Fogaréu Lilás: Uma literatura contracolonial

*Eduardo Martins


Apresento aqui o mais novo livro da doutora em sociologia, professora do IFMS, campus de Nova Andradina, Silvana Colombelli Parra Saches, que acabou de sair, 2024, pela editora Mondru, com suas 155 páginas de pura emoção, tensão e divertimento.

“Fogaréu lilás” se inscreve no rol da literatura sul-mato-grossense, no entanto, pode também estar na prateleira da estante da literatura nova-andradinense. A capa é um primor, e resume todo o conteúdo do romance, acima da terra uma árvore, a natureza em chamas, fogaréu lilás, abaixo da terra as raízes, o Pachamama, representando a vida simbiótica.

Romance em que quatro personagens marginais (“vidas infames”, Foucault), e centrais, simplesmente viajam no tempo e no espaço, ambientado no território do Estado de Mato Grosso do Mato, passando, digo, viajando pelos municípios da capital Campo Grande, e do interior; três Lagoas, Bodoquena, Rio Verde, São Gabriel d’Oeste, Bonito, Camapuã, Aquidauana, são os municípios que figuram nessas páginas e cada um contando pelo menos um episódio da sua história.

Tendo o seu personagem central, mas não principal, um indígena do povo Kaiowá, Elael, aqui de Dourados, nascido na aldeia, um fronteiriço entre Brasil e Paraguai, como quase todo sul-mato-grossense que é um pouco ser entrefronteiras, entrelugares. Este sujeito da floresta e das águas que com seus saberes nativos ancestrais acerca da biodiversidade, e da Mãe Terra, irá ser um dos condutores da narrativa potente e descaravelizante proposta por Silvana. E, não perdendo o feeling tampouco o timing contracolonial a autora chama para o seu livro, simplesmente o indígena Ailton Krenak, “Ideias para adiar o fim do mundo” (p.128). Que cede gentilmente suas palavras à autora, abrilhantando ainda mais e com mais luzes, ou um facho de luz verde, o presente livro, em que o “o futuro é ancestral”, e “a vida não é útil”, termos caros a Krenak.

Como boa trama sul-mato-grossense, não pode falta a chipa, a sopa paraguaia, a guavira, a carneada, o milho e seus derivados, a mandioca, o cerrado e suas belas paisagens, o pequizeiro, as sanfonas tocando, a violência dos tiroteios de graça, fazendo a “justiça de Mato Grosso, lei do 44”, a erva mate, o quebracho, árvores de peroba, jenipapo, e o tamanduá-bandeira, avistado margeando as estradas cercadas pelas monoculturas agroexportadoras desse Estado e sempre hostis contra as vidas dos entes espirituais das águas e das matas.

O livro traz o debate atual acerca da degradação do ambiente, da vida terrestre e sua forma caótica de exploração nazicapitalista, do tipo de desenvolvimento no lugar do envolvimento. Assim, didaticamente nossos quatro sul-mato-grossenses natos, mas que poderiam ser de qualquer lugar do planeta revela que o envolvimento ainda pode salvar a Mãe Terra contra todas as formas de agressões nelas aplicadas em nome da extrema direita e suas visões de mundo utilitaristas, exploratórias, racista.

E, a nossa cidade sorriso, Nova Andradina, merece um lugar de destaque na narrativa crítica e divertidamente ácida, ao localizar nesta urbe um certo tipo de elite em que “nada nasce nesse solo agora” (p.73), e que, Nova Andradina se insere na rota neonazifascista, no ano de 2473, o futuro é agora? Pergunto eu.

O livro é desses que se lê de um fôlego só; seja porque é belo, ou pela curiosidade em saber o destino no espaço-tempo dos quatro personagens que, simplesmente, vão e vem aqui e ali no futuro e no passado. Trata-se de um livro de ficção onde a autora, como boa socióloga, comprometida com questões sociais, mas também revelando seu lado ambientalista, feminista, humanistas, enfim, contracolonialista. É o que o seu livro entrega com primor, zelo e muito bem escrito, com leveza, dando aula de História de Mato Grosso do Sul, passeando pelos fatos históricos ricamente detalhados pela autora, que revela grande erudição em relação à História seu Estado natal.

O ponto alto do livro foi a sua sacada em trazer para o seu romance a cosmologia Inca, onde a Mãe Natureza, Mãe Terra é a grande responsável por um futuro minimamente habitável aos seres vivos humanos e não humanos, seres das águas, montanhas, tatus, onças e as aves do céu. Assim, a Consciência Pachamama, cuidada pelo matriarcado, defende as formas de vida na Terra. Pontual e atual a afirmação que vem da personagem afrodiaspórica habitante do Pachamama, Mariana, “fascistas não têm tesão”, (p.79) frase, ainda dita no futuro, no ano de 2473.

Livro recomendado à Secretaria Municipal de Educação, Cultura e Esporte (SEMEC), leitura obrigatória dos componentes curriculares e interdisciplinares dos ensinos infantil e fundamental. Dado que envolve a literatura, geografia, história, arte, história indígena sul-mato-grossense. Também indicado para a rede de ensino estadual nos níveis fundamental e médio. E, sobretudo, para todos/as amantes de uma boa trama literária sul-mato-grossense e da História de Mato Grosso do Sul, assim como eu.

Pessoas infames como Carla ex-viciada em cocaína, o indígena Elael, uma pessoa trans Fausta e por último Gauto, homem cis, branco e loiro. O que estas identidades têm em comum?  [...] Um facho de luz verde [...] Puft! 4 Lá vai o Quarteto Fantástico, salvar o planeta.

CONFIDENCIAL!

(Disponível para compra em: https://mondru.com/produto/fogareu-lilas/?srsltid=AfmBOoqmpa_UFXOySanhdwQMzQrkNzHMlGktKyZ3kN5suAnFl0RdlRzT 

*Professor Adjunto 4, UFMS, campus de Nova Andradina, CPNA.

Este texto, não reflete, necessariamente, a opinião do Jornal da Nova

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