Peço ao querido leitor não me ter por arrogante devido a esse meu pequeno texto. Minha intenção não é ofender, mas alertar as pessoas para a falta de discernimento e da idolatria a figuras de poder. Se eu conseguir me expressar corretamente, talvez eu tire de você, meu amigo leitor, uma singela reflexão.
Infelizmente, a frase atribuída ao escritor Nelson Rodrigues: "Os idiotas vão tomar conta do mundo; não pela capacidade, mas pela quantidade. Eles são muitos", nunca fez tanto sentido. Quando analisamos criticamente a sociedade, percebemos uma imaturidade intelectual. É triste ver notícias como as de beneficiários do programa Bolsa Família gastando os recursos que deveriam ser destinados às necessidades básicas sendo usados para apostas on-line, como o famoso jogo do Tigrinho.
O que percebemos são pessoas alienadas que estão dispostas a se sacrificarem por aqueles que lhes dão migalhas, como acontece no campo político. A imaturidade intelectual está acentuada de uma forma tão intensa que chega a ser vergonhosas as humilhações que eleitores passam para defender seu político ou partido. Criou-se uma narrativa de NÓS contra ELES. Essa narrativa é extremamente problemática porque cria uma cisão enorme e afasta as pessoas da reflexão crítica e do diálogo. Já não se trata mais de quem tem a melhor proposta ou a melhor gestão para o país. Trata-se de uma guerra em que os políticos atolados até o pescoço em corrupção são idolatrados e defendidos com ferocidade pelo eleitorado. Quando um dos lados exalta seu candidato/partido, atribui as misérias e problemáticas ao outro candidato/partido, criando-se no imaginário uma luta do BEM contra o MAL. Sendo que qualquer candidato que concorra a uma eleição não é perfeito, muito pelo contrário, pois muitos que subam a um palanque para pedir votos, podem estar cheios de vícios políticos e pactos imorais previamente firmados. Porém, essa guerra é boa para aqueles que querem apenas angariar votos, pois conseguem manobrar uma massa que é movida por sentimentalismo e não pela razão.
Um outro ponto que também é digno de atenção e é bem popular e movimenta uma grande massa são as redes sociais. No Brasil e no mundo, há muitos influenciadores que têm grande poder sobre uma sociedade movida pelo emocional. É comum vermos crianças querendo ser influenciadoras, ver pessoas passando horas acompanhando stories de seus influenciadores favoritos. Não vejo mal algum em se distrair usando as redes sociais, não sejamos rigorosos, às vezes, tudo que queremos é tirar a pressão de cima de nós e relaxar um pouco a mente. A meu ver, o problema se encontra quando esses influenciadores conseguem dominar a capacidade reflexiva do seu público, o que frequentemente acontece. Isso faz com que esse público se distraia das questões urgentes, que deveriam ser prioridades para melhorar nossa qualidade de vida. As pessoas estão mais preocupadas com famosos que terminaram seus relacionamentos do que com questões sanitárias, ambientais e sociais. De fato, nem sempre teremos vigor para discutir pautas importantes, mas se alienar a elas é prejudicial, pior ainda quando romantizamos tudo que há de errado e denominamos esses erros de CULTURA. A maioria dos influenciadores é fomentadora da alienação, vendem uma vida idealizada e feliz, uma vida de sucesso que não existe na realidade. Não estou dizendo que pessoas bem-sucedidas não existem, mas saliento que é a IDEALIZAÇÃO de uma vida perfeita que não existe.
