Hidroponia transforma realidade de agricultores familiares e amplia produção em Naviraí

Projeto apoiado pelo Governo do Estado leva tecnologia ao campo, aumenta produtividade e incentiva produtores a expandirem estruturas com recursos próprios

Luis Gustavo, Da Redação*


Durante muito tempo, a hidroponia parecia distante da realidade dos pequenos produtores rurais de Naviraí. Considerado por muitos agricultores familiares como um sistema caro e complexo, o método de cultivo sem solo enfrentava resistência entre aqueles que temiam investir em uma tecnologia desconhecida.

 

Esse cenário começou a mudar por meio do projeto Hidroponia para Todos, coordenado pelo professor Daniel Zimmermann Mesquita, do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Mato Grosso do Sul (IFMS). A iniciativa recebeu apoio do Governo do Estado, por meio da Secretaria de Meio Ambiente, Desenvolvimento, Ciência, Tecnologia e Inovação (Semadesc) e da Fundação de Apoio ao Desenvolvimento do Ensino, Ciência e Tecnologia (Fundect).

 

O projeto levou tecnologia, capacitação e acompanhamento técnico diretamente às propriedades rurais, permitindo que agricultores familiares passassem a produzir hortaliças de forma automatizada, com menos esforço físico e maior produtividade. O resultado foi além das expectativas: após o período de orientação, diversos produtores decidiram ampliar suas estruturas utilizando recursos próprios.

 

Segundo o professor Daniel, um dos principais desafios foi vencer a desconfiança inicial dos agricultores.

 

“Muitos tinham medo, conheciam o sistema de hidroponia, mas achavam que era muito caro. Tinham receio de adotar a tecnologia e não saber como operar”, explicou.

Menos esforço e mais eficiência

O sistema implantado utiliza a técnica NFT (Nutrient Film Technique), na qual as plantas são cultivadas em tubos por onde circula continuamente uma solução composta por água e nutrientes. Bombas e temporizadores automatizam grande parte do processo, enquanto os produtores acompanham apenas indicadores básicos, como pH e níveis de nutrientes.

 

De acordo com o pesquisador, a mudança na rotina de trabalho é significativa.

“Na hidroponia, praticamente não há esforço físico. Não existe incidência de plantas daninhas, então não é necessário usar enxada para retirar mato. As bancadas ficam na altura das mãos, tornando o sistema muito mais ergonômico”, destacou.

 

Além disso, a ausência de contato com o solo reduz a ocorrência de doenças e contribui para a produção de hortaliças com melhor qualidade.

Famílias ampliam produção

O projeto selecionou quatro propriedades familiares da região de Naviraí, sendo duas localizadas no Distrito Verde e duas no assentamento Juncal. Cada família recebeu três bancadas hidropônicas completas, além de equipamentos, insumos e treinamento prático.

 

As estruturas possuem capacidade para produzir até 600 plantas por ciclo produtivo. O cultivo de alface, principal produto comercializado, já vem garantindo retorno financeiro para as famílias participantes.

 

Segundo Daniel, os agricultores passaram a comercializar a produção em feiras, supermercados e programas de alimentação escolar. O maior resultado, porém, surgiu após a conclusão das atividades do projeto.

 

“Eles aprenderam a utilizar a tecnologia, perceberam que o sistema é simples e seguro e agora estão reinvestindo para ampliar a produção”, afirmou.

 

O professor relata que alguns produtores já dobraram a capacidade instalada. Enquanto cada participante recebeu inicialmente três bancadas, alguns já operam com seis estruturas e outros ampliaram para quatro.

 

“Isso demonstra que o trabalho foi muito satisfatório e que a tecnologia realmente foi incorporada ao dia a dia das famílias”, ressaltou.

Ciência com impacto social

Para o coordenador do projeto, o apoio financeiro da Fundect foi fundamental para viabilizar a aquisição de equipamentos, materiais e a realização das capacitações.

 

O diretor-presidente da Fundect, professor Cristiano Carvalho, destacou que a iniciativa representa o potencial transformador da ciência quando aplicada diretamente na vida das pessoas.

 

“O projeto Hidroponia para Todos mostra como a ciência e a tecnologia podem transformar a realidade de famílias produtoras. O mais importante não é apenas a instalação das estruturas, mas a autonomia construída ao longo do projeto. Quando o agricultor perde o medo da tecnologia, aprende a utilizar o sistema e passa a investir por conta própria, vemos a inovação cumprindo seu papel social”, afirmou.

 

A reportagem integra a série “Fundect: MS ama Ciência”, que apresenta resultados de projetos financiados pela Fundação e evidencia como o investimento público em ciência e tecnologia contribui para o desenvolvimento de Mato Grosso do Sul. *Com informações da Fundect.

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