Pesquisa nacional dá voz a 2,3 milhões de adolescentes e revela desafios nos anos finais do ensino fundamental

Pesquisa revela que menos de 40% dos alunos valorizam professor

Luis Gustavo, Da Redação*


Os anos finais do ensino fundamental — do 6º ao 9º ano — são uma etapa peculiar da vida escolar, marcada pela transição da infância para a adolescência e por desafios próprios. Para compreender melhor esse período e subsidiar a criação da primeira política nacional voltada especificamente para esses estudantes, foi lançada nesta terça-feira (9), em Brasília, uma pesquisa que ouviu mais de 2,3 milhões de alunos em 21 mil escolas do país.

 

O levantamento aponta que mais da metade dos adolescentes se sente acolhida pela escola, mas menos de 40% afirmam respeitar e valorizar os professores.

 

A iniciativa foi conduzida pelo Ministério da Educação (MEC), em parceria com o Conselho Nacional de Secretários de Educação (Consed), a União dos Dirigentes Municipais de Educação (Undime) e o Itaú Social, durante a Semana da Escuta das Adolescências nas Escolas. A mobilização envolveu 46% das instituições de ensino que oferecem os anos finais da educação básica nas redes municipais, estaduais e distrital em todo o Brasil.

 

Escola e acolhimento

De acordo com a pesquisa, 66% dos estudantes do 6º e 7º anos se dizem acolhidos pela escola, contra 54% dos alunos do 8º e 9º anos. Já o sentimento de confiança em pelo menos um adulto dentro da instituição aparece em 75% entre os mais novos e cai para 58% entre os mais velhos.

 

O estudo também mostra que, em escolas com maior proporção de alunos em situação de vulnerabilidade, a percepção positiva sobre acolhimento chega a 69%, enquanto em contextos de menor vulnerabilidade esse índice é de 56%.

 

Relações e socialização

Quanto às amizades e interações sociais, 65% dos estudantes mais novos afirmam que a escola favorece a socialização, enquanto entre os mais velhos o índice cai para 55%. O relatório destaca que oito em cada dez alunos têm amigos com quem gostam de estar na escola.

 

Entretanto, a relação com os professores preocupa: apenas 39% dos alunos do 6º e 7º anos e 26% dos do 8º e 9º anos dizem respeitar e valorizar os docentes.

 

Currículo e aprendizagem

Durante o lançamento do relatório, a secretária de Educação Básica do MEC, Katia Schweickardt, destacou que a escuta dos adolescentes ajuda o poder público a compreender que todos aprendem de maneiras diferentes. Segundo ela, é preciso preparar professores, escolas e comunidades para lidar com essa diversidade.

 

“A gente precisa pensar currículo não apenas como uma lista de conteúdos, mas como uma experiência significativa de aprendizagem para os estudantes”, afirmou.

 

A pedagoga Tereza Perez, da organização Roda Educativa, alertou que a falta de adaptação ao perfil diverso das turmas pode levar ao abandono escolar. Para ela, a prática da reprovação como forma de aprendizado contribui para a evasão.

 

Conteúdos e futuro

Quando perguntados sobre quais conhecimentos consideram mais importantes, os estudantes mais novos apontaram as disciplinas tradicionais (48%), seguidas por corpo e socioemocional (31%) e habilidades para o futuro (21%). Entre os mais velhos, as disciplinas tradicionais aparecem com menor peso (38%), enquanto as habilidades para o futuro (24%) ganham mais relevância.

 

A superintendente do Itaú Social, Patrícia Mota Guedes, lembrou que o Brasil passou décadas sem uma política voltada para a educação na adolescência. Para ela, a escuta ativa dos jovens é um passo fundamental.

 

“Nenhum outro país teve coragem de escutar os adolescentes como parte da política pública. Isso faz com que os anos finais do ensino fundamental não sejam mais uma etapa esquecida”, afirmou.

 

Voz dos estudantes

A pesquisa também contou com relatos de alunos. Dandara Vieira Melo, de 13 anos, estudante da rede pública de Rio Branco (AC), contou que, após participar do Programa Travessia, apoiado pelo Unicef, conseguiu recuperar o atraso escolar e hoje enxerga a escola de outra forma.

 

“É um lugar para aprender, conhecer novas culturas, novas pessoas e fazer amizades”, disse.

 

*Com informações da Agência Brasil.

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