Há poucos dias, eu finalizei a leitura do livro “Why I am not a Christian" (Porque eu não sou cristão), do filósofo e historiador americano Richard Carrier. Ainda sem tradução para o português, a espetacular obra aborda quatro razões pelas quais o renomado autor não aceita a religião cristã. O escritor elenca quatro fatos do mundo que, segundo ele, confirmam que o Deus bíblico não existe e que comprovam que a religião cristã é falsa.
Primeiro argumento: o silêncio de Deus. O acadêmico inicia o livro de forma incisiva: “Se Deus quer alguma coisa de mim, ele mesmo teria me dito e não deixaria alguém fazer isso em seu nome” (tradução livre que fiz do texto). É uma reflexão pungente o fato de que o Deus cristão, até hoje, não entregou, ele próprio, diretamente e de modo claro, sua mensagem para toda humanidade de forma a não deixar dúvida quanto a sua existência. Se existisse um deus todo-poderoso, ele mesmo, de maneira inequívoca, anunciaria a mensagem de salvação, sem a necessidade de intermediários e sem a necessidade de interpretação de algum livro supostamente sagrado. Por que esse Deus até hoje não apareceu e informou que justamente a Bíblia é, de fato, o seu livro sagrado, dentre as centenas de livros religiosos que existem no mundo? Assim, o Deus cristão silente, pontua Carrier, é prova de que as premissas do cristianismo são falsas.
Segundo argumento: a inação de Deus. O Deus cristão poderia evitar a guerra na Ucrânia, mas não o fez. Poderia evitar o sofrimento de uma pessoa que agoniza com câncer terminal, mas não o faz. Poderia, também, evitar a morte de milhões de pessoas por covid, mas não o fez e não o faz. O escritor estadunidense constata que o Deus bíblico poderia atuar para evitar o sofrimento humano, em todos aspectos, mas ele não age. A situação torna-se mais absurda quando se considera que um deus seja plenamente capaz de interceder, pois, em tese, tem superpoderes, mas, mesmo assim, nada faz. O Deus benevolente e amável descrito na Bíblia, caso existisse, é inerte porque não exerce seu poder para interferir de forma positiva em favor dos seres humanos. É uma divindade inútil para os problemas terrenos. Quando alguém fica doente, por exemplo, a cura ocorre pela ciência através de remédios, vacinas, hospitais e aparatos tecnológicos criados pelo homem. O filósofo americano realça que “Deus não faz nada, não fala conosco, não nos ensina, não nos ajuda, não nos conforta, mas, por outro lado, nossos pais, nossas mães e nossos amigos, pessoas benevolentes e amáveis, são quem verdadeiramente nos ajudam quando precisamos” (tradução livre que fiz do texto). Dessa maneira, o Deus cristão inativo, demonstra Carrier, é prova de que os pressupostos do cristianismo são falsos.
Terceiro argumento: a falta de evidência. O historiador Carrier refuta os fundamentos cristãos usando a base lógica do princípio de que ‘alegações extraordinárias requerem evidências extraordinárias’. De acordo com o estudioso, os dogmas do cristianismo, como a existência de um deus, que é uma alegação excepcional, exigem evidências extraordinárias para serem credíveis. No mesmo diapasão de raciocínio, observa-se que não são apresentadas vantagens de se seguir a doutrina cristã, uma vez que não se tem evidência plausível de que algum religioso irá desfrutar vida eterna, assim como não existem indícios de que algum incrédulo será punido perpetuamente. Da mesma forma, para as suposições de eventos sobrenaturais no texto bíblico, como alguém ressuscitar dos mortos, não são apresentadas evidências ou provas. Indo além, não existem evidências de que a Bíblia seja um livro inspirado por algum deus. São apenas conjecturas teológicas sem comprovação. O professor salienta: “Mesmo que nós pudéssemos provar que um único milagre genuíno realmente tenha acontecido, o que não é possível, nós ainda não teríamos evidência de que algum deus causou aquele milagre, pois, para confirmar que um deus seria a causa do milagre, ia requerer ainda mais evidência para isso” (tradução livre que fiz do texto). Dessa forma, a ausência de evidência em diversas alegações extraordinárias no campo teológico, aponta Carrier, é prova de que os preceitos do cristianismo são falsos.
Quarto argumento: o modo como o nosso universo parece exatamente como um universo sem Deus. Quando olhamos para o universo e consideramos as leis físicas que o regem, percebemos que ele não foi concebido para sustentar a vida humana. Buracos negros, colisão de galáxias e explosão de estrelas nos lembram cruelmente o fim inevitável de nosso sistema solar. Quando olhamos, então, para o planeta Terra constatamos que, aqui também, ele não foi projetado para suportar vida humana para sempre: os recursos naturais são findáveis, existe a possibilidade de um meteoro gigante se chocar contra a Terra nos próximos milhões de anos e já temos certeza de que, quando houver a explosão do Sol, haverá um aquecimento tão intenso que qualquer tipo de vida no planeta deixará de existir. Além disso, no mundo em que nós vivemos, cruel, impiedoso e aleatório, milhões de pessoas sofrem de variadas formas, algumas passando fome, outras suportando doenças incuráveis e muitas outras vivendo poucos anos. No mundo real em que vivemos, todos seres vivos vão morrer, inclusive os seres humanos. Parece justamente o universo errado para os seres humanos, como se fosse um universo sem um criador divino. E é exatamente esse universo sem Deus (seja o deus cristão ou qualquer outro deus) em que nós vivemos.
Por este motivo, segundo o filósofo Carrier, a alegação de apologistas cristãos de que este universo teria sido criado por um deus é falha porque não demonstra relação de causa e efeito (relação de nexo causal que ateste o vínculo entre suposto agente criador e resultado da coisa criada). Seria necessário primeiro provar a existência de um suposto deus e, em seguida, ainda provar que esse mesmo deus criou o universo, o que nenhum cristão consegue fazer.
É interessante observar que, quanto mais as pessoas adquirem conhecimento científico, menos religiosas elas se tornam. Convém lembrar que ninguém nasce acreditando em determinada religião. Na verdade, a doutrinação por ideologia religiosa desde tenra idade é um processo de manipulação mental, muitas vezes irreversível. Além dos quatro motivos muito bem fundamentados apresentados pelo filósofo Richard Carrier, existem centenas de outras razões lógicas, empíricas e naturais que demonstram as falhas, contradições, absurdos, erros e incoerências das religiões.
Pelos motivos narrados, desconfie sempre da narrativa dominante e majoritária relativa a qualquer assunto. Podemos estar sendo induzidos em erro - por desconhecimento do conteúdo e também por ação proposital e deliberada de pessoas por meio de argumentos artificiosos. Se existe consenso sobre uma questão, é mandatório suspeitar e procurar por ideias divergentes.
O senso crítico impõe que sejamos céticos em relação a tudo, principalmente num mundo onde versões de histórias são estabelecidas como ‘verdades absolutas’. O contraponto e o contra argumento são essenciais ao conhecimento racional e científico para não sermos manipulados pela imposição de determinado viés ideológico ou ponto de vista apologético. Questione, duvide e perscrute evidências. E não acredite em tudo que lhe disserem.
*Bombeiro militar, tem 37 anos, mora em Nova Andradina, cético e questionador.
Este texto, não reflete, necessariamente, a opinião do Jornal da Nova
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