Nos últimos dias um ex-jogador de futebol compartilhou nas redes sociais que sua filha não iria cursar faculdade em uma universidade pública em nome dos “valores da família”. O que fica implícito no discurso é a ideia de que o ambiente da universidade pública é sinônimo de “perversão”, “devassidão”, “promiscuidade” e todo tipo de “indecência”.
Esse tipo de pensamento não é novo. O ex-jogador reproduz uma visão sobre a universidade pública que começou a ganhar força na década de 1990, fomentada por círculos conservadores e reacionários. Uma visão que se amplificou socialmente com a internet nas primeiras décadas do século XXI: a ideia de que a esquerda teria se apoderado das universidades públicas.
A tese é a seguinte: após o fim da União Soviética, a esquerda mundial teria adotado uma nova estratégia, qual seja, a conquista do poder por meio da cultura e suas instituições. Seria o chamado “marxismo cultural”. Através desta tática, a “maléfica esquerda” teria como objetivo a destruição do cristianismo e da civilização ocidental por meio de pautas como feminismo, direitos LGBT e política identitária. Com isso, ela almejaria acabar com o modelo de família cristã-ocidental (monogâmica e heteronormativa).
E onde entra a universidade pública nessa tese difundida por conservadores e reacionários? Como instituição central na produção do conhecimento, sua conquista seria importante para legitimar o “projeto político” da esquerda global. Mas isso bate com a realidade? A resposta é um sonoro não!
Sobre isso, eu gostaria de falar brevemente da minha experiência particular. Eu ingressei na universidade pública em 2002. Frequentei como aluno a UFSM (Santa Maria) e UFRGS (Porto Alegre), e como docente estou na UFMS (Campus de Nova Andradina) desde 2014. Além disso, ao longo desses anos conheci outras universidades públicas do país.
Com o que me deparei nos espaços que frequentei e frequento ao longo desses anos? Diferentemente da tese da extrema direita sobre hegemonia da esquerda nas universidades públicas com o “marxismo cultural”, o que tenho encontrado é um ambiente conservador, onde é forte a presença de pessoas cautelosas em suas posições políticas e valores familiares. E isso não surpreende. Afinal, o público nas universidades públicas reflete, em boa medida, a sociedade em sua volta. E a sociedade brasileira possui uma boa dose de conservadorismo.
Quando eu ingressei na UFSM em 2002, o Diretório Central dos Estudantes (DCE) era comandado por um grupo de estudantes politicamente de direita. Com o passar dos anos, na medida em que grupos conservadores e de extrema direita ganharam visibilidade nos espaços públicos, eu vi isso florescer nos ambientes acadêmicos que circulava. E, durante o governo Bolsonaro, testemunhei e tive notícias de apoio de parte de alunos, técnicos e professores ao bolsonarismo em diversas universidades públicas.
Sim. Existem pessoas de esquerda nas universidades públicas, mas, pelo que sei, longe de serem uma maioria. Um pouco mais nas áreas de ciências humanas, talvez um pouco menos nas áreas de ciências exatas ou engenharias. Mas se é assim, por qual motivo ainda prospera a visão de pessoas como esse ex-jogador? Ignorância, má-fé, ou um pouco dos dois? Talvez. Mas não duvidaria que muitas delas jamais estiveram em uma universidade pública.
*Professor do Curso de História da UFMS/CPNA
Este texto, não reflete, necessariamente, a opinião do Jornal da Nova.
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