A busca humana por sentido

*Felipe Pereira


Nós, humanos, somos seres complexos. Somos a única espécie que precisa dar um significado para os estímulos que nos chegam através dos nossos sentidos. Um outro animal, como um lobo, ele não pensa sobre o que ser um lobo significa, ele não tenta entender como as impressões do passado afetam sua vida no presente, ou sobre guardar alimento para o dia posterior. Para um lobo, ele apenas vive o presente, se alimenta quando tem fome e procria no tempo apropriado. Entretanto, para nós, não é simples assim. Devido a nossa evolução no campo da linguagem, desenvolvemos uma necessidade biológica de compreender o mundo que nos cerca. Quando não conseguimos compreender, infelizmente, sofremos; e para não sofrer, recorremos às fantasias.

Ao longo da história humana, muitos pensadores tentaram encontrar uma resposta para a seguinte pergunta: “Qual o sentido da vida?”. É possível que você, em algum momento, tenha se deparado com essa questão. Para nossa espécie, não ter essa resposta gera angústia. Enfrentar a realidade como ela é, sem um olhar fantasioso, requer entender que a vida não tem um sentido. Talvez não haja um porquê de estarmos aqui, talvez viver seja apenas isso, nascer e se preparar para morrer. Olharmos para a existência dessa maneira é um pouco assustador, e um pouco decepcionante também.

Do ponto de vista psicológico, o ser humano cria diversos mecanismos de defesa para enfeitar um pouco a vida, como acontece na IDEALIZAÇÃO. Idealizar algo, é pôr uma expectativa, muitas vezes irrealista, sobre algo ou alguém. Essa defesa psicológica não é totalmente ruim. Como dito no parágrafo acima, olhar a vida nua e crua pode causar sofrimento existencial. Importante também entender que viver uma vida demasiadamente idealiza também pode atrapalhar o indivíduo, pois quando há um choque entre a visão idealizada e a realidade, o sujeito se frustra por causa das altas expectativas criadas.

Na visão filosófica, alguns pensadores retratam a vida como uma construção diária, ou seja, vamos entrando em contato com a realidade conforme as experiências que vivenciamos. Duas correntes filosóficas se destacam nesse cenário, a existencialista e a niilista. Para aqueles que são adeptos da visão existencialista, há a crença de que a construção de sentido para a vida é feita nas escolhas cotidianas, ou seja, não existe um sentido criado anterior ao indivíduo, sendo este o principal responsável por criar seu próprio significado do que é a vida. Já os niilistas acreditam que a vida não tem sentido algum e por isso nada do que a humanidade construiu até agora tem valor, pois de nada adianta tentarmos criar um mundo colorido se a vida é cinzenta.

Se formos analisar os diversos pontos sobre como nossa espécie enxerga a existência, teremos bastante divergências. Contudo, algo em comum pode ser encontrado em todos esses pensamentos; nós, seres humanos, queremos apenas uma resposta. Qual o sentido de existirmos?

Talvez nunca encontraremos uma resposta definitiva, o que acredito que vamos encontrar é apenas soluções paliativas, algumas saborosas como um paraíso depois que partirmos para os que seguirem as “regras”, outras insípidas como o fim inevitável da nossa espécie e de todo o Universo.

No entanto, não desanimemos. Possa ser que não haja um sentido e nem mesmo um outro lugar para irmos quando a morte chegar. Mas isso não torna menos bonita a nossa estádia aqui. Talvez não haja gnomos ou fadas no jardim, porém há belas flores para serem admiradas. Não há um manual de como existir, mas há os ensinamentos e valores que aprendemos a cada escolha feita. O que quero dizer é que possivelmente nunca saberemos qual o real sentido da vida, porém, afinal, a vida precisa mesmo de um sentido?

*Formado em psicanálise pelo Instituo Brasileiro de Psicanálise Clínica, atua como psicoterapeuta e é pós-graduado em Psicologia Organizacional

Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Jornal da Nova

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