Ainda falando do meio digital, temos as mídias que deveriam veicular informações verídicas e confiáveis, mas transmitem desinformação. Percebo muitas pessoas se informando por páginas de fofocas e esquecendo que as informações que chegam a elas podem ser enviesadas e manipuladas, prontas para fisgar o leitor pela emoção e não pela capacidade crítica. Durante um bom tempo, tivemos entre nós a política do cancelamento, amplamente espalhada pelas páginas de fofocas, em que pessoas que pensavam diferente tinham suas vidas destruídas, uma perseguição digital que impossibilitava a vítima de uma segunda chance; mas esses cancelamentos vinham apenas para aqueles que não adotavam uma certa ideologia, tendo o outro lado um salvo-conduto para cometer os mesmos erros e sair impune. Gostaria de dizer que as mídias tradicionais estão a salvo dessa teia de desinformação, contudo, durante a tragédia do Rio Grande do Sul, foi possível ver o descaso da maior emissora do Brasil, dando prioridade ao entretenimento em vez de cobrir o desastre. Muitos gaúchos se revoltaram contra tal emissora, fazendo-a cair em descrédito.
Fora do âmbito digital, temos os protestos. Eu vejo o protesto como o símbolo máximo da democracia. Em regimes autoritários, os protestos são inviáveis, em alguns lugares, sendo os manifestantes passíveis de morte. Porém, muitos militantes, sejam de direita ou de esquerda, têm usado os protestos para causas banais, tirando assim a credibilidade de um ato capaz de mudar os rumos políticos do Brasil. Vejo termos complexos como nazista e fascista, termos esses usados para nomear tiranos terríveis que pisaram nesse planeta, sendo usados de maneiras banais em muitas manifestações. Banalizaram tanto termos assim que tiraram o peso histórico dessas palavras. Pautas de grande relevância, como a luta contra a homofobia, racismo e feminicídio, foram tão vulgarizadas por pessoas guiadas por ideais tortos que fizeram esses temas perderem a sua magnitude. Isso é muito triste, pois sou um grande defensor da liberdade. Acredito que as pessoas devam escolher como querem viver e amar sem o julgo de preconceitos carregados em nossa cultura.
Quando eu falo sobre as pessoas que se guiam por esses ídolos e ideais, sem parar um momento para refletir até que ponto devemos elevar as pessoas que admiramos ou até que ponto aqueles ideais que acreditamos são benéficos, não quero tirar o direito das pessoas de escolherem o que acham melhor para si. Mas faço um apelo sincero para que todos nós possamos estar sempre revisando nossas escolhas. Nossos ídolos não são deuses, eles são humanos como nós; podemos admirar muito uma pessoa, mas não precisamos nos cegar para as falhas que esse alguém venha a cometer. Podemos trazer no coração uma ideologia, uma forma de ver o mundo à nossa volta, no entanto, não devemos nos bloquear para mudanças e novas perspectivas quando aquela ideologia se mostrar precária e controversa. A sociedade é feita de pessoas, e pessoas são controversas, isso é natural e até vantajoso. O problema reside quando perdemos nossa capacidade de ter empatia por aqueles que pensam de maneira distinta de nós. Uma civilização saudável é erigida com base no diálogo, afinal, os opostos não são combustíveis para guerra e sim um catalisador de inovação.
Infelizmente, enquanto as pessoas agirem como idiotas e fecharem os olhos para os verdadeiros inimigos, que são a desigualdade, a fome, a educação, entre outros. Continuaremos alienados, sendo guiados pelo ódio aos que são diferentes de nós e idólatras aos que nos são favoráveis. Enquanto formos guiados por dicotomias e não pelo pensamento crítico, continuaremos numa guerra sem sentido, destruindo os outros e a nós mesmos no processo. Enquanto continuarmos consumindo conteúdos de fofocas em vez de livros, ficaremos reféns de quem detém o controle da informação.
Se quisermos ver uma mudança real, devemos ouvir a nossa razão, deixar de ser idiotas e agir como sábios.
*Formado em psicanálise pelo Instituo Brasileiro de Psicanálise Clínica, atua como psicoterapeuta e é pós-graduado em Psicologia Organizacional
Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Jornal da Nova.
Cobertura do Jornal da Nova
Quer ficar por dentro das principais notícias de Nova Andradina, região do Brasil e do mundo? Siga o Jornal da Nova nas redes sociais. Estamos no Twitter, no Facebook, no Instagram, Threads e no YouTube. Acompanhe!





