A mentira sobre a doutrinação nas universidades públicas

*Ricardo Oliveira


Uma das mentiras propagadas por setores conservadores e reacionários da sociedade brasileira nos últimos anos é que as universidades públicas se tornaram um espaço de “doutrinação esquerdista e comunista”. Muitas vezes, quem defende essa visão fala genericamente sobre o perigo que assola a “maior parte” do meio universitário sem apresentar fatos e provas concretas. Quais interesses estariam por trás desse tipo de discurso?

No próximo mês de abril eu completarei dez anos como professor universitário. A minha formação acadêmica ocorreu na UFSM (Santa Maria/RS) e na UFRGS (Porto Alegre), entre 2002 e 2013. Desde 2014 leciono na UFMS, campus de Nova Andradina. Ao longo desses anos, na condição de estudante e docente, circulei por várias instituições universitárias. A partir da vivência que tive com as pessoas nesses lugares, posso dizer que o ambiente acadêmico brasileiro que eu conheci e conheço tende a ser mais conservador do que progressista em termos de concepção de educação e pensamento político.

É claro que dentro das universidades públicas, assim como nas congêneres privadas, existem pessoas, na condição de alunos/alunas e professor/professora, com uma visão de mundo de esquerda. Mas deduzir, a partir disso, que “toda” ou a “maioria” das universidades públicas é um “antro de esquerdistas” que pregam a revolução comunista e a subversão dos costumes e valores religiosos é desconhecimento da realidade ou má-fé.

A universidade pública nasceu no Brasil no século XX tendo, entre seus propósitos, aprimorar a produção do conhecimento dentro de padrões considerados científicos. Mas, desde suas origens, essa instituição representou um meio de perpetuar privilégios sociais por meio da distinção proporcionada pelo saber, porta de entrada para empregos bem remunerados. A universidade era o meio de obter o tradicional “anel de doutor”.

No entanto, nas primeiras décadas do século XXI, um conjunto de políticas públicas, vide cotas raciais e sociais, procurou democratizar o acesso ao ambiente acadêmico. Foi então que surgiram vozes entre os setores ressentidos com essa nova realidade que passaram a denunciar a propalada “doutrinação” nas universidades públicas do país.

Essa denúncia possui, entre seus pretensos fundamentos, a tese do “marxismo cultural”, forjada por intelectuais conservadores nos EUA e difundida nos anos 1990. No Brasil, essa tese foi divulgada pioneiramente pelo falecido guru do bolsonarismo, Olavo de Carvalho. De acordo com essa tese, a esquerda mundial teria como objetivo a destruição do cristianismo e dos valores da civilização ocidental (vide família tradicional heteronormativa e liberalismo econômico) não mais pelas armas, mas pela guerra cultural. E a universidade pública seria um espaço privilegiado para propagar essa guerra cultural.

Não é à toa que é comum encontrar entre os propagadores da ideia da “doutrinação esquerdista” nas universidades públicas um perfil religioso conservador e cioso das liberdades econômicas. Um discurso que fala sobre a defesa da religião, valores morais e propriedade privada, mas que na prática é a manifestação do ressentimento com mudanças que ameaçam privilégios sociais, econômicos e políticos.

Referências:

JUNQUEIRA, Rogério Diniz. A invenção da “ideologia de gênero”: a emergência de um cenário político-discursivo e a elaboração de uma retórica reacionária antigênero. In: Psicologia Política, vol. 18, nº 43, p. 449-502, set./dez. 2018.

MESSENBERG, Débora. A direita que saiu do armário: a cosmovisão dos formadores de opinião dos manifestantes de direita brasileiros. In: Revista Sociedade e Estado, vol. 32, nº 03, p. 621-647, set./dez. 2017.

MORAIS, Argus Romero Abreu de. O discurso político da extrema-direita brasileira na atualidade. In: Cadernos de Linguagem e Sociedade. Vol. 20, nº 01, p. 152-172, jan./abr. 2019.

PY. Fábio. Silas Malafaia, cavaleiro do apocalipse cristofascista brasileiro. Mídia Ninja. 21 ago. 2020. Disponível em: https://midianinja.org/editorninja/silas-malafaia-cavaleiro-do-apocalipse-cristofascista-brasileiro/. Acesso em: 28 fev. 2022.

PY, Fábio. Padre Paulo Ricardo: cavaleiro de batina do apocalipse pandêmico. Mídia Ninja. 1º fev. 2021. Disponível em: https://midianinja.org/fabiopy/padre-paulo-ricardo-cavaleiro-de-batina-do-apocalipse-pandemico/. Acesso em: 09 fev. 2021.

SILVA, Ricardo Oliveira da. Espectro do Ateísmo: construções de uma alteridade antagônica. Jundiaí, SP: Paco Editorial, 2022.

Vídeos sobre marxismo cultural:

 https://www.youtube.com/watch?v=nETQtwy20oQ

https://www.youtube.com/watch?v=crv-p9Rjhbo

*Professor do Curso de História da UFMS/CPNA

Este texto, não reflete, necessariamente, a opinião do Jornal da Nova

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