Nacional & Geral / Saúde
Médicos apontam falhas nas UTIs públicas e defendem melhorias além da ampliação de leitos
Pesquisa com 2.338 profissionais revela desigualdade entre as redes pública e privada, com problemas na oferta de medicamentos, disponibilidade de leitos e qualificação das equipes
Luis Gustavo, Da Redação*
Uma pesquisa nacional realizada com médicos que atuam em unidades de terapia intensiva (UTIs) aponta diferenças significativas na qualidade dos serviços públicos e privados de saúde no Brasil. O levantamento mostra que as avaliações negativas das UTIs públicas chegam a ser quatro vezes maiores do que as registradas na rede privada, reforçando a necessidade de investimentos que vão além da ampliação do número de leitos.
O estudo faz parte do Inquérito Nacional sobre a Força de Trabalho Médica nas UTIs Brasileiras, realizado pela Associação de Medicina Intensiva Brasileira (Amib), com apoio do Conselho Federal de Medicina (CFM). Ao todo, 2.338 médicos que trabalham no atendimento de pacientes em estado grave participaram da pesquisa.
Os profissionais avaliaram, em uma escala de zero a cinco, diferentes aspectos do funcionamento das unidades, incluindo infraestrutura, disponibilidade de medicamentos e leitos, protocolos clínicos, organização do atendimento e qualificação das equipes.
Para a Amib, os resultados demonstram que a estruturação das UTIs precisa ser tratada como prioridade nas políticas públicas de saúde, considerando tanto a infraestrutura quanto as condições de trabalho e a capacidade de atendimento aos pacientes.
Medicamentos e leitos estão entre os principais problemas
Um dos pontos de maior preocupação é a disponibilidade de medicamentos essenciais para o tratamento de pacientes graves. Apenas 22,7% dos médicos consideraram totalmente adequada a oferta desses medicamentos nas UTIs do Sistema Único de Saúde (SUS).
Na rede privada e nos serviços vinculados a planos de saúde, o percentual chegou a 57,7%.
A avaliação negativa também foi mais expressiva no sistema público. Entre os profissionais ouvidos, 16,1% consideraram inadequada ou totalmente inadequada a oferta de medicamentos nas UTIs públicas. Na rede privada, o índice foi de 3,8%.
Em relação à disponibilidade de leitos, somente 24,1% dos entrevistados atribuíram a nota máxima às unidades públicas. Nos hospitais particulares e serviços ligados a planos de saúde, o percentual foi de 51,4%.
A situação também se reflete na avaliação dos protocolos de atendimento e das condutas clínicas. Apenas 23,1% dos médicos deram nota máxima para esse aspecto nas UTIs do SUS, enquanto, na rede privada, o índice chegou a 40,2%.
Equipes especializadas também preocupam
A pesquisa identificou diferenças na avaliação da presença de equipes multiprofissionais especializadas, fundamentais para o atendimento de pacientes em estado crítico.
Na rede privada, 39,2% dos médicos atribuíram nota máxima à disponibilidade dessas equipes. No setor público, o percentual foi de 23%.
As avaliações mais baixas para esse quesito foram registradas por 24,8% dos profissionais que atuam na rede pública, contra 13,8% daqueles que trabalham em unidades privadas.
A presença de enfermeiros com formação específica em terapia intensiva também recebeu avaliações distintas. As notas máximas foram atribuídas por 16,9% dos médicos no setor público e por 25,1% na rede privada.
Já as avaliações negativas sobre esse aspecto chegaram a 37,2% entre os profissionais que atuam no SUS e a 26,4% na rede particular ou vinculada a planos de saúde.
Diferenças aparecem em quase todos os aspectos avaliados
Considerando as notas zero, um e dois, que representam avaliações baixas, 32,6% dos médicos classificaram negativamente a disponibilidade de leitos nas UTIs públicas. A avaliação negativa dos protocolos de atendimento chegou a 27,4%.
Na rede privada, os percentuais foram de 7,7% para a disponibilidade de leitos e 14,3% para os protocolos clínicos.
A diferença entre os dois setores foi observada em 12 dos 13 aspectos analisados. A única exceção foi a avaliação das tarefas administrativas e burocráticas, que apresentou percepções semelhantes entre os profissionais das redes pública e privada.
Brasil tem 43,9 mil leitos de UTI
De acordo com a Associação de Medicina Intensiva Brasileira, o país conta com 43.901 leitos de terapia intensiva, sendo 34.927 destinados a adultos e 8.974 voltados à pediatria e à neonatologia.
A entidade pretende apresentar os resultados do levantamento a gestores públicos e privados, além de autoridades responsáveis pela fiscalização e pelo controle dos serviços de saúde.
O objetivo é estimular medidas que melhorem as condições de funcionamento das unidades e a qualidade da assistência prestada aos pacientes graves.
Os dados reforçam que a ampliação de leitos, embora importante, precisa ser acompanhada de investimentos em medicamentos, protocolos de atendimento, infraestrutura e equipes especializadas para garantir maior segurança e qualidade no atendimento intensivo. *Com informações da Agência Brasil.
Cobertura do Jornal da Nova
Quer ficar por dentro das principais notícias de Nova Andradina, região do Brasil e do mundo? Siga o Jornal da Nova nas redes sociais. Estamos no Twitter, no Facebook, no Instagram, Threads e no YouTube. Acompanhe!






