Opinião / Artigos e Colunas
A Educação Democrática em contrapartida a um Projeto de Deseducação Social
*Claudinei Araújo dos Santos
Os países sérios levam a educação com a devida seriedade que a sociedade pede. Nos anos de 1970, a Inglaterra, que tinha crises sociais muito sérias, resolveu transformar o país, e o ponto inicial foi a educação. No Japão, há séculos, o professor é visto como um ser que merece o devido respeito; é este profissional que muito colabora para que o país possa melhorar em sociedade. No que tange à Coreia do Sul, atualmente, cerca de 70% de seus jovens estão na universidade. O que houve? Optaram pela educação como meio de transformação social.
Neste segundo parágrafo, podemos falar também da China, que após a morte de Mao Tsé-Tung, agiu com abertura econômica do país. Contudo, foi na educação o seu maior investimento, fator transformador para que milhões de jovens chineses deixassem de ter envolvimento com a criminalidade e optassem pelas formações educacionais, deixando de faltar a formação para medicina, direito, engenharia e as outras profissões que contribuem para a melhoria socioeconômica de um povo.
É fato, claro e objetivo que os anos de 1970 tornaram-se um período essencial para a transformação de países que optaram pela essência da dignidade humana e social de seu povo. Investimento em educação, saúde, moradia e segurança pública, essas condições primam para que o índice de desenvolvimento humano esteja na intenção de política de Estado. Desta forma, ressalta-se que a educação no Brasil tem sido, desde sempre, políticas de governos e não do Estado. Trata-se a educação e os profissionais da educação com desprezo, deixando-os em condições insalubres para o ensino e aprendizagem.
A frase de Darcy Ribeiro, que “A crise na educação brasileira não é uma crise, mas um projeto”, continua viva e cheia de eficiência. Gostaria de saber qual Estado da Federação tem um projeto eficiente no desenvolvimento educacional do povo brasileiro, com valorização docente, infraestrutura dos espaços escolares, materiais didáticos e fomento para que nos ambientes socioespaciais da educação possam acontecer práticas de ensino e aprendizagem escolar, coadunando com esporte, cultura e lazer. Claro, todos/as poderão dizer não tem, não acontece e possivelmente não será nossa realidade em tempos tão próximos.
Desta forma, podemos compreender que a educação convive de forma perene com as crises projetadas pelo Estado. Por vezes parece que a intenção é mantermos o complexo de Gabriela, “eu nasci assim, eu cresci assim, vai ser sempre assim, Gabriela”. Considerando que os municípios brasileiros findam o ano letivo/escolar sem saber o que acontecerá no ano seguinte, quando deveríamos estar iniciando o ano escolar, ainda estão discutindo como será a formação pedagógica, quem serão os/as professores/as desta ou daquela escola, não havendo continuidade nos trabalhos iniciados.
Há que se ressaltar que as rupturas de trabalhos são os fatores mais comuns na educação. Rompem-se os projetos político-pedagógicos, as políticas de governos, os contratos de professores/as. É clara essa realidade ao vermos mudança nas cores dos uniformes escolares. Cada governo que assume muda as cores do material escolar, das vestimentas e muros das escolas. Isso tem violenta representatividade, significa outra vez que a educação é projeto de governo e não de Estado. Observem quanto tempo não temos continuidade nas formas de pensar a educação. Há que se pensar, por exemplo, que todos os anos as “grades curriculares” são modificadas, desprestigiando as ciências e as disciplinas essenciais para o aprendizado discente.
A situação é tão séria, por exemplo, em matéria da Folha de São Paulo de abril de 2023 (https://www1.folha.uol.com.br/educacao/2023/04/alunos-ficam-sem-aula-de-biologia-historia-e-quimica-no-3o-ano-do-novo-ensino-medio-em-sp.shtml#:~:text=Agora%2C%20no%20terceiro%20ano%2C%20n%C3%A3o,semana%20de%20cada%20uma%20delas. ), ressalta-se que, no Estado de São Paulo, o terceiro do Ensino Médio não dispõe mais das disciplinas de Biologia, Química, História, Geografia, Filosofia e Sociologia, sendo que, Matemática e Língua Portuguesa, também deixaram de ter cinco aulas semanais, passando a duas aulas pelo mesmo período.
Quando Darcy Ribeiro, diz que a crise é projeto, no ano de 1982, estava lembrando que moramos no Brasil, país em que os políticos estudam seus filhos em colégios/escolas privadas, sempre foi assim, uma educação qualificada e qualificadora para seus hereditários, enquanto a maior parte da população torna-se preparada para servir as classes dominantes, de forma grosseira, esse mesmo povo aceita, naturalizando a violência de péssimas escolas, com horríveis condições de ensino e aprendizagem. Os dados de 2020 apontam que no início daquele ano, cerca de 20.000 crianças e adolescentes estariam fora das escolas na cidade do Rio de Janeiro, já o Estado do Rio de Janeiro, os números, são bastante mais drásticos. 150.000 crianças e adolescentes fora do ambiente escolar, faltam escolas, estruturas de chegada e permanência nos órgãos educacionais.
Lembro de uma escola que no ano de 2016 no município de Nova Andradina, iniciavam o primeiro ano do Ensino Médio, 05 turmas de 32 alunos, cerca de 150 estudantes no primeiro ano, em 2018, para a conclusão do terceiro ano do Ensino Médio, eram apenas 96 estudantes. A pergunta, é: O que aconteceu com 64 outros estudantes que não estavam na conclusão do Ensino Médio? Esse questionamento precisa ser realizado por todos nós enquanto população, pois, influenciará na empregabilidade, na criminalidade, na melhoria social dos municípios, estados e país.
Desta forma, é imprescindível salientar, que o Governo Federal, necessita ouvir e analisar o Plano Nacional de Educação proposto pela CONAE 2024, entre os pontos fundamentais, revogar com urgência e precisão o Novo Ensino Médio, que se baseia nas velhas propostas de educação ao povo brasileiro, o Governo Federal, precisa agir e cobrar ações verdadeiras do Ministro da Educação, Camilo Santana, e não basta dizer que fará poupanças financeiras para aqueles que permanecerem e concluírem o Ensino Médio, é necessário obrigar a valorização docente, sobretudo, com formação educacional que possamos chamar de decente, que pese, retomarmos Ciências da Natureza, Ciências Humanas, Ciências Exatas e Linguagens com as mesmas condições de dignificação do Ensino e Aprendizagem. Um país somente pode ser considerado sério, quando seu povo é tratado com dignidade humana.
*Doutorando em História pela UFGD
Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Jornal da Nova
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