine. Qual é a cor da criança na fotografia? Preta. O que isso nos remete a pensar?
Continuemos a imaginar, o que foi visto. Certo? Na imagem seguinte o retrato de: “Usar máscara salva. Use sempre a sua e do jeito certo”. Gesto bastante carinhoso. Ressalta-se que a mãe está em atitude corretíssima, todavia, “qual é a cor da criança? Qual é a cor da mamãe da criança? Branca de olhos Verdes. Na outra imagem: atenção, Uso obrigatório de máscara neste local. Qual é a cor da criança? Branca de olhos verdes. Qual é a cor do pai da criança? Branca. Um gesto muitíssimo carinhoso.
Seguimos. Imagem posterior, “ao consultar tenha em mãos os documentos pessoais”. Com uma mulher bem focada, branca, possivelmente médica, tendo atrás de sí, possivelmente uma técnica de enfermagem, uma enfermeira, uma médica, com imagem desfocada. Qual é a cor da mulher com imagem desfocada? Negra. Qual é a cor da mulher com a imagem bem focada e representatividade de médica?
Bom, outro dia fomos a um supermercado de nossa cidade, meu amigo Eduardo Martins e eu. Na porta um cartaz elaborado por uma instituição religiosa, destas que pretendem sempre fazer o bem, em conjunto com grande supermercado também instalado na urbe de Nova Andradina. Nesse cartaz, muitíssimo significativo trazia a frente de um carrinho de compras a imagem de um homem pedinte, com frio e roupas bastante envelhecidas e sujas, levando nas escritas a seguinte frase: “Neste inverno doe agasalhos e alimentos”. Até aí tudo bem. Sem problemas, contudo, perguntamos: qual é a cor do pedinte na foto? Negro e Idoso. Porque caracteristicamente as imagens de pobreza, de miserabilidade, de sofrimento tem cor? E qual é a cor? A cor é negra.
Torna-se imprescindível enquanto sociedade percebermos o que é racismo estrutural para que consigamos criticá-lo e não naturalizarmos entendendo que muito das vezes são violências simbólicas, implícitas, destacadas no entrelinhas e são chamadas de teoria da discriminação estatística e também aponta a maneira como as decisões são tomadas, com base nos parâmetros médios – e racistas – predominantes no mercado, acaba por afetar negativamente os comportamentos, a autoestima e as expectativas dos indivíduos do grupo discriminado, o que a psicologia social denominou de ameaça do estereótipo (stereotype treath) (ALMEIDA, 2019, pág.163).
Vejamos assim, que a questão do Racismo estrutural está além dos nossos achismos, causam impactos volumosos, outra vez que são ações discriminatórias, colocam em evidência pessoas brancas, enquanto as negras acabam postas nas ocasiões de inferioridade, a imagem desfocada ao lado de uma pessoa branca não é aleatória, é violentamente simbólica, traz representatividades e significações, contudo, causa análises que acabam desapercebidas, por isso, chamamos de racismo estrutural, está guardada em nossas estruturas e ainda é elencada ao mercado de trabalho, a visão de que pessoas brancas conseguiram ao irem a luta, venceram seus obstáculos e que pessoas negras também podem conseguir, é o ato meritocrático, tendo por ocasião cumprir as funções básicas do mundo neoliberal, reduzir o racismo a uma questão ideológicas deixando de fora as questões políticas e econômicas que a envolvem: “desviar o debate racial para o campo da meritocracia, já que o racismo viraria um problema de superação pessoal e responsabilizar o indivíduo pelo próprio fracasso diante de um cenário de precariedade no sistema de educação”.
Desta forma, é preciso ter olhar mais acurado para os acontecimentos que envolvem o racismo estrutural e as violências simbólicas, não se entende quando não se quer não entender, é perceptível apenas para aqueles que desejam combater o racismo estrutural nosso de cada dia, as condições subjetivas ficam atreladas aos ideais objetivos, anteriormente essas condições já foram chamadas de “Democracia Racial”, pelo fato de brancos e negros conviverem próximo nas terras brasis, contudo, é preciso outra vez salientar que é racismo estrutural pelo fato dos muros que separam brancos e negros, das casas, “Uma é Grande e a outra Senzala”, colocando em compreensões ainda que as violências continuarão simbólicas nos preenchimentos de empregabilidades, estudos, lazer, cultura, esporte, quem ainda não percebeu que nas práticas esportivas, os clássicos milionários do futebol brasileiro, existem mais negros em campo do que na arquibancada?
Não é por acaso que isso resulta na naturalização de que pessoas negras têm menor escolaridade, menores salários, menor acesso a uma vida digna, os ativos econômicos e mecanismos de favorecimento à mobilidade social existe um campo discriminatório naturalizado, fomentado parte pelo não saber das minorias e parte pela intencionalidade das permanências estruturais que para Silvio de Almeida (2019) também coadunam com: “a) a divisão racial do trabalho; b) o desemprego desigual entre os grupos raciais; c) o diferencial de salários entre trabalhadores negros e brancos; d) a reprodução – física e intelectual – precária da força de trabalho negra”.
Desta forma, consideramos que as considerações não podem ser finais, e, os cuidados que devemos ter, para que como relata Lélia González (1982), o preconceito racial constitui então a atitude justificativa necessária para a fácil exploração de uma raça, [...] o preconceito racial é a atitude que acompanha as práticas exploratórias raciais das classes dominantes, (sobre o corpo objetivo e subjetivo - grifos meus), são mecanismos de manutenção da dominação de classe e raça. É preciso ser antirracista para querer perceber o quanto o racismo domina a sociedade e afeta considerando qual é o “Lugar de Negro”.
Referências
Almeida, Silvio Luiz de. Racismo estrutural / Silvio Luiz de Almeida. -- São Paulo: Sueli Carneiro: Pólen, 2019.
GONZÁLEZ, Lélia; HASENBALG, Carlos. Lugar de Negro. Rio de Janeiro: Marco Zero, 1982.
RIBEIRO, Djamila. Pequeno Manual Antirracista. 1ª. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.
*Doutorando em História – UFGD
Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Jornal da Nova
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