As três metamorfoses de Nietzsche e suas relações com a psicanálise freudiana

*Felipe Pereira


Introdução

O grande pensador Friedrich Nietzsche não foi apenas um filósofo com ideias consideradas hereges em seu tempo. Ele não produzia apenas filosofia, ele também produzia psicologia. Nietzsche foi capaz de entender o papel da moral no adoecimento de seus contemporâneos; essa sua percepção foi endossada pela psicologia social, na qual é comprovado que fatores sociais são capazes de influenciar o indivíduo.

Uma obra importante de Nietzsche é o livro “Assim falou Zaratustra”. Nesse trabalho, Nietzsche expõe ideias como a “Morte de Deus”, em que a sociedade matou a Deus e não sabe como viver sem ele. Deus, nesse contexto, seriam os valores sociais e como as pessoas vivem perdidas sem ter uma moral para guiá-las É assim que nasce o “Super-homem” nietzschiano; para superar essa morte de Deus, era preciso a sociedade transcender o homem comum e alcançar uma moral mais justa e elevada.

Suas análises vão contra a moral distorcida da sociedade da qual ele fazia parte; ele dizia que a cultura foi forjada pelo ressentimento de um grupo pequeno, que impôs a uma grande massa seus valores autoritários e deturpados. Foi nesse contexto que Friedrich Nietzsche propôs as “Três metamorfoses do espírito”. Para sua tese, ele usou como símbolos o Camelo, o Leão e a Criança. "Três metamorfoses do espírito vos menciono: como o espírito se transforma em camelo, e o camelo em leão, e o leão, por fim, em criança" (Nietzsche, em 'Assim Falou Zaratustra').

Baseado nessas três metamorfoses, gostaria de traçar um paralelo semelhante que acontece em um processo de análise. Não seria exagero da minha parte fazer tal analogia, pois o trabalho de Freud se deu por observações clínicas e literárias de grandes pensadores. Inclusive, sendo feita uma referência por Freud a Friedrich Nietzsche em sua obra “Psicopatologia da Vida Cotidiana” (1901/1996). Freud reconheceu que Nietzsche antecipou muitas das observações que ele descobriu em sua prática clínica.

Feito todo esse preâmbulo, vamos analisar cada uma das metáforas e como elas se enquadram em um processo psicanalítico.

O Camelo

Para Nietzsche, o Camelo era a representação dos valores herdados. Quem vive nessa etapa está com seu espírito preso às demandas que lhe foram impostas. O espírito nessa fase carrega a vida como um fardo. Mesmo o Camelo sendo resistente, ele vive apenas para servir, sem criar, sem poder ter uma vida fluida. Assim encontram-se muitos indivíduos, presos e alienados em uma realidade que lhes foi dada, e muitos aceitam essa realidade sem questioná-la, sem um pensamento crítico capaz de ver a fragilidade da moral que lhes é imputada.

Freud, em suas obras, já dizia que a cultura, que deveria nos tornar uma sociedade coesa e funcional, em muitos momentos tem sido a fonte do sofrimento humano. "O preço que pagamos por nosso avanço cultural é a perda da felicidade por meio da intensificação do sentimento de culpa." (FREUD, S. O Mal-estar na Civilização. Edição Standard Brasileira, Vol. XXI). Por vezes, no cotidiano clínico chegam pacientes carregados de culpas, pois lhes foi feito acreditar que grande parte de seus desejos eram errados e moralmente inadequados. É normal encontrarmos nos consultórios indivíduos acometidos de neuroses obsessivas que se defendem de seus desejos com rituais de purificação, como meio de aplacar a culpa através da punição.

