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Boa notícia! Ateus triplicam no Brasil conforme Censo do IBGE 2022
*Ricardo Oliveira
Nos últimos dias foram divulgados pelo IBGE os microdados do Censo demográfico de 2022. Com isso, foi possível saber o percentual de ateus e ateias no grupo “sem religião”. E algo que chamou atenção foi o fato de que a identificação com o ateísmo triplicou na população brasileira em comparação com os dados do Censo demográfico de 2010.
A população ateia que no Censo de 2010 era composta por 615 mil pessoas (0,32%), passou para 1,7 milhão de pessoas (1%). O crescimento é substancial, ainda que seja muito modesto no conjunto da população. Infelizmente não é possível fazer comparações de longo prazo sobre a dinâmica de crescimento desse grupo da população nos Censos do IBGE, uma vez que foi somente a partir do Censo de 2010 que ele foi incluído.
Outro desafio é a precisão do resultado. No quesito religião, o recenseamento do IBGE trabalha com o método da autoidentificação. Neste caso, cabe a pessoa entrevistada dizer se possui uma identidade religiosa ou não, bem como a palavra que para expressar essa resposta.
Isso pode dificultar a identificação mais exata da população ateia no Brasil. De forma preliminar, eu apontaria dois fatores: 1) o desconhecimento em parcelas da população sobre o que seja ateísmo, no sentido mesmo de saber o que significa a palavra e, como consequência, não usar o termo para se identificar; 2) o preconceito em torno do ateísmo. Com isso, mesmo sem crença religiosa, uma pessoa pode optar por se referir como “sem religião” ou usar termos religiosos socialmente mais aceitos no país, como “católico”.
Sei que esse tipo de dificuldade não será superado apenas com uma mudança na metodologia no Censo do IBGE. A questão aqui é mais ampla e passa por processos educativos e políticas de combate ao preconceito ao ateísmo, por exemplo. Eu passei a me identificar como ateu aos dezoito anos e, por muitos anos, as únicas pessoas ateias que conhecia eram aquelas que estavam nas páginas de alguns livros de filosofia que eu lia.
Ainda assim, o fato do Censo do IBGE de 2022 ter revelado um significativo crescimento da população ateia é um indício de que algo está mudando na sociedade brasileira. E não foi apenas o grupo de ateus e ateias que cresceu. Os adeptos de religiões de matriz africana (umbanda e candomblé) aumentaram de 525 mil pessoas (0,3%), registrado no Censo de 2010, para 1,8% milhão de pessoas (1,1%) nos dados do Censo de 2022.
Na minha avaliação, o gradual crescimento da população não cristã é uma boa notícia. A sociedade brasileira, forjada no processo colonial, por séculos buscou estabelecer uma ortodoxia da fé (cristã católica), com sistemática repressão e discriminação de outras variáveis religiosas, bem como não religiosas. Algo que nunca foi plenamente alcançado, conforme se pode ver ao estudar a história do Brasil. Mas os constrangimentos foram uma constante, o que criou embaraços para pluralidade religiosa no país.
Na medida que esse quadro se altera, se faz necessário repensar nossas referências de sociabilidade, bem como políticas públicas que fomentem o direito e respeito ao pluralismo religioso e não religioso e o fortalecimento da laicidade das instituições como um mecanismo de convivência de uma população cada vez mais diversa em suas visões de mundo. Agora, será isso possível? Bom, isso dependerá das ações que teremos como coletivo.
Referências:
https://www.bbc.com/portuguese/articles/crk2p5xr0m7o
*Professor do Curso de História da UFMS/CPNA
Este texto, não reflete, necessariamente, a opinião do Jornal da Nova.
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