Amor ao próximo: Um legado judaico-cristão

*Vitor Hugo de Souza Carneiro


O artigo “Amar o próximo sem precisar acreditar em Deus”, publicado por esse portal, sustenta que o amor ao próximo pode ser vivenciado plenamente mesmo fora da crença teísta, ao mesmo tempo que reduz esse princípio judaico-cristão apenas à empatia ou bem-estar, e desta forma relativizando uma doutrina de extrema importância para o cristianismo e para a sociedade secular. Deste modo, tenho como objetivo nesse artigo reconhecer que existe amor fora do cristianismo, mas que esse amor é explicado pela teologia cristã, pela graça comum e não pela autonomia humana.

Em primeiro lugar, precisamos observar que o princípio de amar o próximo não nasceu no cristianismo, mas foi revelado nos escritos judaicos como apontado por Moisés em Levítico 19.18: “Não procurem se vingar nem guardem rancor de alguém do seu povo, mas cada um ame o seu próximo como a si mesmo. Eu sou o Senhor” (versão NVT). Esse mandamento encontra sua plenitude no Novo Testamento, por ser um mandamento absoluto que demonstra a essência de Deus, como escrito pelo Ap. João em sua primeira carta: “Quem não ama não conhece a Deus, porque Deus é amor” (1João 4:8. NVT).

Ainda no Novo Testamento, Jesus expondo seus ensinamentos no Sermão do Monte (Mateus cap. 5-7), expande esse conceito a amar inclusive aos inimigos, mostrando que não é somente convivência social ou obrigação civil, mas amor radical que transcende a reciprocidade. Esse ensino foi reiterado e exemplificado pelos apóstolos na edificação da igreja do primeiro século. O historiador Rodney Stark, em “O crescimento do cristianismo”, mostra como a prática cristã do amor ao próximo (cuidar dos órfãos, viúvas, pobres e enfermos) transformou a sociedade romana e foi um dos fatores da expansão da fé.

Esse testemunho histórico não passou despercebido nem mesmo aos contemporâneos do cristianismo primitivo. O Pai da Igreja Tertuliano registra, em sua Apologia (cap. 39), a admiração dos pagãos ao observarem a vida comunitária dos cristãos: “Veja como eles se amam e como estão prontos a morrer um pelo outro”. O que revela que o amor ao próximo não era apenas um discurso social, mas uma realidade visível que influenciava a cultura secular ao redor. Séculos mais tarde, Martinho Lutero, retomando essa centralidade do amor como fruto da fé, afirmou em seu Prefácio à Epístola aos Romanos: “A fé é uma confiança viva e ousada na graça de Deus… e por isso é impossível não fazer o bem continuamente.” Essas declarações reforçam que o amor ao próximo, no cristianismo, não se reduz a um mero sentimento de empatia, mas é expressão de uma fé enraizada em Deus e que se manifesta em obras concretas de cuidado ao outro.

Entretanto, é importante destacar que a concepção cristã de amor não se confunde com as categorias da filosofia grega. Enquanto o eros estava associado ao desejo e à busca da beleza, e a philia remetia à amizade e à reciprocidade, o cristianismo introduz um conceito novo e radical: o ágape. Esse amor não é movido por interesse ou mérito no outro, mas nasce da natureza de Deus e se expressa em entrega sacrificial, como revelado em Cristo na cruz. Assim, diferentemente da ética grega, que muitas vezes vinculava o amor a virtudes humanas ou à busca da felicidade, o amor ensinado por cristo é incondicional, gratuito e transformador, fundamentando-se na revelação divina e não na razão autônoma.

Reconhecemos, porém, que atos de amor ao próximo também podem ser encontrados fora do círculo cristão. A teologia reformada explica esse fenômeno pela doutrina da graça comum: o favor de Deus que restringe o mal e permite que mesmo aqueles que não professam fé em Cristo pratiquem gestos de bondade, justiça e solidariedade. Como afirma João Calvino, a graça comum é “um dom de Deus para toda humanidade, pelo qual Ele preserva a ordem e concede virtudes mesmo aos ímpios” (Institutas, II.3.3). Assim, quando observamos não cristãos dedicando-se à tais obras, não estamos diante de uma autonomia humana capaz de criar o amor em si, mas da ação de Deus sustentando a criação e refletindo, ainda que de modo imperfeito, a imagem divina impressa em todo ser humano.

Por fim, ao responder ao artigo em questão, é preciso afirmar que amar ao próximo não é uma invenção humana nem um mero fruto da empatia, mas um princípio revelado por Deus desde o Antigo Testamento, elevado por Cristo e testemunhado pela Igreja ao longo da história. A filosofia grega ofereceu reflexões importantes sobre o amor, mas foi somente ágape cristão que esse princípio alcançou sua plenitude: amor sacrificial, enraizado em Deus e que ultrapassa fronteiras sociais e religiosas. Quando vemos expressões de amor fora da fé cristã, não as rejeitamos, mas as compreendemos como reflexos da graça comum de Deus. Assim, conclui-se que o amor ao próximo, em sua forma mais radical e transformadora, permanece um legado judaico-cristão que moldou não apenas a Igreja, mas também a própria sociedade ocidental.

*Teólogo protestante pentecostal; Professor de Ensino Bíblico na IEADMS; Estudante de Direito pela FINAN.

Este texto, não reflete, necessariamente, a opinião do Jornal da Nova. 

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