Esses indivíduos carregam o fardo cultural e acreditam serem imundos por não estarem em conformidade com a moral estabelecida em sua civilização, sendo os pais os responsáveis por apresentar o mundo a cada sujeito, dando início ao que Freud chamou de Complexo de Édipo — na teoria freudiana, o Complexo de Édipo é a triangulação amorosa em que o filho/a se apaixona pelo genitor de sexo oposto e rivaliza com o genitor de mesmo sexo, e, por temer esse genitor de mesmo sexo, o menino/a renuncia ao amor do outro genitor e aceita a autoridade de seu oponente e as regras que vêm dessa figura de autoridade. Eles vivem como o Camelo nietzschiano, sendo massacrados e tendo que suportar a existência com servidão às normas sociais, sem questionar, sem se rebelar.

A prática clínica busca trazer a reflexão necessária para que pacientes nessa fase possam questionar até que ponto a moral vigente é essencial para que a sociedade não entre em colapso ou a partir de que momento ela passa a ser cruel e obsoleta. Um dos grandes acertos de Freud foi criar um ambiente onde o paciente pudesse falar livremente sobre o que lhe viesse à cabeça, sobre suas fantasias e sobre as coisas que seriam consideradas imorais caso fossem ditas em outro lugar.

As ideias que Nietzsche postulou, Freud levou para seu consultório. Nietzsche observou que era preciso o sujeito sair do estado alienado em que se encontrava; Freud chamou isso de Associação Livre e deu para esse indivíduo o que era preciso para questionar sua estrutura social e os impactos em sua psique.

Nesse movimento de introspecção que foi proposto por Nietzsche e levado à clínica por Freud, o sujeito pode evoluir para a próxima etapa da metamorfose nietzschiana, o Leão.

O Leão

O Leão nietzschiano é o espírito que se rebela, que luta contra os valores da sociedade, que não se cala e nem se curva; ele é o “Rei da Selva”, ele é a força que se faz sentir. Esse Leão tem um inimigo, o Dragão. "Mas no mais solitário dos desertos ocorre a segunda metamorfose: aqui o espírito torna-se leão, quer conquistar sua liberdade e ser senhor de seu próprio deserto. Ele busca aqui seu último senhor: quer ser inimigo desse senhor e de seu último Deus; quer lutar com o grande dragão” (Nietzsche, em 'Assim Falou Zaratustra').

Aqui fica fácil assimilar esse dragão à figura que exerce o papel de autoridade e rivalidade na vida do sujeito, conforme o Complexo de Édipo teorizado por Freud. O que diferencia o Leão do Camelo na clínica é que o Leão toma conhecimento dessa rivalidade, que muitas vezes está no inconsciente (instância onde o sujeito esconde os seus desejos conflitantes), permitindo-se, em muitos casos, sentir o ódio do qual ele se esquivou por muito tempo, este mesmo ódio que o fez adoecer psiquicamente. Porém, esse sujeito com o espírito de Leão não se deixa subjugar outra vez, ele luta pela sua liberdade.

Mas o Leão de Nietzsche não tem a capacidade de criar; os impulsos que durante muito tempo foram reprimidos estão, agora, soltos e desenfreados. O indivíduo que consegue vencer as forças que calaram seus sentimentos apenas brada para os quatro cantos da Terra que ele é dono de si. Mas ele apenas faz isso, grita, ruge, se revolta. O Leão é apenas a transição, a força necessária para a revolução, para criar um novo percurso. Sem a ferocidade do desejo que encontrou sua voz, o sujeito continua servil e alheio diante do mundo que se apresenta.

Após toda essa fúria, após o desejo se satisfazer, é possível o sujeito amadurecer para a próxima fase, a Criança.

A Criança

A Criança de Nietzsche não representa a imaturidade, ela representa a criatividade, o recomeço, a leveza de ser.

“Mas dizei-me, irmãos: que pode a criança que o leão não pôde? Por que tem de o leão tornar-se criança ainda? (...) A criança é inocência, é esquecimento, um novo começo, um jogo, uma roda que gira por si mesma, um primeiro movimento, um sagrado dizer sim” (Nietzsche, em 'Assim Falou Zaratustra').

