Todos os dias morremos um pouco. É possível afirmar que a cada amanhecer estamos mais próximos do nosso limite final, o instante em que nossos batimentos cessarão e porão fim ao nosso existir. O caso de Vaqueirinho, o jovem paraibano morto por uma leoa, um paciente psiquiátrico que sonhava em ir à África para cuidar de felinos — explicita essa condição trágica. Segundo relatos jornalísticos, ele era neto de uma mulher diagnosticada com esquizofrenia e filho de uma mãe que também conviveu com o transtorno; por circunstâncias sociais e, talvez, genéticas, carregou o mesmo sofrimento até que a invisibilidade social o conduziu, silenciosamente, à jaula que o matou.
As brincadeiras e deboches proliferaram nas redes sociais, acompanhados por um surto de memes que expõem, sem pudor, como grande parcela da população permanece invisível até que uma tragédia acenda holofotes sobre sua existência. É lamentável, mas revela um Estado ineficiente e seletivamente atento, perspicaz apenas no interesse de deixar que vidas marcadas pelo abandono familiar sigam o percurso histórico da higienização social, sempre dirigida aos mais vulneráveis.
Gerson de Melo Machado, de 19 anos, acumulava passagens pelo sistema socioeducativo e prisional, e sua trajetória confirma o que afirma Maurício Stegemann Dieter, professor de criminologia da USP: “o Estado é igual a zagueiro ruim, chega sempre atrasado e com violência”. No caso de Gerson, essa violência se expressa como violência simbólica (BOURDIEU, 2012), pois as instituições o acompanharam desde a infância, mas sempre o classificaram apenas como portador de “problemas comportamentais”, jamais como alguém que necessitava de cuidado, acolhimento e políticas públicas estruturantes.
É preciso, portanto, analisar como os transtornos psiquiátricos atravessam a sociedade e como o Estado permite que essas pessoas permaneçam esquecidas: sentam-se nos bancos das praças, dormem nas portas de igrejas, circulam por rodoviárias e semáforos, sendo vistas como corpos sujos, encardidos, vidas já “resolvidas” antes mesmo de morrerem. Muitos que se declaram defensores da vida e da sacralidade do nascimento são os mesmos que toleram, ou legitimam, a morte lenta daqueles que vivem com transtornos. E essa aceitação não se limita a armas: ela se manifesta quando o Estado se omite e deixa morrer aqueles que já vivem à margem da visibilidade.
Como morrem os invisíveis? Morrem pelo desprezo e abandono estatal, pela ausência de políticas públicas capazes de tratar causas, atender necessidades e intervir antes que as consequências se tornem tão graves quanto a de uma pessoa esquizofrênica entrando em uma jaula. Todos os dias, pessoas invisíveis atravessam metafóricas jaulas de leoas, enquanto a sociedade filma, publica nos stories, envia a amigos e compartilha nas redes — mas quase nunca se dispõe a fortalecer as instituições que poderiam prevenir tais violências. Os invisíveis morrem todos os dias, e não adianta culparmos os leões: eles apenas continuam o que nós, enquanto sociedade, fazemos lentamente.
Essa dinâmica de abandono e exposição à morte também pode ser compreendida à luz do panoptismo de Bentham, reinterpretado por Michel Foucault (1975) em Vigiar e Punir. O panóptico, enquanto arquitetura de vigilância total, opera como metáfora dos mecanismos modernos de controle, nos quais determinados indivíduos são permanentemente observados enquanto outros permanecem relegados à sombra, invisibilizados. O Estado, ao vigiar seletivamente e abandonar os corpos que não reconhece como produtivos, produz uma dupla lógica: controla intensamente alguns, mas deixa morrer aqueles que considera socialmente descartáveis. A invisibilidade, portanto, não é um acidente, é um produto político.
Foucault (1975) demonstra que a vigilância moderna se legitima pelo discurso do cuidado: vigia-se para proteger, para disciplinar, para garantir o bem-estar coletivo. Entretanto, quando essa lógica é direcionada apenas a certos corpos, o cuidado estatal torna-se um privilégio e a vigilância, um instrumento de seleção social. Em outras palavras, quem adoece mentalmente e não está sob o campo de visão das instituições, o “não vigiado”, torna-se também o “não cuidado”. Por isso, tragicidades como a de Vaqueirinho não são meras fatalidades: são produtos de um sistema que decide, continuamente, quem merece viver, quem pode morrer e quem deve permanecer invisível até que a morte lhe imponha uma súbita visibilidade. Não dá para levarmos para casa, é papel do Estado fazer cumprir com a Constituição Federal que prima pela dignidade humana.
*Professor Substituto - Área Educação – UFMS – CPNA – Curso de História Doutorando em História – UFGD – Pesquisa Colonização de Nova Andradina
Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Jornal da Nova.
Cobertura do Jornal da Nova
Quer ficar por dentro das principais notícias de Nova Andradina, região do Brasil e do mundo? Siga o Jornal da Nova nas redes sociais. Estamos no Twitter, no Facebook, no Instagram, Threads e no YouTube. Acompanhe!






