A filosofia de Diógenes para o nosso tempo

*Felipe Pereira


Se investigarmos detidamente a história, encontraremos grandes pensadores que foram capazes de moldar uma época e influenciar profundamente uma sociedade. Existem teorias que se iniciaram com os filósofos do passado e persistem até hoje. No período denominado Helenismo, houve um grande movimento intercultural, grandes sábios e as sementes do que hoje chamamos de globalização.

 Dentre esses sábios, um chamou-me fortemente a atenção. Diógenes, o Cínico. Esse filósofo levou a escola cínica ao extremo, chegando a viver dentro de um barril. Se a habitação desse pensador te chamou a atenção, é porque provavelmente você assistiu ao seriado Chaves; o criador desse personagem se inspirou em Diógenes.

Diógenes tinha como ideias a autossuficiência, que ele acreditava que cada indivíduo deveria depender apenas de si, buscar aquilo que lhe cabia e não viver à sombra alheia; ele também acreditava no retorno à natureza, viver em harmonia com ela, assim como os animais. Para Diógenes, a felicidade estava em viver livre das convenções sociais, baseadas em hipocrisia e que apenas serviam para aprisionar o ser humano e privá-lo de viver em liberdade. Ele se declarava cidadão do mundo. Esse filósofo desprezava o materialismo e não se perdia em discursos banais; era preciso praticar a virtude em vez de se perder em teorias sobre como ser virtuoso.

Analisando nossa sociedade atual, em que o sentido existencial passou a ser o consumismo, o apego material e o distanciamento afetivo, em que querer ter uma vida simples e sem a necessidade de conquistas desenfreadas pode parecer loucura ou, pior, sinal de fracasso pessoal. Diante desse cenário, o pensador cínico, mesmo que tenha vivido em outra época, talvez ainda nos dias atuais tenha algo a nos ensinar.  Querer ter conquistas pessoais não é algo ruim; pelo contrário, pode até nos ajudar a nos sentirmos realizados. O problema reside nos excessos, como o filósofo Aristóteles pontuou com seu conceito de Eudaimonia ou a felicidade plena; em tudo é preciso equilíbrio.

Diógenes procurou demonstrar que nós podemos ser felizes buscando bastar por nós mesmos, sem a ânsia de provar para os outros a nossa capacidade. Quando trocamos a pressão corporativa por uma tarde num parque arborizado, escutando a canção da natureza, quando não nos deixamos perder por discursos inflamados dizendo que devemos trabalhar incessantemente para sermos aceitos, conseguimos levar nossos dias com uma leveza em nosso espírito. Talvez o que nos adoeça psiquicamente seja a repressão da nossa autenticidade, quando deixamos de ousar por medo do que o Outro irá dizer. Quando o conquistador Alexandre, o Grande, ofertou a Diógenes realizar os desejos do filósofo, tudo o que o pensador pediu foi que o conquistador se afastasse e deixasse de tapar o sol. Diógenes poderia ter tido qualquer coisa que desejasse, mas ele preferiu não ter amarras morais e materiais.

Novamente trazendo essa reflexão para nossa sociedade moderna, percebo o quanto vivemos como personagens tentando sobreviver. Aceitamos roteiros que já estavam escritos antes de nascermos; vivemos uma história que podemos mudar tão pouco. Seria ingênuo de minha parte dizer que é viável levarmos nossa existência ao extremo como Diógenes, e, verdade seja dita, há muito pouco do que somos capazes de fazer; há leis e regras sociais que nos dizem o caminho correto que devemos andar. Contudo, podemos, em nossa essência e naquilo que está ao nosso controle, aplicar os ensinamentos do filósofo cínico; podemos ter nossas rebeliões saudáveis, que nos abrirão um novo olhar sobre a vida, sobre como pensamos e sobre nossas reais necessidades.

Se não examinarmos atentamente o que provém da nossa vontade e aquilo que nos é imposto, corremos o risco de nos alienarmos na vontade externa e nos tornarmos infelizes por isso. Diógenes escolheu a simplicidade, recebeu críticas duríssimas, mas manteve-se fiel naquilo em que acreditava. Enquanto muitos se perdiam na hipocrisia do cotidiano, Diógenes, o Cínico, aproveitava um esplêndido banho de sol.

*Formado em psicanálise pelo Instituo Brasileiro de Psicanálise Clínica, atua como psicoterapeuta e é pós-graduado em Psicologia Organizacional

Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Jornal da Nova. 

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