A Criança pode ser encontrada em Freud quando este postula a respeito da Sublimação (a transformação de impulsos que não são aceitos, por atividades que são socialmente apreciadas). Como afirma Freud:

"A pulsão sexual coloca à disposição do trabalho cultural somas de forças extraordinariamente grandes, e isto devido à propriedade, nela especialmente pronunciada, de poder deslocar seu objetivo sem perder substancialmente em intensidade. Chama-se capacidade de sublimação a essa propriedade de trocar o objetivo originalmente sexual por outro, que já não é sexual, mas psiquicamente afim ao primeiro." — Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade (1905).

Após essa jornada do indivíduo que nasce livre e com a suavidade da Criança nietzschiana, e devido à sua convivência em sociedade, ela é obrigada a ser como o Camelo e suportar a existência sem questionar; o sujeito precisa reaprender a arte de viver, precisa reaprender o que é ser espontâneo, a dizer outra vez sim à vida, tal como nos tempos de sua meninice.

O indivíduo que passa pelo processo de análise, após aprender a se reconhecer, aprender que a Criança dentro dele tem uma força de potência criadora, usa os desejos infantis como arte, cultura, transformação. Para demonstrar, uma pessoa que sente desejos de destruir, que está tomada pelo rancor e angústias, pode usar esses afetos como poesias, criar belas canções que tocam a alma, pintar um quadro carregado de cores escuras, ou usar essa agressividade para competições esportivas.

A Criança é a Sublimação dos conflitos que a vida em sociedade cria em nós, é a aceitação de que somos seres complexos e divididos e que não há mal em ser assim, que podemos usar essa divisão para multiplicar, para inovar, para criar beleza em um mundo que às vezes parece ser cinza.

Conclusão

Nietzsche e Freud foram grandes pensadores que entenderam a complexidade da mente humana e o quanto a vida em sociedade exige de nós. As três metamorfoses de Nietzsche não são algo estático, mas são fluidas; em alguns momentos seremos o Camelo e nos calaremos, em outros seremos o Leão e, quando nos sentirmos confortáveis, seremos a Criança.

Assim como Nietzsche acreditava que era preciso cada um de nós encontrar o melhor caminho para si, Freud dizia que a felicidade não podia ser encontrada em verdades prontas, como afirmou ele em sua obra de 1930, O Mal-Estar na Civilização: "Aqui não há conselho que sirva para todos; cada um tem de descobrir por si mesmo o modo específico pelo qual pode ser feliz."

O que esses grandes intelectuais quiseram nos passar com suas obras e ideias é que, apesar de fazermos parte de uma estrutura social e de regras que visam à harmonia e à possibilidade de coexistirmos, não podemos deixar que as proibições inibam nossa capacidade de sonhar, de amar, de desejar. Eles nos levaram a questionar até que ponto devemos servir às regras sociais e alertaram-nos para a morte de nossa subjetividade em prol da vida social.

Eles nos deixaram também a valiosa lição de que não devemos temer a Criança dentro de nós, pois ela pode ser nosso ponto de respiro numa moral que visa reprimir a individualidade.

Referências Bibliográficas

FREUD, Sigmund. O Mal-estar na Civilização. In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, Vol. XXI. Rio de Janeiro: Imago, 1930/1996.

FREUD, Sigmund. Psicopatologia da Vida Cotidiana. In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, Vol. VI. Rio de Janeiro: Imago, 1901/1996.

FREUD, Sigmund. Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade. In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, Vol. VII. Rio de Janeiro: Imago, 1905/1996.

NIETZSCHE, Friedrich. Assim Falou Zaratustra: um livro para todos e para ninguém. Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.

*Formado em psicanálise pelo Instituo Brasileiro de Psicanálise Clínica, atua como psicoterapeuta e é pós-graduado em Psicologia Organizacional

Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Jornal da Nova. 

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