Quase metade das brasileiras diz não ser tratada com respeito, aponta pesquisa

Elas dizem que são vítimas nas ruas, no trabalho e em casa

Luis Gustavo, Da Redação*


Quase metade das mulheres brasileiras — 46% — afirma não ser tratada com respeito no país. A sensação se repete em casa, no trabalho e, sobretudo, nas ruas, onde 49% dizem enfrentar maior desrespeito. Os dados fazem parte da 11ª Pesquisa Nacional de Violência contra a Mulher, realizada pelo DataSenado e pela Nexus, em parceria com o Observatório da Mulher contra a Violência (OMV), e considerada o maior levantamento do país sobre o tema.

 

O estudo ouviu mais de 20 mil brasileiras de todas as regiões e confirma que o machismo segue estruturado no cotidiano: 94% delas classificam o Brasil como um país machista.

 

Segundo o coordenador do Instituto de Pesquisa DataSenado, Marcos Ruben de Oliveira, o monitoramento periódico é essencial para orientar políticas públicas. “Esse acompanhamento bienal permite mensurar a evolução da percepção e da realidade da violência contra mulheres, apoiando o Senado e o governo na criação e avaliação de leis de proteção”, afirma.

Machismo estruturado e percepção de aumento da violência

A percepção de machismo permanece praticamente unânime desde 2017. Em 2025, além dos 94% que reconhecem viver em uma sociedade machista, houve crescimento no grupo que considera o país muito machista: de 62% para 70% em dois anos — o equivalente a 8 milhões de mulheres a mais com avaliação mais crítica.

 

O aumento da percepção acompanha outro indicador preocupante: 79% das entrevistadas acreditam que a violência doméstica cresceu nos últimos 12 meses, retornando ao maior patamar da série histórica.

Ruas continuam sendo o ambiente de maior desrespeito

Desde 2011, as ruas são citadas como o espaço onde as mulheres se sentem menos respeitadas. Em 2025, 49% apontam vias públicas como o ambiente mais hostil.

 

A percepção de desrespeito dentro de casa cresceu 4 pontos percentuais em dois anos, o que representa 3,3 milhões de mulheres a mais considerando o próprio lar como ambiente inseguro. Já no trabalho, não houve mudanças significativas, mas ele segue sendo o segundo local em que se sentem menos respeitadas.

 

Para Beatriz Accioly, antropóloga e líder de políticas públicas do Instituto Natura, os dados reforçam o caráter estrutural da violência. “É preocupante que o círculo mais íntimo, que deveria ser de proteção, também seja percebido como ameaçador. Isso reflete os altos índices de violência doméstica e feminicídio no país”, ressalta.

Diferenças regionais

A pesquisa também evidencia desigualdades regionais. No Sul, 53% das mulheres afirmam que “às vezes” não são tratadas com respeito — o maior índice entre as regiões. No Nordeste, metade das entrevistadas diz que as mulheres não são respeitadas. No Sudeste, o índice é de 48%, seguido do Centro-Oeste (44%) e do Norte (41%).

 

Apesar das variações, o sentimento de instabilidade no modo como a sociedade trata as mulheres é nacional. “A violência contra a mulher ultrapassa a esfera doméstica e se torna estrutural, com impactos sociais e econômicos duradouros”, avalia Maria Teresa Prado, coordenadora do OMV no Senado Federal.

Escolaridade aumenta percepção de respeito, mas não elimina o problema

O nível de escolaridade também influencia a percepção de respeito. Entre mulheres não alfabetizadas, 62% afirmam que as mulheres não são tratadas com respeito. Já entre as que concluíram o ensino superior, o índice cai para 41%.

 

Mesmo assim, nem a educação superior garante uma visão positiva: apenas 8% das mulheres com diploma universitário acreditam que as mulheres são plenamente respeitadas no país. Nas faixas de ensino médio e superior incompleto, mais da metade considera que o respeito ocorre apenas “às vezes”.

 

Para Vitória Régia da Silva, diretora da Associação Gênero e Número, o cruzamento de dados evidencia vulnerabilidades. “Mulheres com menor acesso à educação formal percebem mais desrespeito e têm mais dificuldades para denunciar ou acessar serviços de proteção. A desigualdade educacional se traduz em vulnerabilidade social”, explica.

Retrato de um país ainda marcado pela desigualdade de gênero

Os resultados confirmam que a violência de gênero e o desrespeito às mulheres permanecem enraizados na cultura brasileira. Com quase metade das mulheres afirmando não ser tratada com respeito e a percepção crescente de violência, o levantamento reforça a urgência de políticas públicas integradas para prevenção, acolhimento e proteção. *Com informações da Agência Brasil.

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