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Quando ensinar virou resistência: o desmonte silencioso da educação no Brasil
*Claudinei Araújo dos Santos
Ensinar é um ato de coragem e compromisso social. O professor não é apenas aquele que alfabetiza e ensina a ler, é um agente de transformação, capaz de abrir caminhos para que crianças e jovens se apropriem do mundo com criticidade. Como dizia Paulo Freire, ensinar exige rigor, pesquisa, ciência, disciplina e amor. É um ato político no sentido mais profundo, formar cidadãos capazes de ler e compreender a realidade para transformá-la. No entanto, esse papel essencial do professor parece cada vez mais invisível em um país que insiste em não reconhecer a educação como prioridade estratégica.
Não por acaso, é necessário trazer dois pontos, primeiro a fala de Darcy Ribeiro, de que a desvalorização da educação no Brasil, não é uma crise, e sim um projeto e como diz o também educador Abmael Rocha Júnior, “a educação é um projeto que tem dado certo, foi feito para não funcionar, e não funciona, por que é um projeto desejoso”.
No início dos anos 2000, havia um clima de esperança no ar. O Brasil investia em educação, ampliava universidades e programas de formação docente. A carreira de professor era vista com respeito, havia estímulos para a especialização, o mestrado e até o doutorado. O educador era convidado a ser pesquisador, mediador de conhecimento, protagonista de uma transformação que parecia possível. E, por um momento, acreditamos que estávamos construindo um futuro mais digno para a profissão e para nossos estudantes.
Mas essa trajetória começou a ruir com a polarização política a partir de 2014 e se intensificou após 2016. O cenário se agravou com reformas feitas às pressas, como a do Ensino Médio, que desconsideraram os professores e especialistas da área. O respeito à docência foi substituído por uma lógica de desconfiança, cortes orçamentários e sobrecarga de trabalho. A educação, antes projeto de país, virou alvo de disputas ideológicas, desmonte e negligência institucional.
É impossível não lembrar de Foucault, para quem educar também é um modo de vigiar e dar condições de cidadania, pois é no conhecimento que reside a base da liberdade e da dignidade social. Negar educação de qualidade à população, portanto, é uma forma de opressão, uma violência silenciosa que, como diria Bourdieu, se transforma em violência simbólica, e para Althusser, estariam construindo bem os aparelhos ideológicos do Estado, seres subservientes que não pensam, não debatem, não questionam. E essa violência custa caro, não apenas aos que a sofrem diretamente, mas ao próprio Estado, que paga o preço da exclusão, da marginalização e da falta de oportunidades
Hoje, ser professor é lutar diariamente para não ser engolido por uma burocracia sufocante. Relatórios, prazos, planilhas e metas ocupam o espaço que deveria ser dedicado ao planejamento pedagógico, à pesquisa e à inovação didática. Enquanto os números se acumulam, o processo de ensino-aprendizagem, que deveria ser o coração da educação, vai ficando em segundo plano.
Não se trata de rejeitar a avaliação ou o acompanhamento dos resultados, mas de reconhecer que educação não se resume a dados em uma tabela. Ela é relação, diálogo, reflexão e construção coletiva. Quando esses elementos são ignorados, abre-se caminho para um ensino esvaziado de sentido, que desmotiva professores e alunos e perpetua um ciclo de desvalorização.
É preciso ressaltar, nos últimos anos, o professor tem sido cada vez mais engolido por um emaranhado de burocracias desnecessárias. São relatórios intermináveis, planilhas de acompanhamento, metas descoladas da realidade da sala de aula e reuniões que pouco ou nada dialogam com a prática pedagógica. Nesse cenário, sobra pouco ou nenhum tempo para o que realmente importa, ler, pesquisar, planejar e inovar. O espaço que deveria ser destinado ao crescimento intelectual do docente é consumido por tarefas que o afastam do verdadeiro sentido de ensinar e aprender.
Enquanto isso, as unidades da federação se preocupam mais com provas externas que não formam cidadãos críticos e com a chamada aprovação em massa, que empurra estudantes para séries seguintes sem garantir a base necessária de aprendizagem. É um projeto perverso que transforma a escola em um espaço de números e estatísticas, mas esvazia seu papel social de transformação. Provas que medem, mas não ensinam; aprovações que registram índices, mas não entregam conhecimento.
O professor, nesse ambiente, resiste como pode. Alguns se mantêm na profissão pelo amor à docência, outros pela impossibilidade de migrar para outra área, e muitos por já terem uma longa trajetória dedicada à escola. Mas, no fundo, o que se percebe é que o projeto do Estado de não ensinar com qualidade tem funcionado. Uma política silenciosa, mas eficiente, que desvaloriza, desmotiva e fragiliza o professor, deixando-o à mercê de um sistema que cobra resultados sem oferecer as mínimas condições para alcançá-los.
Educar, como ensinou Paulo Freire, é um ato de amor e coragem. Mas também é uma escolha política. Valorizar a educação é investir no futuro de uma sociedade mais justa e menos desigual. Negá-la é perpetuar um modelo de exclusão que só beneficia quem lucra com a ignorância.
É urgente resgatar o respeito ao professor, devolver dignidade à sala de aula e retomar o sonho de uma escola que alfabetiza, forma leitores, incentiva a pesquisa e integra ciência e tecnologia. Porque, como diria Bourdieu, cada vez que um jovem é privado de uma educação de qualidade, perpetua-se uma violência que, cedo ou tarde, todos pagaremos.
*Professor Substituto - Área Educação – UFMS – CPNA – Curso de História Doutorando em História – UFGD – Pesquisa Colonização de Nova Andradina
Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Jornal da Nova.
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