Entre a família e o Estado: uma leitura do Homem Cordial em Sérgio Buarque de Holanda

*Claudinei Araújo dos Santos


O quinto capítulo de Raízes do Brasil inicia-se com uma afirmação que organiza toda a argumentação desenvolvida por Sérgio Buarque de Holanda: "O Estado não é uma ampliação do círculo familiar". A partir dessa premissa, o autor rompe com interpretações evolucionistas segundo as quais a família constituiria a origem natural do Estado. Pelo contrário, Estado e família pertencem a ordens distintas, sendo a construção da esfera pública resultado da superação da lógica doméstica. Como afirma o historiador, "só pela transgressão da ordem doméstica e familiar é que nasce o Estado".

Essa distinção é ilustrada pela tragédia Antígona, de Sófocles. De um lado, Creonte representa a autoridade da cidade, da lei e do interesse comum; de outro, Antígona simboliza a fidelidade aos laços familiares, ao sangue e às obrigações privadas. O conflito entre ambos revela que a consolidação da vida política exige reconhecer que os vínculos afetivos não podem substituir as instituições públicas. Sérgio Buarque utiliza esse episódio não como uma referência literária acessória, mas como fundamento teórico para compreender a formação histórica do Brasil.

Sua preocupação, portanto, não consiste em descrever um traço psicológico do brasileiro. O problema central é explicar por que a ordem doméstica permaneceu exercendo influência sobre a organização política nacional, dificultando a constituição de uma esfera pública orientada por princípios universais.

É nesse contexto que surge o conceito de homem cordial. A interpretação corrente costuma associá-lo à gentileza, à hospitalidade ou à simpatia atribuídas ao brasileiro. Entretanto, essa leitura é expressamente rejeitada pelo próprio Sérgio Buarque de Holanda ao afirmar que "seria engano supor que essas virtudes possam significar 'boas maneiras', civilidade".

A cordialidade deriva do cordis, do coração. Não significa bondade, mas uma forma de agir orientada pelos afetos. O homem cordial interpreta o mundo por meio das relações pessoais, da confiança, da amizade e da proximidade. Sua ação pública não é determinada prioritariamente pela norma jurídica, mas pelos vínculos construídos no universo familiar e comunitário.

Essa compreensão é reforçada quando o autor distingue cordialidade de polidez. Enquanto a polidez constitui um comportamento ritualizado, que estabelece limites entre indivíduo e sociedade, a cordialidade dissolve essas fronteiras ao transformar a convivência pública em prolongamento das relações pessoais. Nesse sentido, a cordialidade representa uma rejeição das mediações impessoais próprias da vida moderna.

Consequentemente, a cordialidade não constitui um elogio ao brasileiro. Trata-se de uma categoria analítica destinada a compreender uma forma específica de organização das relações sociais. O homem cordial não é necessariamente generoso, nem pacífico; ele age movido pelos sentimentos. A amizade pode ser cordial, mas a hostilidade também o pode ser, desde que tenha origem na mesma lógica afetiva.

A permanência dessa lógica doméstica produz efeitos decisivos sobre a organização do Estado. Sérgio Buarque observa que os responsáveis pela administração pública brasileira tiveram dificuldades em distinguir os domínios do privado e do público, uma vez que foram formados em uma sociedade profundamente marcada pelo patriarcalismo.

Nesse ponto, o autor aproxima-se da sociologia de Max Weber ao discutir a diferença entre o funcionário patrimonial e o burocrata moderno. No Estado burocrático, o exercício da função pública decorre da competência técnica e da impessoalidade administrativa. No patrimonialismo, ao contrário, os cargos públicos tendem a ser compreendidos como extensão dos interesses particulares daqueles que os ocupam.

Sérgio Buarque não afirma que o Brasil desconheça instituições modernas. Seu argumento é mais sutil: as instituições existem, mas frequentemente convivem com práticas sociais moldadas por uma tradição em que a família constitui o modelo básico de organização da vida coletiva. A confiança pessoal, o favor, a recomendação e a proximidade afetiva continuam ocupando espaços que, idealmente, deveriam ser regulados por critérios universais.

Assim, o homem cordial representa menos um indivíduo específico do que uma forma histórica de sociabilidade. Ele expressa a permanência de padrões culturais produzidos durante a formação colonial e reproduzidos na organização política nacional.

Quase noventa anos após a publicação de Raízes do Brasil, o conceito de homem cordial continua provocando debates. Sua permanência não decorre da existência de um suposto "caráter brasileiro", mas da atualidade da questão formulada por Sérgio Buarque: como construir instituições verdadeiramente impessoais em uma sociedade cuja formação histórica privilegiou relações pessoais?

Essa leitura também permite compreender por que o conceito recebeu críticas importantes. Jessé Souza, por exemplo, argumenta que interpretações centradas no patrimonialismo tendem a reduzir a complexidade da formação brasileira, deslocando para segundo plano o papel estruturante da escravidão e da desigualdade social. Embora essa crítica seja relevante, ela não elimina a contribuição de Sérgio Buarque. Ao contrário, amplia o debate ao demonstrar que a construção da esfera pública deve ser analisada em articulação com outras dimensões da história brasileira.

Desse modo, o homem cordial permanece uma categoria útil não porque explique integralmente o Brasil, mas porque evidencia a persistência de tensões entre afetividade e institucionalidade, entre vínculos privados e responsabilidade pública.

A leitura do Capítulo V de Raízes do Brasil permite concluir que o homem cordial não constitui o tema central da reflexão de Sérgio Buarque de Holanda. Seu verdadeiro objeto é a formação da esfera pública brasileira e as dificuldades históricas de separar a lógica da família da lógica do Estado.

Ao afirmar que o Estado nasce da superação da ordem doméstica, o autor desloca o debate do plano psicológico para o histórico. A cordialidade deixa de representar um atributo nacional e passa a constituir uma forma de sociabilidade produzida pelo patriarcalismo e pela permanência dos vínculos afetivos na organização da vida pública.

Tal interpretação continua relevante porque recorda que a consolidação da democracia depende não apenas da existência de instituições formais, mas também da construção de uma cultura política capaz de reconhecer a primazia do interesse coletivo sobre os particularismos. Nesse sentido, a contribuição de Sérgio Buarque de Holanda permanece atual ao mostrar que a modernização do Estado exige, antes de tudo, a consolidação de uma esfera pública verdadeiramente impessoal.

Referências

HOLANDA, Sérgio Buarque de. Raízes do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.

SOUZA, Jessé. A elite do atraso: da escravidão à Lava Jato. Rio de Janeiro: Leya, 2017.

WEBER, Max. Economia e sociedade: fundamentos da sociologia compreensiva. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 1999.

*Doutor em História pela Universidade Federal da Grande Dourados – UFGD

Este texto, não reflete, necessariamente, a opinião do Jornal da Nova. 

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