Nacional & Geral / Meio Ambiente
Amazônia abriga mais de 2,7 mil espécies de peixes, aponta estudo
Levantamento reúne dados de mais de 50 especialistas e alerta para ameaças à biodiversidade dos rios amazônicos
Luis Gustavo, Da Redação*
A Bacia Amazônica abriga mais de 2,7 mil espécies de peixes de água doce, número que corresponde a cerca de 15% de todas as espécies conhecidas no mundo. Aproximadamente dois terços desses peixes são encontrados exclusivamente na região. Os dados fazem parte da quarta edição do relatório Peixes Esquecidos da Amazônia, elaborado com a participação de mais de 50 especialistas de 30 organizações.
O estudo aponta que a Amazônia ainda possui uma oportunidade única de preservar sua biodiversidade antes que sejam necessários processos de recuperação mais complexos e caros. A conectividade dos rios é considerada fundamental para a manutenção dos ecossistemas e das espécies.
Além de servirem como alimento para as populações locais, os peixes desempenham funções importantes para o equilíbrio da floresta. Tambaquis, pacus e matrinxãs, por exemplo, alimentam-se de frutos em áreas alagadas e ajudam a espalhar sementes por grandes distâncias. Outras espécies transportam nutrientes entre os ambientes aquáticos e terrestres.
Um dos exemplos destacados é o da dourada, espécie capaz de percorrer mais de 11 mil quilômetros ao longo de seu ciclo de vida, conectando regiões próximas aos Andes ao estuário do Amazonas. Segundo o relatório, barragens construídas no rio Madeira interromperam antigas rotas migratórias e contribuíram para a redução dos estoques de peixes e para o enfraquecimento de atividades pesqueiras tradicionais.
Biodiversidade sofre com diferentes ameaças
Apesar da enorme diversidade, o levantamento alerta para a pressão provocada por hidrelétricas, desmatamento, poluição, pesca excessiva, mineração e mudanças climáticas.
De acordo com os dados reunidos no estudo, 144 espécies da região estão classificadas como ameaçadas pela União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN), enquanto outras 334 aparecem na categoria de dados insuficientes. Isso significa que os riscos enfrentados por parte da biodiversidade podem ser maiores do que os atualmente conhecidos.
As mudanças climáticas também preocupam os pesquisadores. Em algumas áreas importantes, como as cabeceiras do rio Madeira, projeções indicam que a vazão anual dos rios pode diminuir mais de 40%. Secas prolongadas podem prejudicar a reprodução e a migração dos peixes, além de reduzir o oxigênio disponível na água.
O garimpo é outro fator de risco. O relatório aponta que a mineração não industrial de ouro responde por 83% das emissões provocadas por atividades humanas de mercúrio na América do Sul. Na Amazônia, o consumo de pescado é apontado como a principal via de exposição da população ao contaminante.
Pesca é importante para alimentação e economia
A preservação dos rios também tem impacto direto sobre as comunidades amazônicas. Em algumas localidades ribeirinhas, o consumo de pescado ultrapassa 600 gramas por pessoa por dia. O peixe é uma das fontes de proteína animal mais acessíveis para famílias de baixa renda.
Pelo menos 200 espécies são capturadas comercialmente na região. A pesca ornamental também movimenta a economia e envolve milhares de famílias, com dezenas de milhões de exemplares exportados anualmente.
O estudo identificou ainda pelo menos 155 iniciativas de manejo comunitário da pesca no Brasil, Peru, Bolívia e Colômbia. As ações abrangem quase 13 milhões de hectares e envolvem mais de 1,2 mil comunidades e 21 mil pescadores.
Os pesquisadores defendem a proteção dos rios de fluxo livre, a recuperação dos regimes naturais de vazão, a restauração de habitats e a melhoria da qualidade da água. Como os rios atravessam diferentes países, o relatório também recomenda ações coordenadas em toda a Bacia Amazônica, com participação de povos indígenas e comunidades tradicionais. *Com informações da Agência Brasil.
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